Segunda-feira, 22 de Maio de 2006

génio

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Entre as poucas coisas que a minha idade já me ensinou, há uma que cada vez mais se revela indomável. Existe uma grande dificuldade em todos nós em aceitar que as pessoas sejam quem elas naturalmente são sem que interponhamos algo entre o que o que elas naturalmente são e o que desejaríamos que essas pessoas fossem. Isto poderá, em si, não ter nada de excepcional. A vontade de termos ao nosso lado outrem que represente, também ele, tudo aquilo em que acreditamos, convencer-nos-ia de que aquilatamos a vida da maneira como outrem o faz. Trata-se, imagino eu, de uma trabalheira. É, afinal, levar a vida em constante referendo: “Se apoias a minha ideia, não só serás meu aliado, como a minha ideia estará certa”. Não estaremos, deste modo, sós. Haverá, afinal, quem secunde, quem multiplique o que achamos que todos deveríamos ser e pensar. A caução que este aplauso faculta certifica o nosso valor. Afiança a qualidade do que somos. E é muito complicado abdicar desta certificação pública.
A margem de erro que este raciocínio autoriza é, porém, de tal magnitude que nos obrigaria a aceitar o inaceitável. Que é na abundância de apoios que se materializa a qualidade de uma acção ou de uma ideia. Que uma proposta que não conta com o aplauso alheio não merece candidatura. A História, que nada ensina porque tudo ensina, diz-nos que não é nada assim que as coisas se passam. Falamos, vezes e vezes sem conta, de “génios”, ou de “incompreendidos”, pessoas fazendo essa coisa cientificamente inverosímil de viver “à frente do seu tempo”, como se não fosse o tempo a insistir em recuar, ou pelo menos em não avançar, e não outra coisa qualquer. É assim que se trata quem luta sozinho, negligente do aplauso. Quando se verifica que quem era desestimado tinha, afinal, coisas para dizer e que revelavam o melhor e o pior que todos temos em nós, chamamos-lhe “génio” ou “incompreendido” ou alguém que “viveu à frente do seu tempo”. Habitualmente, após o seu desaparecimento. Deste modo, fica resolvida esta muito católica remissão de pecados. “Génio” ou palavras quejandas são desagravos que encontrámos para redimir a incompreensão que exercemos durante uma vida inteira. É, aliás, palavra bem inóspita: bom é ser génio, mau é tê-lo. São conceitos que reservamos para pessoas que, muitas vezes, nada mais fizeram senão pensar apenas em infracção para com o aplauso alheio.
Mas estas visões que reflectem uma extraordinária altivez perante a diferença não acontecem face aos “génios” ou aos “incompreendidos”. Acontecem todos os dias à minha volta. Ouço as pessoas a julgar, a avaliar, a calcular as suas amizades e as suas inimizades, sem que o façam com o decoro e a reserva que o acto de julgar sempre exige. Destas conversas mais ou menos subtis, desta e daquela consideração que se faz sobre este gesto, aquela palavra, aquele trejeito, uma insignificância atrás de outra insignificância, se estabelecem juízos de valor, juízos morais. E há técnicas, percebo-as, para fazer isto. Lançar, aqui e ali, numa conversa, esta ou aquela palavra, este ou aquele silêncio, este ou aquele trejeito que conduza o interlocutor a julgar o que não nos atrevamos a proferir. É esta talvez a forma mais vil de fazer isto. Já assisti a isto muitas, muitas vezes. Tudo juízos, enfim, que, em todo o caso, são inválidos, não apenas porque, evidentemente, não sabemos acerca das outras pessoas sequer uma fracção do que elas desejam que conheçamos e porque o que fazemos baseia-se meramente naquilo que pretendemos julgar saber. Mas a invalidez maior é porque todo o juízo deve ser feito pessoalmente, sem mediações, sem ausências. Criámos muitas expressões que nos ensinam a fazê-lo. Lado a lado. Frente a frente. Cara a cara. Olhos nos olhos. Mas não o fazemos. Provavelmente com o receio de que a proximidade com o Outro nada mais evidencie senão a distância que vai do que somos ao que desejaríamos ser.
publicado por Rui Correia às 15:31
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