Domingo, 11 de Junho de 2006

bolas

German_soccer.jpg


Estou solidário com as pessoas que afirmam a pés juntos que não gostam do futebol. Aliás, as pessoas que costumam afirmar qualquer coisa a pés juntos nunca poderiam gostar do futebol. O futebol não se joga a pés juntos. Estas pessoas que odeiam o futebol gostam tão pouco, mas tão pouco, do futebol que aquilo que mais ocupa as pessoas que não gostam do futebol é, precisamente, não gostar do futebol. É que não se fala de outra coisa.

Eu dou-me com muita gente que não gosta do futebol. Pessoal que gosta mais de ler e de discutir assuntos como o construtivismo, o pós-pós modernismo, a nova ordem mundial pós 11 de Setembro, a guerra retroactiva de Baudrillard, e coisas deste género. E não podem. Não podem porque todos eles andam ocupados com o futebol. Em vez de lerem mais, vivem em constante transmissão directa contra o futebol. O mundial é péssimo para estas pessoas porque são pessoas que gostavam de falar de outras coisas, mas não conseguem porque detestam tanto o futebol que não se calam com isso.

Eu, pessoalmente, já não os consigo ouvir. Dizem uns para os outros que os canais de televisão estão carregadinhos de futebol. E eu interrogo-me: mas se a televisão estiver cheiinha do futebol, qual é o problema desta gente? De resto, eu sempre os ouvi dizer que a televisão é péssima. Alguns proibiram mesmo os filhos de ver televisão. Que diferença pode fazer-lhes que o futebol ocupe as vinte e quatro horas da televisão?

Há quem defenda que a televisão devia ter outras coisas para ver que não o futebol. Eu acho precisamente o contrário. Acho que, durante este mês, a televisão devia ser proibida de transmitir qualquer coisa que não fosse futebol, ou coisas relacionadas, mesmo que remotamente, com o futebol. Durante o mundial ninguém via mais nada senão o futebol. E quem não quisesse ver o futebol, fazia assim: desligava a televisão e ia fazer outra coisa qualquer para se entreter.

Quando uma pessoa liga a televisão para ver outra coisa qualquer que não seja o futebol, é certo e sabido que acabará por saber a ementa dos jogadores da selecção, a cor das cuecas do Simão Sabrosa, do emigrante que conseguiu três autógrafos, três, dos jogadores da selecção e do Scolari que conhece melhor as instalações onde ficará a selecção do que qualquer outra pessoa do mundo (isto apenas para citar quatro pérolas recentes, quatro, do jornalismo televisivo desportivo). Sem querer, a pessoa que ligou a televisão para saber o que se passa em Darfur, no Iraque ou em Timor, acaba por ver raptada a sua atenção e lá acabará também por ver uma transmissão directa do fanzone de Frankfurt onde uma adepta da Alemanha exibe com alegria o seu soutien libidinosamente ornamentado com duas bolas do futebol, ali, mesmo, mesmo no lugar das suas, certamente belíssimas, mamas.

Se a televisão nada mais fizesse do que transmitir o futebol, as pessoas que detestam o futebol nem sequer tentavam acender a televisão e viam-se desta maneira livres de aturar as imbecilidades que cercam este mundial. Hipocritamente, os canais de televisão vão pondo no ar programas que nada têm a ver com o campeonato mundial do futebol, desta forma criando um engodo cínico para atrair verdadeiros intelectuais (ainda ontem deu um programa interessantíssimo sobre a pintura do Pollock e da Paula Rego) que, pouco depois, se vêem a braços com uma transmissão dos principais momentos dos principais jogos. Está mal.

Deveria existir uma lei que censurasse de forma azul salazar todas as intenções de colocar programas de interesse alheio ao futebol na televisão. O primeiro ministro ganharia muito com esta medida em matéria de aceitação popular. Os futeboleiros diriam: aqui está um verdadeiro adepto. Os intelectuais olhá-lo-iam como um salvador. Poderiam encarar a sua vida com maior tranquilidade. Deixariam de ligar a televisão e dedicar-se-iam ao que mais gostam de fazer: ler, ouvir música, jogar crapault, ir aos cafés – sem televisão – com os amigos, tocar guitarra, piano e viola de arco, ir ao teatro, ao cinema, fazer tricot, bricolage, modelismo, asa delta, squash, natação, praia, ir para a cama com as suas mulheres e com os seus homens brincar aos papás e às mamãs, enfim, tudo o que pode ser feito sem a televisão. É que é muito o que se pode – e, atrevo-me eu, deve - fazer-se, para além de ver televisão.

Não me interpretem mal. Eu gosto muito, muito de televisão. A minha vida toda esteve sempre cheiinha de televisão. Eu pertenço a uma geração que não teve televisão e, de repente, ela apareceu-lhe em casa. Eu conheço a sensação única de ouvir as transmissões de rádio dos campeonatos do mundo e do torneio de Montreaux de hóquei em patins. Eu sei o que significa ser o primeiro da minha rua a ter uma televisão a cores. Por isso mesmo é que quando me apetece não ver televisão, mais não seja para não ter de aturar jornalistas estagiários a falar de bullshit futeboleira, eu tenho por hábito desligar a televisão. Não percebo porque tão pouca gente, aparentemente, o faz. Especialmente agora que há tanto futebol na televisão e tanta gente que não gosta do futebol.

A ideia de que a televisão seja a minha única fonte de entretenimento é, evidentemente, sinistra. Se gostam assim tanto de televisão e não sabem fazer mais nada senão ver televisão, vão alugar um dvd ao clube de vídeo. Por mim, quando estou farto do futebol, visto uns calções, saio de casa e vou ter com uns amigos. Jogamos futebol todas as quartas-feiras. E é um excelente dia porque, não só me mantenho em forma, como geralmente há transmissões de futebol na televisão às quartas-feiras.
publicado por Rui Correia às 17:25
link deste artigo | comentar | favorito
1 comentário:
De Nabales a 14 de Junho de 2006 às 12:04
Também acho mal que se fale tanto de futebol, sobretudo agora que está a decorrer o Campeonato do Mundo.

Comentar post

pesquisa

 

arquivo

nós

Dezembro 2012

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
31

t&d
t&d