Quarta-feira, 22 de Março de 2006

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O ano de 2006 perfaz 463 anos desde que se iniciaram as relações entre o Japão e Portugal. De todo esse tempo temos boas e más recordações. As relações entre o país de Camões e o Extremo Oriente, desde sempre foram motivo de controvérsia. Do mesmo modo que foi português o primeiro ocidental a pronunciar a palavra Jampon - Tomé Pires - e da mesma forma como foi português o ocidental que melhor conheceu a alma japonesa - Wenceslau de Moraes - são também portugueses os primeiros que a subestimaram. Os orientais pagaram-nos na mesma moeda.

A evangelização do Japão é uma das mais sangrentas histórias da História. Martírio e ferocidade dos dois lados numa luta de titãs. Sobre a evangelização já muito se disse e muito mais dela se conclui, às vezes com exageros. A xenofobia oriental pelos Iteki, bárbaros que comem com as mãos e não com os civilizados pauzinhos, foi bem evidente no dia 5 de Fevereiro de 1597. Vinte e seis cristãos foram crucificados. Nunca se tinha crucificado ninguém no Japão por razões religiosas. Foi um verdadeiro requinte de malvadez. As cabeças dos jesuítas foram postas a prémio pelo shogun Iemitsu. Mais tarde, no ano de 1637, 40 mil camponeses católicos de Nagasaki resistiram a outro Shogun Tokugawa e foram pura e simplesmente massacrados.

A crueldade foi enorme. Mas é preciso que nos entendamos. O isolamento do Japão não foi contra os portugueses. Foi, sim, contra os portugueses cristãos. Quando, acidentalmente, os portugueses chegaram ao Japão, vigorava, entre as classes mais altas da sociedade nipónica, o Confucionismo; sistema religioso, político e social que apontava para uma completa obediência às autoridades tradicionais. No momento em que os Daymios, senhores feudais, repararam que os seus camponeses obedeciam mais aos padres jesuítas portugueses do que a si mesmos, crucificaram quantos padres encontraram. Tchu-Hi, um ultratradicionalista defendia mesmo a expulsão imediata de todos os estrangeiros, que acabou mesmo por ser decretada em 1614, pelo Shogun Tokugawa Iyeyasu.

Os jesuítas continuaram a ir para o Japão, mesmo sabendo que a sua vida estava em alto risco. Sabiam da morte quase suicida do padre João Batista Porro que foi junto dos governadores de Yiendo dizer que não suportava mais a perseguição que as autoridades japonesas lhe moviam. A sua ingenuidade foi imediatamente executada. Foi então que, em 1549, o padre Rubino confessou em Roma que não valia a pena tentar converter à fé cristã os japoneses. Este povo cruel assassinara todos os representantes da espiritualidade cristã que lá tinham ido. Mas mais tarde ele próprio lá regressará. Foi logo pendurado pelos pés até à morte. Mas ainda assim, os soldados de Jesus estavam convencidos de que o espírito japonês acabaria por se dobrar à sua vontade, que era a de Deus.

Porém, o Japão é Shinkoku-Shuji, a terra eleita dos deuses. Manterá essa majestade até aos nossos dias. Até muito tarde, os europeus nunca foram bons diplomatas. Sempre acharam que os orientais deviam sujeitar-se, para seu próprio bem à civilização dos seus tão estranhos costumes. Bárbaros e Civilizadores de um lado e Eleitos e Bizarros de outro. É natural que o resultado desta química fosse complicado e pouco tolerante.

