Quarta-feira, 21 de Dezembro de 2005

espadarte

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Naquele que é um dos livros mais antigos da minha vida, The Old Man and the Sea, talvez mesmo o mais relido de todos os meus livros, o velho pescador Santiago, persegue obstinadamente um peixe. Não se trata bem de uma perseguição. Na verdade, é o peixe que o conduz para alto mar, para de onde é praticamente impossível regressar. A perseguição, por tão demorada e difícil, leva à exaustão, tanto do homem como do peixe. Conseguida, finalmente, a presa, ultrapassado um horrível sofrimento que lhe cortara as mãos e lhe rasgara o corpo, Santiago não tem como saborear a vitória. A sua conquista acabará nos dentes de tubarões esfaimados, sempre submissos ao sangue e à inflamação dos instintos. Um simples acidente, que envolve ventos e marés, permitirá a Santiago que regresse à sua praia caribenha, sem mais do que dois esqueletos para exibir. O seu e o de um espadarte. Enormes e ridículos. Mas existe vitória no velho. A vitória de uma dignidade que reencontrou e que recolheu, salgada, de um combate desigual e singular: o da morte de uma parte de si mesmo, perante a morte inútil de outrem que lhe é inesperadamente semelhante.

Ernest Hemingway, esse escritor tão humano, inspirador, difícil e decepcionante, apresenta-nos assim o tema clássico da coragem face à derrota e do triunfo pessoal que pode resultar da perda. De mão dada com a Ilha do Tesouro de Robert Louis Stevenson, o primeiro livro grande que li e o Moby Dick do Herman Melville, o segundo, estas foram as obras que encheram boa parte da minha iniciação à literatura. Livros cheios de mar. Destes três enormes escritores de língua inglesa ficou-me uma lição essencial que reencontro muitas vezes na minha vida: que as dificuldades são momentos de oportunidade. São momentos de prova e de testemunho. Momentos em que tudo o que é mau se mascara de montanhas insuperáveis. De nuvens negras e prenhes. Momentos em que nada, mas nada mesmo, parece ter ou poder voltar a fazer sentido; momentos em que a impotência e a decepção não dão lugar à vontade; lugares de dolência onde a esperança só é verde por estar coberta de limos ou de heras; momentos temíveis onde o riso não tem som e o sorriso não tem cara.

E, no entanto, desta paisagem descampada e solitária, mais e menos vagarosa, dessa solidão funda e lenta a que somos lançados, desse mar alto e denso onde somos mergulhados, surge sempre – e é impressionante a sua pontualidade – um gesto, uma palavra, um olhar, um toque, uma notícia, uma graça, uma canção, uma frase, um suspiro, uma lágrima, um adejar de asa, uma cor qualquer que nos tinge os olhos e a alma – que a alma existe, sim, mas não se deixa cercar por essa incompetência maior que são as palavras.

E todos estes gestos, estas coisas tão ansiosamente inesperadas que nos roubam da tristeza com um esticão vigoroso, não apenas nos confortam e nos regeneram energias que julgávamos perdidas, mas lançam-nos na audácia. Nessas campas da emoção onde nada florejava, surge um dia um fulgor, que irrompe, discreto e poderoso, circunspecto e inabalável como uma madrugada.

E a vida volta a demorar. O tempo volta às suas voltas. E, presos a esses gestos e a essas coisas que nos trouxeram de volta à praia, esses ventos e marés fortuitas, chegamos sãos e salvos, sem quase nada para mostrar senão ossadas, aparentemente brancas e aparentemente salgadas. Mas só é assim por aparência. Que ninguém vive, ninguém realmente vive das aparências.

Ao chegar a essa praia, somos agora os mesmos outros de sempre. Feitos e refeitos. Sem quase nada para mostrar. Porque o que somos não é o que fomos. O que somos é o que vamos sendo. Que pode ser pouco para mostrar. Mas, só é pouco por ser pouco aquilo que somos e não porque seja pouco aquilo que vamos sendo.
publicado por Rui Correia às 18:32
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2 comentários:
De Rui Correia a 23 de Dezembro de 2005 às 13:40
"como um espécie de anzol para a superfície."? Não há dúvidas que o leste como um livro deseja ser lido. Que essa é a aposta que sempre se joga na leitura. Muito pouco depende do arremesso se não estivermos dispostos a uma espera ponderada.
De carolina cortez a 23 de Dezembro de 2005 às 02:23
Trouxe "The Old Man and the Sea" de uma casa em Évora onde há muitos livros. Trago-os devagarinho e mesmo assim alguns continuam por ler. O primeiro contacto que tive com o livro foi através do programa de nono de português. Não sei se por causa da obrigatoriedade da leitura ou se simplesmente por estupidez este também foi ficando para a véspera de algum momento "importante".
Como o momento não chegou, pelo menos muito notório, o livro ficou para uma noite de férias de Verão com margens de pessoa-professora quase em código.
Lembro-me claramente de ter lido o livro como uma espécie de anzol para a superfície.´
Carolina

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