Domingo, 18 de Dezembro de 2005

é fatal, é fatal

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"Mas soa a meia noite E logo o nada
deixa de estar em tudo como estava"

David Mourão-Ferreira, Nada/Natal (1971)


Que medo é este? Que pânico é este que se sente, quando o ano começa a chegar ao fim? Por que foge tanta gente para fora do país quando cheira a natal e a passagem de ano? O que temem os psiquiatras nesta época? Por que se enchem os seus consultórios? Por que se apinham os confessionários? De onde vem esta prostração? O que tem a “quadra” de tão fatal que atira para as ruas da amargura tanta gente que, ao longo do ano, vive mais ou menos confortavelmente no interior de si mesma?

Há uns tempos pensei que o problema era ideológico. Que era por causa desta bebedeira comercial colectiva que se substitui todos os anos à introspecção altruísta que se lhe devia sobrepor. A verdade é que é inquestionável que o consumismo natalício assume hoje contornos de desastre ambiental. É, evidentemente, surrealista toda esta efervescência desembolsante que esvazia economias inteiras, sobretudo as de quem as não tem. E não se acuse os reis magos. Os reis magos nada têm a ver com isto. É o insenso comum que o dita: no natal, o único incenso que mirra é o ouro.

O que me intriga é o medo. Que medo é esse? Será que estar só no natal é a pior de todas as solidões? Não ter a quem dar um beijo na boca, quando o ponteiro chega ao doze é o quê, exactamente? Que descampado silente vêem na sua frente? Que entorpecimento é este? Por que incandesce essa sedição emocional que é o assombro insinuado pelo natal? “Família e balanços, meu amigo”, disse-me uma psicóloga há uns anos. “Família e balanços. Por um lado, as pessoas acham que têm todas que ter uma família muito natalícia, muito “noite de paz”, à volta do pinheirinho e das luzinhas a dar a dar e das prendinhas a dar e receber; por outro, uma semana depois, dá-lhes para os balanços de vida, hipnotizados pela maluqueira do “ano novo vida nova”. Um despropósito.”

Eu nunca tive nada de político contra o natal. Sempre gostei do natal. Comemora-se o nascimento de um homem destemido e um herói humano. Sempre achei bem que o calendário de uma civilização se reja pelo nascimento de um homem bom. Um amigo bom que também tenho chama a esta temporada, a época cínica. Eu acho que a época cínica começa quando o natal acaba. E é facílimo acabar com ele, porque o natal acaba sempre que um homem quiser. Não sou crente; sou um ateu, que é uma espécie de teólogo na clandestinidade, um abstinente. Agnóstico é que não me parece bem por causa da etimologia; a mim dói-me muito a minha ignorância. Mas percebo uma coisa. Que o natal é tão resvaladiço e escorregadio como as estradas em Dezembro. E que os acidentes acontecem quando menos se espera.

Por isso, na minha vida, que já vai com três ou quatro cicatrizes sepultadas, terei já, ao menos, aprendido duas coisas: que um natal acontece quando menos se espera, mas que uma vida nova é que não.
publicado por Rui Correia às 18:49
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