Nesse tempo ser português ou castelhano era ser navegador. Um bom exemplo da forma como nos (não) entendíamos com os orientais, e eles connosco, no século XVI, é o episódio da chegada de Fernão Magalhães às Filipinas. Esse é um episódio que muito nos esclarece como era ser ibérico, navegador, e fazer ao vivo, aquilo de que Portugal e nós, os portugueses, nos orgulhamos hoje tanto: o encontro de culturas. Depois de muito padecer, viajavam há cerca de quinze ou vinte dias, sem avistar terra e com bom tempo. Até que aportaram a uma ilha cujos habitantes trajavam coloridos e finos tecidos. Havia mais por descobrir. Mais ilhas. Uma delas, a maior, tinha o nome de Cebu. Aí viviam quatro reis. Mal o capitão ali chegou, mandou lançar vários tiros de canhão. Impunha respeito e marcava presença. A surpresa e o susto foram grandes. Um dos reis veio à praia perguntar quem era o intruso, o que queria ele e donde chegava. «-Fernão de Magalhães, capitão d'El rei de Castela, trago a paz, amizade e a riqueza para trocar», disse-lhe ele. O rei aceitou as suas palavras, dizendo-lhe que, naquele lugar, os amigos haviam de sangrar do peito e beber o sangue um do outro. E assim foi. Golpearam-se ali mesmo, no peito. As bocas com sangues sorriram de satisfação. Pazes feitas, o capitão quis abastecer as naus dando em troca a sua mercadoria para que os malaios escolhessem o que quisessem. Logo no primeiro Domingo, fez-se a missa em terra para dar a conhecer novas liturgias, afim de trazer para a Cristandade aquelas gentes. O rei foi o primeiro a abraçar a nova mensagem. Toda a população o imitou. Mas os três outros reis e reinos estavam ainda por tomar. Ao saber do poder de Deus Nosso Senhor, dois deles converteram-se. O restante mandou dizer que, se o ameaçarem, ele saberá defender-se. O capitão não gostou e logo ali fez juntar vários homens para destruir os campos do infiel. O padre quis fazer uma oração. Todos se ajoelharam na areia branca e fina daquelas praias, com a mão no coração. O rei daquele lugar disse ao capitão que o acompanharia, com alguns homens. O capitão negou, dizendo: «-Estas são contas do meu rosário». Não se demorou a chegar lá, mas custou; a vegetação, verdíssima, era densa e sangrava os braços dos soldados. O ar era um lago. As armas pesavam como chumbo mas o capitão não fincava pé. Quando chegaram aos domínios do ateu, o capitão mandou armar as espingardas. Os malaios não conheciam nada assim. Tinham arqueiros que caiam como tordos sem que chegassem a atirar. Morriam muitos, mas não deixavam de chegar cada vez em maior número. Foi uma carnificina, mas depois começou outra. Acabou-se-nos a pólvora. Sem o pó preto não tínhamos qualquer chance. O capitão não mandou retirar. Nem todos foram bravos como ele. Alguns dos nossos fugiram. Foram mortos na fuga. Só ficou o corpo do capitão cravado de flechas, morto como nunca ninguém o tinha visto, nem a dormir.

A notícia da morte do capitão foi tremenda. Ninguém podia acreditar que a resistência infiel à Salvação das Almas pudesse ter abatido o maior capitão da época, o mais devoto e o mais justo. Aquilo que hoje poderá ser entendido como uma justa resistência à opressão estrangeira - que o caso de Timor bem ilustrou - foi durante duas centenas de anos entendida no Ocidente como uma criminosa brutalidade.

De equívoco em equívoco assim andámos nós nas relações com o Extremo Oriente. Tanto os diminuímos a eles como eles a nós. De um lado havia as armas de fogo e Jesus, do outro tínhamos o sabre e a flor de Lótus. Da luta entre estas sobrancerias haveria de resultar muito sangue inocente. A história das relações entre o Extremo Oriente e o Ocidente está marcada por esta divisão.

Dividir é sempre bom e mau. Dividir é separar mas é também partilhar. Garantir a individualidade das culturas é a melhor forma de as respeitar. Mas no momento em que uma cultura, sendo única por tão genuína, se julga única por ser mais importante do que as outras, então está a construir as suas ruínas. Este erro deu-se por parte dos portugueses como por parte dos orientais. Criaram hábitos de desconfiança que não saram com o tempo. Saram com os homens. Nós.
publicado por Rui Correia às 11:48
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1 comentário:
De Lus Filipe Redes a 6 de Maio de 2006 às 00:22
Muito bem: é desse passado violento que se fará a amizade do futuro presente. Toda a história humana é feita de violência. Se nunca o sangue dos nossos antepassados se tivesse misturado nos campos de batalha, muito menos teríamos em comum.
Quanto ao cristianismo é como Lucien Fébvre gostava de dizer: era quase impossível não ser cristão na idade média. Eu acrescentaria esse tempo até ao século XVIII. O lugar dum cristão que não fosse católico era a prisão ou a fogueira. Apesar do século XVI nos ter legado o édito de Nantes, ainda no século XVII houve guerra entre reformados e contra-reformados. Português e castelhano era sinónimo de católico.

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