Quarta-feira, 14 de Dezembro de 2005

passarola

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Perguntaram-me por que escrevo. Devia era estar calado não é? – perguntei com franqueza. Parvo, atiraram-me. Respondi que é porque gosto e que é tudo. Leio-te todos os dias. Palavra? Porquê, perguntei. Pela mesma razão por que escreves. Porque gosto. Quem me conhece sabe o que penso do elogio. Da influência ruim e desencaminhadora do elogio. Agradeci e recebi silenciosamente o louvor, como me ensinou a minha mulher. Escrevo porque gosto. Leio porque gosto. Que duas mentiras tão completas. Escrever, como ler ou conversar, envolve para mim muito mais do que gostar disso. Envolve a urgência que se impõe de pensar. Escrevo para superar a fatigante luta contra a imprudência. Contra a inexperiência de pensar. E a autoridade que lhe é concedida. Não é uma urgência popular, esta. Sofremos todos os dias com a inexperiência de pensar. Todos quantos respeito, sentem-na. Vivamente. Outros, é certo, nem a pressentem. A inexperiência de pensar considera que, quem pensa, pensa que se considera mais do que pensa. E di-lo com toda a insolência. Diz-se que é despudorada a ignorância. Não sei desse impudor. Mas sei que é nesse sentido que, tantas vezes, o acto dificílimo de pensar constitui um risco. Uma linha pisada. Uma regra transgredida.

Se há regulamento que se estabelece com facilidade e soberania é o de não pensar. Não pensar é instintivo e é espontâneo. Ninguém nunca foi proibido de não pensar. Já muitas vezes na história se viu onde chega o não pensar. Ideologias inteiras baseadas no não pensar encorajaram milhões de homens e mulheres. A teleologia nazi é um oxímoro de si mesma. Uma auto-negação epistemológica. Pensar e poder são verbos conflituosos. Quem pensa, poucas vezes pode e quem pode, poucas vezes pensa. O poder não gosta de quem pensa. Não gosta, porque não sabe bem o que fazer com quem pensa. Não está à vontade. Que pensar envolve questionar a imutabilidade e o poder tem um credo: o da estabilidade. Que é o nome que se dá a toda a indolência política. Nenhum poder são é estável. A instabilidade é a fonte de todo o poder e a sua transcendência, a sua soberania, provêm desse desequilíbrio entre o regulamento e a sua contínua reparação.

Pensar constitui, assim entendido, um acto de indemnização. Um ressarcimento da diferença entre a visão e a norma. Porque pensar não sobrevive, como conceito operativo. Pensar não existe. O que existe é pensar diferente. Isso é que é o que habitualmente pensamos que pensar é. Permitir que se não pense é a melhor forma de não pensar. Não pensar é sempre pensar de uma maneira só. E é também nunca perceber que tal não existe, enquanto houver duas pessoas. Ou uma só. Uma que seja. Ou seja, que pense. É neste sentido que pensar é um risco. O risco de melindrar, de atingir interesses para defender uma comunidade e o bem que se lhe quer, foi sempre um gesto de coragem e, vezes demais, de exclusão.

Não precisamos de ir ao Copérnico ou ao Galileu. No lugar onde trabalho algumas das pessoas que melhor pensam são pessoas com um relativo insucesso social e político. Todos conhecemos pessoas que foram ostracizadas apenas porque, num dado momento das suas vidas, pensaram. E muitas aprenderam a lição, nunca mais pensando ou fugindo do trato social como o diabo da cruz. É, talvez, esta a pior parte do trânsito social: a inexperiência de pensar impõe sanções duras sobre quem infringe essa languidez. Muitos comigo pensam, ainda, que pensar implica correr riscos que importa correr. Riscos que isolam pessoas.

O cúmulo do abuso, e o refúgio último desta solidão é o senso comum ou, pior ainda, o bom senso. Tudo coisas que nunca ninguém saberá nunca o que são. O senso comum é a utopia, o não lugar, de quem pensa. Não há nada mais oblíquo e quimérico do que essa coisa do senso comum. No entanto, precisamos do tal senso comum como de pão para a boca. Usamo-lo como as mulheres antigas usam uma sogra para equilibrar à cabeça uma bilha cheia. Para não nos magoarmos escusadamente. Ter o senso comum empenha a tal urgência de pensar. Sugere a ideia pela qual existe uma sorte de lençol freático que corre por baixo dos pés de todos e que a todos sacia alguma da sede que a vida nos traz à boca. O senso comum é, neste sentido, a maior precisão de todas. É a matéria de todo o pensamento são. É uma fonte limpa. O senso comum é um horizonte impensável. Uma linha imaginária paradoxalmente distinta e sem geografia. O direito de pensar é um dever. O dever de dever a quem pensa. Mas alongo-me dispensavelmente. Por gostar, talvez.


"Que cansaço é amar, pensei. Trabalhar muito, projectar, ambicionar, não poder contentar-se uma pessoa com a perseverança e a imobilidade. Que cansaço é o concreto, pensei, o que não tem outro remédio que ter conteúdo. Que cansaço também o que ainda há-de ser."

Javier Marías, El hombre sentimental (1986)
publicado por Rui Correia às 23:37
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