Sexta-feira, 16 de Dezembro de 2005

homo electus - soares, alegre e cavaco

soares.jpg A primeira coisa que me ocorreu quando percebi que a intenção de Mário Soares se candidatar à presidência da República era, afinal, verdadeira, foi a seguinte: foi um bom presidente. Nada mais. Foi só isto. Mário Soares foi o melhor presidente que tivemos desde que há presidentes em Portugal. Sampaio é outro que tal. Depois de cinco décadas de militares, Soares deu a Portugal a primeira visão contemporânea do que é ter um presidente civil. A responsabilidade de um presidente nunca será igual à que ele teve. Como presidente foi justo, plural e distinguiu o país durante uma década. Na altura pensava-se que a Constituição devia permitir mais anos de mandato para um presidente. Logo a seguir, apareceu-me alguém a dizer que o homem estava velho. Alguém tinha contado, o homem está com 81 anos. Fiquei a pensar se o mundo tinha mudado tanto em vinte anos, ao ponto de se achar que um presidente, hoje, não pode ter 81 anos de idade. Pensei também se terá existido uma revisão constitucional que impedisse um velho de ser presidente. Ou de tentar sê-lo. Não houve. Disse-se que a coisa era pouco republicana; que o que é importante é renovar. Lembrei-me, então, dos republicanos, coisa que não me apetecia nada, mas pronto: lembrei-me do Bernardino Machado que foi o terceiro e o oitavo presidente eleito da Velha República Portuguesa, aqui com 74 anos. Percebe-se depressa que a questão da idade de Soares não passa de uma coisa estética, oriunda de um postulado adolescentista pelo qual o mundo quer-se moderno, sem velhos. Manuel Alegre apareceu a reforçar a teoria da renovação. Tenho uma enorme estima pela personalidade de Manuel Alegre. Já aqui uma vez falei disso, longe das lides eleitorais. É o meu Ad Patrem. É o que eu penso que deve ser um senador. É um daqueles nomes que serve bem de repositório dos valores da cidadania republicana e uma memória viva e indispensável da luta pela liberdade. Mas, se dizem que eleger Soares é voltar ao passado, aos anos noventa, creio que ter Manuel Alegre como presidente é voltar ainda mais atrás no passado, aos anos sessenta. Que eu o veja à volta de um microfone numa emissora de rádio argelina a dizer poemas de luta pela liberdade, ainda vá que não vá; mas parece-me que ele próprio ainda se vê dessa maneira. E isso é que já não se aceita tão bem. Porque o mundo mudou desde que a Madalena Iglésias estava no seu auge. Muitos dos seus diligentes apoiantes são-no por razões tão enviesadas que aflige: porque ele é um homem contra os barões do Partido a que pertence; porque é um independente; porque é a cidadania em acção; porque fala das mulheres; porque o outro é que nem pensar; porque é poeta e fala do que queremos ouvir na voz de um político com poder. Um romantismo, purinho. Quase sensual. A poesia ao poder agrada como figura de estilo. Mas não se pode eleger, como presidente da nossa república, uma figura de estilo. Desculpem ter de recordar, mas Santana Lopes foi uma figura de estilo e deu no que deu. O mais grave nem sequer é isto. O mais grave é que Manuel Alegre é um homem preso na rodilha de um maniqueísmo sem limites. Quando confrontado com questões concretas, ele diz ou sim ou sopas, como que não parecendo ter noção da complicação das coisas, atirando assim umas banalidades genéricas para o ar; umas que ninguém pode nem quer refutar. Em todas as aparições reconhecemos na sua voz pátria os nossos egrégios avós, mas não a voz do nosso tempo. É um agnóstico mundano. Aparece-nos como que abstémio do nosso tempo. Soares é um velho, e isso não é defeito. Entendamo-nos mais e melhor: nota-se que é a voz que não lhe acompanha o pensamento e não o contrário. Tem poesia e dedica-se-lhe. Publicou livros com os seus poemas preferidos. E são muito bons, os que escolheu, que eu já os li. É, neste sentido, o diametralmente oposto de Cavaco Silva, que não representa senão uma visão estéril e falha de inspiração. Não tem absolutamente nenhuma clarividência. Não inspira. Um presidente, como um hino e como uma bandeira, precisam de ter esse magnetismo. A Rússia readoptou o hino da União Soviética por causa disto. Cavaco não tem magnetismo sequer para atrair um clip. De Cavaco apenas podemos contar com secura. Cavaco não tem uma vida. Tem um currículo. Constrói estradas e prédios grandes na frente dos Jerónimos. Soares escolhe os Jerónimos quando pode. Por falar em Jerónimos, Soares ouve Tom Jobim. Cavaco, não faço ideia do que ouve. Ninguém faz. Acho que não ouve nada. Sei que, enquanto esteve no poder, não sabia ouvir nada nem ninguém. A blague destas eleições é um Cavaco a arvorar-se defensor da concertação. Chamar-lhe-íamos "político sem visão" se ele se assumisse como político. É – ficamos assim – um "economista" sem visão: dilatou a função pública como ninguém o fizera até então e, em simultâneo, arrancou com as privatizações do sector público. Após ter deixado a presidência, Soares manteve-se activo e interventor ao longo de todos estes anos. De 1996 até hoje. Ininterruptamente. A sua fundação não lhe serviu, senão para se manter acutilante e interveniente. A casa do pai em Cortes, Leiria, é o que é. Quanto a Cavaco, nada há a dizer. Nem bem nem mal, que o nada é feito disso mesmo: de nada. Desde que perdeu as últimas eleições, Cavaco esteve sempre calado sem fazer nem dizer coisa alguma. Publicou memórias quando se preparava para iniciar outra opacidade, outra predilecção sua: os tabus. Será que quer? Será que não quer? Cavaco gosta destes enredos palacianos. Vê-se como um redentor e afinal não passa de um tipo que anda apenas à espera de ser outra vez o que queria ser, depois de ter sido ministro e primeiro-ministro. Soares é transparente. É um político. Valoriza os políticos, dizendo que ser político é bem mais dignificante do que andar a vida toda a tentar ganhar dinheiro. Cavaco é opaco a tempo inteiro. Tendo sido político desde 1980, com Sá Carneiro, diz que não é um político. É o que é. Alegre tem sido o que Alegre sempre foi. Poeta e deputado. Nunca mudou. Mesmo. Para algumas cabeças, ser presidente é a sequência natural que se segue ao cargo de primeiro-ministro. É uma coisa estética. Balsemão e Guterres, Durão e Santana são capazes de pensar da mesma maneira. Mais cedo do que mais tarde também estes est(af)etas da presidência por aí virão.

publicado por Rui Correia às 21:44
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