Sábado, 3 de Junho de 2006

Renascimento

HelenaRochaPereira.jpg

Sempre me divertiu ler nos jornais que há pessoas que, de vez em quando, se reunem num restaurante qualquer, para um jantar grandioso, apenas porque têm entre si uma única característica comum. E tudo serve para a festança. Ou porque são das Beiras, ou porque se chamam Ernesto, ou porque usam bigode, ou porque estiveram no Huambo, ou por isto ou por aquilo. Confesso que tenho sempre vontade de ir a um destes eventos, só para ver como é que funciona a teoria do caos aplicada. A minha experiência destes jantares é mínima e resume-se apenas à minha classe profissional. Os professores da minha escola de vez em quando reúnem-se porque, e apenas isto, são professores. Os riscos são os mesmos: confraternizar com quem nada tem em comum comigo, a não ser a alcatifa que pisamos juntos, como ouvi alguém dizer-me. Mas, mesmo assim, não é a mesma coisa. Porque aqui, nos jantares de colegas profissionais, pode sempre argumentar-se que o convívio constitui um modo razoável de informalizar relações profissionais que, em matéria de eficiência, quase sempre são menos produtivas se forem excessivamente formais e cerimoniosas.

Pelo contrário, num jantar que reúne pessoas que têm em comum o chamar-se Ernesto nada pode argumentar-se. Aquilo não serve para nada a não para os Ernestos deste mundo poderem sair de casa e ir beber uns copos. Isto, para mim, é claro. E é também tão idiota que só podia ser coisa de homens. E, de facto, nunca vi anunciado um grandioso jantar das Anabelas, ou mesmo das Marias (neste caso é só porque o restaurante não teria lugar para tanta gente). A verdade é que chamar-me Ernesto ou ter bigode nada diz sobre mim e sobre o que possa ter a ver com outros Ernestos de bigode. Por isso esta união fortuita estará sempre condenada ao fracasso. É, repito-o, uma espécie de teoria do caos aplicada. E daí quem sabe? Não era no seu “Nome de guerra”, que o Almada Negreiros questionava se é o nome que faz a pessoa ou o inverso? Se ele o pensa, quem sou eu para interromper o devaneio…

Mas serve isto apenas para dizer que é por esta razão que nunca gosto de associar o meu nome a grupos de pressão, de opinião, de pertencer a entidades políticas, a clubes desportivos. Sei-me o suficiente para perceber que, tarde ou cedo, encontrarei suficientes razões para me interrogar sobre o que me levou a tão extravagante adesão ao que todos vão designando comodamente por “causas”, “princípios” ou “valores” comuns. Por isso tem sido inútil o aceno para me fazer integrar listas disto e daquilo, salvo um ou dois empenhamentos cívicos que conservo de forma tão diligente quanto discreta.

Dito isto, venho confessar que recentemente quebrei a minha habitual renitência em “aderir” ou “pertencer” a coisas e causas e, neste caso concreto, guardei no bolso a minha potente desconfiança em relação às listas de assinaturas online para registar o meu nome entre o pequeno número de pessoas (pouco mais de 1300 assinaturas, quando me chegou o email) que acreditam ser possível repor os estudos clássicos, latinos e helénicos, de novo no âmbito do horizonte curricular básico ou secundário português.

A Petição em favor das Línguas Clássicas em Portugal, dinamizada pelo professor António Rebelo do Departamento de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, está em curso e atinge uma das principais omissões do nosso currículo.
De facto, o desaparecimento das línguas clássicas tem consequências bem mais substantivas do que o mero ler e escrever bem ou conhecer a maravilhosa filologia ou etimologia da maior parte das palavras que utilizamos em todo o mundo. O estímulo de um contacto directo com as fontes que constroem a matriz europeia, ao contrário de um encerramento sobre a cultura clássica, proporciona uma identidade cultural assente em princípios de convivência humana cuja maturidade e sofisticação, indisputavelmente, não conheceu réplica em nenhum outro lugar do mundo.

Já conhecemos a experiência que resultou do desprezo votado à cultura clássica entre o século V e o século XV. Veja-se o caso europeu. Mil anos de civilização judaico cristã com a impressão indelével de uma cultura de culpa, severidade e repressão cirúrgica de tudo o que contenha vislumbres de livre arbítrio humano.

Tenho, contudo, (e é nestas coisas que sempre começa a minha incapacidade de pertencer a isto ou aquilo), uma enorme dificuldade em compreender que o retorno desejado das línguas clássicas possa ocorrer como provavelmente alguns destes proponentes o desejam. As divisões internas começariam cedo, receio. Não acredito nada no ensino do latim como o tive com o meu professor Veríssimo, que transformava as aulas de Língua Portuguesa em aulas de Latim, matéria em que era especialmente versado e eloquente. Não porque tenham sido aulas más. Foram excelentes e tenho em relação a elas uma dívida insolvível de gratidão. Mas os tempos são outros. Recitar declinações seria hoje, inevitavelmente, um modelo totalmente falido e desligado das orientações pedagógicas reinantes. Cedo cairíamos todos num desinteresse mortal pelos Estudos Clássicos. Esta disciplina, assim concebida, ruiria num único ano lectivo, transformando-se numa operação curricularmente frustrante.

