Segunda-feira, 5 de Junho de 2006

sedição

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Aqui há uns anos pediram-me que escrevesse uma letra para uma canção que falasse sobre violência. Que tipo de violência, perguntei, então. “Escolhe. Há tanto por onde escolher…”. Lembrei-me, imediatamente, da belíssima e subtil letra da canção My name is Luka escrita pela Suzanne Vega, que escutei num excelente concerto que a cantora americana deu no Porto há uns dez, doze anos atrás. Quis retomar esse fio. Fi-lo por achar o que ainda hoje acho; que a violência dentro de portas, entre um homem e uma mulher, na maior parte dos casos de um homem sobre uma mulher, por fascista imposição da força bruta, é uma entre as mais cobardes e, certamente, a mais amordaçada das formas de violência.
Entendo-a como uma complexa constelação de vergonhas e de medos, de frustrações e das arrogâncias que essas frustrações sempre ateiam; de falsos remorsos e de falsos arrependimentos; de culpas cínicas e de perdões anormais. Procurei elaborar uma representação mais ou menos inquiridora que me permitisse vislumbrar o lado de lá da vergonha, mas também venerar a esperança, que é o que mais me impressiona em todas as pessoas que conheci vítimas de violência: o ocaso que nelas se deu de toda a esperança. Contei então uma história:

Sai de manhã como se fosse seu
Um dia que ainda nem viveu
Deixou em casa alguém que nunca mais
Lhe dirá que o que tem é bom demais

Tantos os dias em que quis morrer
E falam-lhe da glória de ser mulher
Nada é tão bom que traga tanta dor
Não confunde a agonia com o amor

Saber ao certo o que é não ter valor
Apenas porque ouviu dizê-lo tanta vez
Sentir em cada lágrima o amargor
De cada frase negra e dura que a desfez

Gritar apenas trouxe mais terror
E a vergonha que a tomou era pior
Por estar tão só sem nunca ser melhor
Já nem se recorda do que é ter pudor

Farta de querer alguém que nunca vem
Farta de ser a Noiva, Esposa e Mãe
Cartas que nunca leu porque ninguém
Escreve docemente sobre o que não tem

Sabe agora que o fim chegou
Agora que o que era bom sempre acabou
Toda a vida em carne viva ela viveu
Acabou com tudo o que a ensurdeceu

O despretensioso poeminha chamado “carne viva” debatia a solidão e o medo como forças motrizes que alimentam toda a violência. Dentro de casa, um homem consistentemente carcereiro e violento conseguirá expor todas as debilidades pessoais da sua mulher até ao limite do humanamente possível. É um fanático da manipulação. Na maior parte das vezes conseguirá convencê-la de que o ónus da culpa assenta sobre ela. E fá-lo-á tantas vezes - caso perceba que nela inflige suficiente dor - até que dela nada reste senão o terror e o silêncio. Sairá desta história absolutamente convencida da sua inteira falta de valor. Demorará anos a resgatá-lo. Abnegadamente, a mulher vai afundando a sua existência numa vala de desonra pública e familiar, de abdicação e de vassalagem. Tudo subprodutos do medo. Disso falava a canção da Suzanne Vega.

My name is Luka
I live on the second floor
I live upstairs from you
Yes I think you’ve seen me before
If you hear something late at night
Some kind of trouble. some kind of fight
Just don’t ask me what it was

I think it’s because I’m clumsy
I try not to talk too loud
Maybe its because I’m crazy
I try not to act too proud
They only hit until you cry
And after that you don’t ask why
You just don’t argue anymore

Yes I think I’m okay
I walked into the door again
Well, if you ask that’s what I’ll say
And it’s not your business anyway
I guess I’d like to be alone
With nothing broken, nothing thrown
Just don’t ask me how I am

O medo pode tornar-se numa extenuante sova emocional que enxuga toda a esperança. Por isso, o maior inimigo nem sequer é uma qualquer besta violenta. Violento é o medo. Quebrar o ciclo do medo é indispensável. Imporá a eclosão de situações tumultuosas, mas não é possível quebrar laços de servidão sem sedições. Toda a esperança nasce de uma qualquer rebelião. Tão difícil quanto indispensável. Só assim se passa de carne viva, a carne viva.
publicado por Rui Correia às 22:18
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