Sábado, 7 de Janeiro de 2006

Alfredo

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Corria o Outubro de 2004, deu-me um dia, numa viagem de autocarro entre Lisboa e Caldas, para pensar no que seria o meu regresso à profissão de professor em full-time, depois de oito inesquecíveis anos na direcção da minha escola. Uns apontamentos que então risquei, após um valente desapontamento pessoal, ficaram espalmados no meio de um caderno. Eis que o acaso me lança agora, logo hoje, esse remoto texto às mãos.

Decidi hoje que não vou concorrer a um lugar que me dizem poder abrir na Raul Proença. Tenho uma afeição muito especial por aquela escola. Trabalhei lá muito. Fiz lá dois ou três eternos amigos. Naquela escola fui padrinho de casamento de dois alunos meus. Diverti-me muito, muito. Mas, também ali, os tempos são outros. Uma partida da minha escola conceder-me-ia uma desejada alforria, presumo. Enfim… está decidido. Caso tudo corra como deve ser, e correr “como deve ser” é o eu ter a certezinha que isto é mesmo para terminar neste mandato, o próximo será um ano de grandes mudanças na minha vida. A verdade, verdadinha é que ando muito entediado com as tarefas que tenho sob a minha responsabilidade; tarefas que foram pura escolha minha; nunca pensei, contudo, que as tomasse por tanto tempo. Tudo isto é, por assim dizer, uma enorme contrariedade, aqui e ali entrecortada pelas alegrias, grandes e intermitentes, que me vão dando os meus amigos de direcção. (Que será desta amizade? Recuo ao tempo em que ela não existia e pergunto-me se aquilo que nos une, será aquilo que, por desaparecer, naturalmente nos desapegará. Não sei, ninguém sabe.)

Como será a minha vida após ter passado oito anos num Conselho Executivo? Deixa lá ver. A verdade é que tudo isto tem sido tão intensamente vivido e pensado que já nem me recordo do que era antes de estar na direcção. Haveria vida antes do Conselho Executivo? Pensemos: num ano, caí lá; a seguir, enamorei-me com arrebatamento por uma mulher bonita; depois, andava a disputar umas eleições garridas e pronto, mal dei por mim, estava a tentar pôr uma escola em dia.
Interrogo-me como será, nesse futuro à vista, o meu regresso às aulas, a minha tornada à sala de professores? (Por que me rio disto?) Não será bem um regresso às aulas porque nunca dispensei completamente as aulas. Mas é uma faceta descurada na minha vida, isso é que é. Pobres alunos. Nunca fui tão mau professor como durante estes anos. Não há o raio de uma aula que não seja interrompida por alguém que quer de mim qualquer coisa, sempre inadiável, desde telefonemas institucionais a redes informáticas com miocárdios em enfarte. Outra coisa: agora que conheço tão inteiramente quase todos os meus colegas, como irei eu lidar com isso? O que conheço de mim não vai deixar que me transforme noutra pessoa qualquer, que não tenha a mesma antiga preocupação em fazer coisas. Outra vez. Sempre o mesmo. Executar. Realizar. Pôr tudo quanto leio e quanto estudo em prática, fingindo que a teoria anda longe, para não armar ao pingarelho como aqueles que todas as semanas observo com irreprimível náusea. Encontrar-me-ão junto dos alunos. Com eles. Não é para eles, nem por eles. É para mim, com eles, por mim.

Quero ser alguns professores que tive. Quero ser o meu professor Veríssimo, de latim e de língua portuguesa, elegantíssimo e rigorosíssimo, o meu professor José Bóia, de inglês, polido e prazenteiro, a minha professora Regina Duarte, de alemão, amiga e superior, o meu professor José Pires Lopes de Azevedo, de Filosofia e Sociologia, distinto utopista, poeta e coleccionador panteísta de arte junto ao mar, os meus excelentes professores de História, Custódio Pinho e a minha brilhante professora Adelaide Ribeiro que me ensinou o que é a responsabilidade de escrever História e que muitos anos depois de ter sido seu aluno, me evocou num livrinho que publicou - um gesto que ainda agora me comove.
Se puder trabalhar com alegria, hei-de ser um pouco desta gente inspiradora. O meu primeiro aluno chamava-se alfabeticamente Alfredo e um dia, do alto dos seus doze anos, disse-me que eu era três coisas: exigente, divertido e tinha presença. Arrumou-me com aquela. Dar-me aos alunos. É essa, sempre foi, a minha disposição.

A minha participação na vida da escola não será nunca a de um judicioso recolhimento. Não me sei dar a essa gravidade. Não tenho vocação para sapiente sentencioso. Conheço-me demasiadas falhas. Quem quer que nos suceda, terá uma enorme responsabilidade. Tenho muito medo que deite a perder algumas coisas cervicais que implementámos. Contará com a minha lealdade mas com a minha exigência. Só assim sei viver a minha vida e as minhas amizades; não as sei viver de outro modo. Estarei, pois claro, activo e atento. Encontrar-me-ão junto dos meus alunos, com eles, por mim. É assim, ali, que eu me sinto mais.



(Dias como este são perigosos. Ficamos de coração aberto e julgamos que é assim que todos o fazem também. E não é. Enfim. Ponho-me a relê-lo e a transcrevê-lo. Hoje, que tanto preciso de alento).
publicado por Rui Correia às 00:37
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3 comentários:
De Nuno Marques a 14 de Março de 2007 às 01:41
neste texto fica espalhada a realidade de um professor que tanto deu a essa escola como se de sua amilia se tratase e trata mesmo afinal todos nós tems um sentimento algo famiiar a ligarnos todos contamos com todos e ajudamos todos.
Peço desculpa poro que vou fazer a seguir, mas deixando relações escoares há parte tenho de lhe dizer isto meu grande amigo Rui Correia, considerome acima de tudo um dos seus amigos e orgulhome pela estima e orgulho que demonstra por mim,bem sabe meu amigo a estia e admiração que tenho por si e realmente o aluno que teve a a destreza de o adejectivar olhou o grande homem que tinha na frente com olhos compenetrantes.
no entanto gostaria de acrescentar alguns adjectivos
o senhor Rui é amigo,fiel,consiso,claro,recto,exigente,companheiro,excelente orador,excelente conselheiro, muito fiel as suas ideologias,é um ser humano de uma bondade e humanidade extremas
um grande abraço meu amigo
deste seu amigo e aluno
De Rui a 21 de Janeiro de 2006 às 14:36
maricas, maricas...
De Nabais a 8 de Janeiro de 2006 às 17:37
Amigo, por feitio, passo pela vida calado, calando sentimentos que devem ser ditos. É aquela vergonha masculina (?) que nos faz rir das declarações de amizade, levando-nos a declarar essa mesma amizade através de brincadeiras saudavelmente parvas. Mas, agora, depois de ler o teu texto, não me apetece conter-me, nem sequer me apetece brincar (coisa tão rara no meu eu público). Apetece-me dizer que tenho muito orgulho em ser teu amigo.

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