Assinei a petição porque acredito que é hoje possível estudar latim e textos latinos transformando essa disciplina na disciplina de maior sucesso de todas as disciplinas que hoje ocupam o elenco curricular, tanto no básico como no secundário. Assim, nem mais.

Estudar as línguas clássicas não significa necessariamente estudar apenas o latim e o grego. Estudar as obras clássicas e, avanço já, não necessariamente a leitura integral da Ilíada e da Odisseia, mas sim a leitura de objectos tão excitantes como os Kouroi, as cariátides ou a coluna de Trajano, ler os Trabalhos e os Dias de Hesíodo com a sua Pandora, Arquíloco e alguns dos seus fragmentos, a elegia sentimental de Mimnermo, a poesia de Anacreonte, os princípios de Teógnis de Mégara, as odes de louvor de Píndaro, o Prometeu de Ésquilo, os avanços filosóficos de Empédocles sobre a Natureza e muito Platão, muito Aristóteles, Plutarco, ler Lucrécio e o seu De Rerum Natura, Zenão e o estoicismo, Epicuro e o que não é o epicurismo, Safo e o que não é o lesbianismo, Eurípedes e Electra ou a sua Medeia, Sófocles e Édipo e Antígona, para falar apenas dos gregos. Bem sei que “excitante” parece adjectivo desajustado, mas isso, perdoe-se a vaidade que tenho nisto, só o dirá quem não leu, nem discutiu estas coisas em cafés com amigos até às tantas da manhã, de volta duns copos. É impossível não gostar. É impossível não ter opinião. É impossível que um adolescente seja imune ao nível de provocação e de controvérsia que estas leituras suscitam. O que nos remete para a ideia central.

O regresso de estudos clássicos impõe uma abordagem exortatória destas matérias. Tão excitante como as obras o são. Como o foram na época em que surgem. Tão contraditórias como são. Oriundas de uma democracia com escravos, pena de morte, exílios forçados e mulheres sem direitos políticos. O que se tem conseguido é afogar esta verve, esta vivacidade latina em dolorosas e extensas apreciações gramaticais e estilísticas que destruíram os estudos clássicos.

Isto eu assino por baixo. Isto e o que vos digo a seguir:

Muitos colegas que conheço seriam sinceramente capazes de leccionar uma disciplina destas com todo o sucesso junto dos alunos. Mas isto implica que alguma Aurea Mediocritas se dissipasse do firmamento, na determinação de tal currículo. Recuperar os estudos clássicos no ensino básico e secundário envolve muito mais uma reavaliação de estratégias do que uma operação de amanhecer criogénico de um currículo tradicional que já demonstrou consistentemente, há décadas atrás, a sua completa inadaptação à propensão e às ambições dos nossos jovens.

Pessoas maravilhosas como a grande Maria Helena da Rocha Pereira, distinguida justíssimamente com o Prémio Eduardo Lourenço e o prestigiado galardão 2006 da Latinidade, a primeira mulher catedrática da, então vetustíssima, Universidade de Coimbra, a maior autoridade portuguesa neste âmbito, servir-nos-iam de faróis magnânimes para garantir que o essencial não fosse atropelado pelo acessório.

Quando entrei na Faculdade de Letras de Coimbra, ia com a intenção determinada de me inscrever nas aulas da Profª Helena Rocha Pereira. Mas, tragicamente, durante esse ano a Senhora Professora apenas leccionou uma turma de um ano que não o meu. Eu e um amigo não desistimos. Assistíamos na mesma, à socapa, às suas aulas nos grandes anfiteatros, onde ela fingisse não nos ver. Nessas aulas, sempre dela recolhemos o melhor exemplo para o que aqui defendo.

Nunca as suas aulas começavam com a leitura de textos clássicos para analisar. O processo era o inverso. As aulas acabavam sempre a lê-los, porque a conversa, a controvérsia entretanto suscitada, havia convocado a presença de uma ou mais autoridades helénicas. Platão, Aristófanes, Ésquilo eram nossos colegas de carteira. E um muito mais audacioso e destemido do que o outro. Trazer esta lógica para as aulas do básico e secundário é não apenas possível como desejável. Falta ar no ensino em Portugal. Ensino experimental. Experiências destas são estratégicas no nosso país. Isto sim, isto seria em Portugal, no seu sistema de ensino, um verdadeiro Renascimento.


________________________

Petição em favor das Línguas Clássicas em Portugal
publicado por Rui Correia às 17:12
link deste artigo | comentar | favorito
1 comentário:
De co a 6 de Junho de 2006 às 10:40
a minha já lá canta

Comentar post

pesquisa

 

arquivo

nós

Dezembro 2012

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
31

t&d
t&d