Sexta-feira, 10 de Fevereiro de 2006

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"Maomé no Inferno", fresco de 1415, da autoria de Giovanni da Modena, na Basílica de São Petrónio em Bolonha


Um jornal regional, conservador de direita, publica, em Setembro de 2005, uns cartoons em que se retrata o profeta Maomé – insígnia alegórica do Islão – como um instigador do terrorismo. A esquerda dinamarquesa reage, opondo-se a esta visão simplista, boçal e xenófoba que as caricaturas sugerem. A coisa passa. Mas outros jornais, desta vez nacionais e internacionais – sim, porque a estupidez é internacional - decidem republicar as tais caricaturas. Naturalmente, as comunidades islâmicas reagiram também. Mas já não pelas mesmas razões da esquerda dinamarquesa. É que a representação pictórica do profeta Maomé constitui um tabu islâmico. Por instrução do próprio Maomé, é nefanda a representação da figura do profeta. As caricaturas ofenderam, afinal, a sensibilidade religiosa de milhões de pessoas. O clero extremista imediatamente concitou a populaça ao ódio pela Dinamarca e, por simpatia política, a toda a Europa e a todo o Ocidente. Numa altura em que o Ocidente andava absorvido na tentativa de demonstrar que o Islão radical não é todo o Islão, o Islão desata a demonstrar que o Ocidente radical é todo o Ocidente. E pronto, entramos nas sete quintas da incultura: os muçulmanos, afinal, sempre são uns radicais xenófobos e os ocidentais, pelo contrário, não passam de uns radicais xenófobos. Aqui estamos nós, numa inquietação frenética, no quentinho da ignorância. Voltámos às Cruzadas e às Jihads: a Cristandade contra o Islão. Infiéis contra infiéis. Jerusalém contra Carlos Martel. Grotesco.

A minha avó repetia-me “Não invoques o nome do Senhor em vão”, quando eu deixava escapar um “Meu Deus” a propósito de qualquer coisa. Assim são as imagens de Maomé para os muçulmanos. Não deve evocar-se a imagem de Maomé em vão. Que fazer quando um muçulmano invoca o nome do Jeová em vão? Que fazer quando um católico desenha a figura de Maomé? O que devemos é recordar que, no Direito, existe um postulado que reclama a proporcionalidade das penas. E que tal ideia é muito simples. Não deve uma punição ser desproporcionada face ao crime cometido. Aquilo a que temos assistido é justamente à profanação deste bom senso: mata-se por causa de caricaturas. Governos há que pedem desculpa por causa de caricaturas. Num regime democrático como o nosso, tão incompleto como o nosso, tão indispensável como o nosso, pedir desculpa por publicar caricaturas mordentes é pura inépcia. A liberdade de expressão só o é quando é incómoda. Nenhuma liberdade de expressão é uma liberdade de consentimentos. É uma liberdade com sentimentos, emoções, polémicas e combate. Se não aprendemos isso com Bordalo Pinheiro, então não aprendemos nada, não sabemos coisa alguma. E sabemos mais do que isso. Sabemos, sabemos.
publicado por Rui Correia às 12:39
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4 comentários:
De Rui a 11 de Fevereiro de 2006 às 12:02
Muito bom o artigo que alguém encontrou no site sobre o fresco. Tem uma frase particularmente simples: "We must never forget that “one man’s belief is another man’s blasphemy”. I don’t want to see Christians burning copies of the Qur’an because of its blasphemy against Christianity. But I know that there are those in western society working towards that very end." Obrigado underscore.
De Rui a 11 de Fevereiro de 2006 às 12:00
A espreitadela que dei às caricaturas deu-me conta exactamente disso; que não são sequer especialmente interessantes. Algumas delas são, como dizes, medíocres e sem rasgo. Impressiona-me que se convertam em bandeira da liberdade de expressão. A liberdade de expressão mereceria melhor pretexto. Mas é, sempre foi, assim: não se espere por grandes pretextos para defender o que é indispensável. Obrigado Luís.
De Luis Filipe Redes a 11 de Fevereiro de 2006 às 04:26
Para mim é muito claro: se o Alcorão proíbe a representação de Deus, do seu profeta e do corpo humano, isso é uma interdição que diz respeito aos seus seguidores e, não, aos outros. A caricatura de Maomé que o apresenta com a bomba no turbante pode ser vista como uma alegoria do fundamentalismo bombista e não do próprio profeta. Pouco importam as caricaturas, que são medíocres, e o jornal dinamarquês. O problema é o seguinte: devemos ceder e limitar os nossos direitos por causa deles? Quandos pensadores livres é que foram mortos antes de dispormos da liberdade de expressão?
De _ a 10 de Fevereiro de 2006 às 22:12
http://www.secularislam.org/viewpoints/fresco.htm

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