Quarta-feira, 22 de Março de 2006

O braço contínuo

Constituem um dos ramos mais incompreendidos da administração educativa. Desempenham as funções mais desiguais que se possa imaginar. A sua importância é tal que, se meia dúzia deles falta, toda a escola pára “por não existirem condições para o funcionamento regular das aulas”. Fazem de tudo e servem para tudo.

Já foram só “contínuos”, mas agora têm nomes mais modernos de que ninguém nunca se lembra. Os alunos chamam-lhes “contínuos” e é isso mesmo que são: continuamente disponíveis. São os auxiliares de acção educativa. Já o tinha dito: fazem de tudo. Tanto cortam bifes aos pequenitos, que ainda não dominam o garfo e a faca no refeitório, como se revelam especialistas em equipamento audio-visual ou informático. São rigorosos quando é preciso e meigos quando se lhes fala com o cuidado que se lhes deve. Lidam em directo com os alunos durante os intervalos, ou seja, nos momentos em que os alunos deixam de ser alunos, para se tornarem apenas pessoas. Conhecem-nos muitas vezes melhor do que os professores. Cuidam dos alunos e confessam ser isso o que de melhor tem a sua profissão.

Mas a moeda tem outra face. Sentem-se mal na pele que vestem. Não se sentem respeitados por pais, por alunos e por professores. Provavelmente não são. Não têm a remuneração que o seu trabalho merece. Sentem-se vistos como profissionais de segunda, quando o que são é profissionais de segunda a sexta.

A verdade é que há quem os dignifique e há quem os enjeite. Encarregados de educação que os olham sem a autoridade que o seu estatuto lhes concede, professores que os tratam ainda como se “auxiliar” fosse sinónimo de “subalterno”, alunos que os vêem como se fossem transparentes. Até por vezes os próprios colegas fazem algumas confusões com isto tudo.

E, depois, quando os conhecemos melhor, vemos que, como sempre, cada um deles é uma pessoa, com cabeça, família, tronco e membros. Com sentimentos, alegria e com desânimos. Durante o dia, são, por assim dizer, o braço direito da educação; à noite vigiam a escola e transformam-se no braço armado da casa. Quando falamos de vigilância é deles que falamos. Por isso é que precisamos de mais como eles.

A sua presença na escola é absorvida com limpezas, limpezas, limpezas e mais limpezas. Pelo meio, ainda se arranja tempo para cuidar de alunos e de professores. Mas é pouco. Uns fazem mais do que outros. É como em todo o lado. Anseiam por dedicar-se apenas ao que os trouxe para a profissão: os alunos. Dizem que, se pudessem fazê-lo, os acidentes escolares passariam para metade, ou ainda menos. Mas não podem. Só têm dois braços. Não chegam a todo o lado.

Por vezes não aguentam mais e reagem; os vernizes estalam. Mas tudo não passa das célebres dores de cotovelo. São o braço direito de todos nós. De manhãzinha, ou ao fim do dia, deixam tudo a jeito para que as aulas corram da melhor forma. Fazem o melhor que sabem. Mas querem mais. E o mais que mais querem nem sequer é muito. O que mais desejam é que haja um correcto reconhecimento da sua verdadeira importância.

Porque um braço, seja ele direito ou esquerdo, é sempre um membro superior.
publicado por Rui Correia às 01:14
link deste artigo | comentar | favorito

pesquisa

 

arquivo

nós

Dezembro 2012

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
31

t&d
t&d