Sexta-feira, 26 de Maio de 2006

virgens

Three_Men_Talking.jpg

Michael Chapman - Three Men Talking at Night, 2001

São uns pantomineiros, pois claro que são, mas não o são por má-fé. É assim a modos que um tique. Fica ali entre a manha e a impostura. Refiro-me a um tipo de pessoas que volta e meia interrompe o meu sossego social. Chamo-lhes as-pessoas-que-se-esforçam-por-demonstrar-que-tudo-o-que-acabam-de-conhecer-é-por-si-conhecido-e-conhecido-há-muitos-muitos-anos. Para não abreviar, chamo-lhes assim.

Digam-lhes que Fernando Pessoa e Gandhi foram admiradores confessos de Mussolini e eles dirão imediatamente que sim, que toda a gente sabe disso. Digam-lhes que o vencedor da batalha do Alamo, o general Santana, ao ver a sua perna amputada, decidiu exibi-la em desfile triunfal na cidade do México e depois fazer-lhe um funeral com honras de Estado, e eles responderão: “Sim, sim, isso é tudo muito conhecido”. Contem-lhes que Calígula, o imperador romano que nomeou senador o seu próprio cavalo, sempre que beijava a sua mulher, dizia-lhe “E este pescoço será cortado quando eu o desejar”, e eles respondem: “Sim, sim, isso e muitas outras coisas mais, o velho Calígula…”. Digam-lhes que na Inglaterra vitoriana, a populaça assistia aos enforcamentos porque acreditava que tocar num enforcado curava os torcicolos do pescoço e ouvirão em resposta: “Claro, há um livro estupendo sobre “torcicolos e enforcamentos” que li há uns bons três mil e quatrocentos anos que refere exactamente isso. Posso emprestar-to”. Apanhem uma pedra do chão e chamem-lhe “pirite de Saturno” e, irão ouvir, peremptória e serenamente: “Já tenho, já, ofereceram-me uma quando fiz dez anos. De casado.”.

Não adianta. Nada. Nada os surpreende. Sabem tudo. Nunca há nenhum assunto que desconheçam, nenhuma ideia que lhes seja minimamente incógnita. Nada lhes é dito que não tenham já pensado, só que muito, mas muito mais aprofundadamente do que o seu interlocutor. E o seu esforço em provar que assim é, admita-se, é coisa estóica, porque é necessário saber falsear razoavelmente bem. E esta é uma gente trabalhadora. Abelhinhas. Mesmo quando é fácil perceber que, mal chegam a casa, vão a correr para os seus dicionários, para os seus computadores, à espera de descortinar aquilo que momentos antes afiançavam, inabaláveis, ter sabido desde sempre, é sempre fascinante ver como se movem dentro das conversas. É um regabofe ver como reagem quando evidentemente nada pescam sobre um assunto. São peritos em silêncios e omissões, ostentam desdéns variados e balbuciam perguntas indispensáveis, cuja resposta, quando lhes chega, se apressam a subestimar com enfadado desinteresse. E acreditam mesmo na verosimilhança desta intrujice. Alardeiam uma espécie de pansofia que nada mais é senão sofisma de charlatão; fico, por vezes, entretido a olhar estas almas cabotinas que se representam omniscientes. Vemo-los em acção aqui e ali. Se alguém propõe: “E se nós fizéssemos assim?” eles respondem, sem demora: “Já em 1987 eu propusera tal ideia. Parece-me que é já tempo de alguém pegar nisso.”

Imitam despretensão com o intuito crónico de rematar em triunfo, sempre que pressintam o perigo por perto. E o perigo é, claro está, poder suspeitar-se que ignorem o que quer que seja; que se suponha que são virgens de alguma coisa. De algum conhecimento. De alguma inovação. De alguma notícia.

Virgens, enfim, de uma verdade qualquer.

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(A máxima latina de novo: "Quem não sabe dissimular, não sabe reinar.")
publicado por Rui Correia às 02:14
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