Sábado, 17 de Junho de 2006

tempo real

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O acto de esperar não se chama espera. Chama-se esperança. Uma espera é uma delonga, um adiamento, uma apatia. Fazer uma espera pode até ser mesmo uma emboscada. Um perigo. O acto de esperar não é um perigo. O acto de esperar não se chama espera. Chama-se esperança. Esperar é crer e confiar que chegará quem quer ou o que quer que queremos que chegue. Da esperança sabemos apenas que não sabemos quanto teremos de esperar, mas que esperaremos. Chega-nos esperar para ter esperança. Existe o verbo esperançar, também. Esperançar é um alento. É imaginar que se conseguirá estar com quem se aguarda. Porque esperar é aguardar. E aguardar é render guarda. Esperar é guardar quem não sabemos quando chegará, mas que chegará. Acatar é outra palavra sinónima para esperar. Esperar habita, pois, a humildade de acatar que o tempo foi feito para esperar que passe. O tempo espera-se como quem espera um desfile real ou uma procissão litúrgica. O tempo preside à esperança. Em tempo real. O tempo é real. É o monarca da esperança. Esperar é, antes de tudo, ter a humildade súbdita de esperar. A esperança não é nenhuma espera. Uma espera é um acto imóvel. Passivo. Obediente. Inseguro. Fazer uma espera é alimentar uma intenção constante. Fazer uma espera faz rugas em quem a faz. Esperar é o oposto disto tudo. Esperar, como esperançar, é acto de serenidade, de confiança, de resolução amena.
Esperar é um brinquedo. Uma bola insuflável de tempo. O tempo é o globo terreno da esperança. Toda a espera é uma espera armilar. No centro de uma espera, equidistante de toda a superfície terrestre, vive a nossa esperança. A esperança consiste num instrumento formado por círculos fixos ou móveis que encenam o movimento dos astros e do céu, tendo-nos a nós no seu centro. Mas, medindo melhor a terra que pisamos, sabe-se hoje que não somos exactamente equidistantes em relação a tudo o que esperamos. A espera terrestre é achatada nos pólos. Estamos mais próximos de uns pontos que de outros. A esperança tem, pois, prioridades. Porque a espera, como o tempo, não é perfeita como uma esfera. Por ser humana. Como uma rainha. Humana como uma deusa.
publicado por Rui Correia às 11:28
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