Sábado, 11 de Fevereiro de 2006

lugar

Não consigo compreender como é possível suportar uma dor imensa. Dores há, que conhecemos bem, que são grandes e que são difíceis. Outras há, porém, que, sendo imensas, não podem deixar de ser impossíveis, fautoras de um estado brutal e incontrolável de sofrimento e exaustão, dilacerando de tal forma as entranhas, umas e outras, que tornam impossível a vida humana à face da terra. E, no entanto, não é assim. É tudo mentira. A coragem irrompe como uma majestade. Uma rebeldia. Toda vestida de quebranto. A vida resiste, mesmo despida de alento. Esta capacidade humana em sustentar o insustentável revela-se-me sobrehumana, incompreensível. Para quem, cujas dores de vida têm sido comedidas, este sentido de superação é completamente impenetrável.

Deixemos isto nas mãos dos técnicos. O bom do Herberto Helder. Dessa árvore soberana que é a sua obra sugo uma resina:

“Vejo que a morte se inspira na carne
Que a luz martela de leve”
…

Um amigo que antigamente tinha deixado de ser meu aluno para ser apenas um amigo, deixou de ser. Morreu no final de uma inglória e íntima guerra civil. O que houve de insuportável nisto não é o que sentimos todos. Foi o ser isto insuportável e não poder ser. Distante e ali mesmo, espiei a agonia dos seus pais. Concluí, de novo, que a vida sabe de muitas coisas que eu não sei, que não conheço. Evidentemente incapaz de resistir a tudo, ela dura, prometendo o que não pode cumprir. Inatingível na sua iniquidade. Ávida. Paradoxal. Incompreensível. Comovente. Auspiciosa.
publicado por Rui Correia às 13:02
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