Segunda-feira, 8 de Maio de 2006

cadeia

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A vida é uma leitura permanente, isso é que é. O que quer dizer que não há leituras permanentes; significações que permaneçam. Esta é a ilação a extrair de dois acontecimentos desligados que, todavia, em meu entender, se aproximam de forma muito vizinha.

De um lado, a questão Peter Handke, (conta-se rapidamente: o escritor homenageou em público o inominável Milosevic; esse gesto valeu-lhe ser retirada de cena uma sua peça, para escândalo da prémio Nobel Elfriede Jelinek, que imediatamente lhe significou total solidariedade, espicaçando um burburinho imenso na opinião escrita de França).

Do outro, a recente adopção de um mesmo manual de História para os alunos finalistas do ensino secundário da Alemanha e da França.

Encontramos aqui duas faces do mesmo dilema: que leitura fazemos e que leitura faremos dos nossos dias? De um lado, a visão de uma obra que se desliga do seu autor com uma violência insuportável; para quem leu os livros humaníssimos de Peter Handke este gesto constitui quase uma prepotência contra as expectativas dos seus leitores. Nada, ainda assim, novo. Assim de repente, lembro-me que, à minha conta, carrego diariamente duas semelhantes decepções, dois grandes desapontamentos pessoais: Mário Vargas Llosa e Vasco Graça Moura. Escritores que sempre me parecem viver num litígio, uma desavença irreparável entre a vida e a obra.

Este pretenso apartamento entre a obra e a vida sempre me fez desdenhar aqueles títulos em que se assegura que serão calculadas a “vida e obra de…” como se não existisse alternativa a uma inevitável contiguidade. São demasiados e demasiado vibrantes os exemplos que nos indiciam que nem sempre assim é. Nunca pude, por exemplo, superar a contrariedade de saber que, historicamente Gandhi e Fernando pessoa eram admiradores de Mussolini. Ao longo da minha vida senti tudo isto quase como um logro, um embuste, uma fraude. Mas só sinto isto por incontinente boçalidade.

O problema, que nem chega a ser problema, é que quando Handke apoia os sérvios assassinos de Milosevic, fá-lo com a importância de quem pensa por si e não por ser quem é. E este paradoxo só o é na aparência. Existe, nem adianta contradizê-lo, inconsistência nestes gestos. Mas é essa incongruência que torna proporcionada a condição humana. A grandeza de uma obra pode mesmo ser diminuída pela pequenez de uma vida. E o inverso é igualmente documentável.

Quando, há vinte e um anos atrás, preparei, com mais três colegas professores, uma exposição interrogativa e extensiva sobre manuais de História adoptados nos liceus em Portugal, desde que há liceus em Portugal, foi claríssimo concluir que, à mudança de um regime, sucedeu quase imediatamente uma mudança de manual de História. A História, a disciplina de História, constitui desde sempre um campo de propaganda que nunca foi subestimado pelas classes dominantes. A adopção comum de um livro de história entre a França e a Alemanha, representa um extraordinário sinal que nos comprova estarmos a percorrer o caminho certo. É desta Europa que sou convicto cidadão. A superação das fronteiras históricas e culturais que nos dividem é um processo inevitável numa Europa global – num mundo global, - que cada vez menos sabe como lidar com essa potente indistinção. É uma enorme incongruência. Pois é. Mas não há - a história sabe tanto sobre isto... – não existe êxito duradouro sem incongruências.

Fiquei com a vontade de ver por aí escrito que Portugal e Espanha estão para enveredar por este caminho de escrever uma história comum. Temos tanto para partilhar: um neolítico único no mundo, uma herança clássica, uma conquista árabe, a conquista cristã, Alcáçovas e Tordesilhas, Aviz, a dinastia filipina, Napoleão, o liberalismo, o autoritarismo, o caminho para a democracia, a união europeia. É poderoso o projecto de escrever uma história conjunta de Portugal e Espanha. Um trabalho orgânico. Uma leitura da história que impõe uma percepção tolerante e postuladora de como a diferença é, sempre, aquilo que mais nos une a todos.

São estas leituras da história que impõem a mesma tortuosa conclusão: que a falibilidade do homem é o seu mais impenetrável enigma, o seu mais recôndito segredo. Mas também que é este enigma – um Handke lançando flores à campa de Milosevic ou uma França e uma Alemanha unidas pela leitura da sua história comum – aquele que aprisiona este mundo nesta antiga e irremediável contradição; a mesma que, depois, acaba por colocar o ser humano no topo da cadeia alimentar.
publicado por Rui Correia às 19:01
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2 comentários:
De Rui a 17 de Maio de 2006 às 15:32
Já li, já li e o homem é dos que melhor escrevem o que eu penso.
De daniel abrunheiro a 16 de Maio de 2006 às 11:52
iur, ver manuel antónio pina na última página do JN de 15 de Maio de 2006.

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