Segunda-feira, 3 de Julho de 2006

pux(ad)inho

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“Não sei que te diga, Fernando. Desculpa telefonar-te, mas é que estou neste momento a ver o Nguyen Lê a passear-se nas ruas de Torres Vedras. Sim. O Nguyen Lê está aqui a dez metros de mim.”

O meu amigo David Amaral, professor devoto, maestro irrepreensível e um ser humano bom, diz de mim que não tenho meias medidas no que diz respeito à música. Que quando gosto é apenas porque aquilo que gosto é o que há de melhor do mundo. E que quando não gosto é porque não é. E diz também que tenho um gosto musical rigoroso e exigente. O meu amigo David Amaral é, percebe-se, muito mais meu amigo do que devia, claro fica. Mas serve a sua apreciação para assegurar-vos que, não obstante isto soar sempre petulante, a verdade é que tenho algum cuidado com o que ouço. Cultivo uma espécie de higiene auditiva muito antiga que me obriga a escutar tudo com atenção. Por vezes demasiada atenção. Seja lá o que for. Quando passo por umas obras, reparo instintivamente no jogo rítmico que acontece quando dois pedreiros martelam em cadências diferentes, gerando uma padrão assíncrono que me é sempre irresistível. Quando chove e tenho os limpa-vidros da frente e de trás ligados, não consigo deixar de estudar a relação caótica que se estabelece entre o som provocado pelo seu funcionamento em simultâneo; e de reproduzi-la logo a seguir, cantarolando a sequência. Quando entro no mercado do peixe na minha cidade as vozes das senhoras que vendem e apregoam o peixe é tão incrivelmente musical que nem consigo perceber o que dizem, por mais aliciante que seja nesse dia o preço da boga ou do salmão. Seduz-me a soma aparentemente desordenada das vozes e dos ruídos que as envolvem. Não consigo andar a pé na rua sem estudar o ritmo das minhas passadas. Estou constantemente a bater os dentes e a marcar padrões rítmicos odontológicos. Não consigo entender que se esteja sentado à mesa sem tamborilar desprotocolarmente um ritmo qualquer no tampo. E por aí diante, tudo coisas que fazem da música uma constância e uma inerência basal da minha vida toda, desde que me conheço. Um metabolismo bem explicado pelo Hermeto Pascoal. Isto, compreenda-se, não tem mesmo nada de especial. Em matéria musical, não sou o único a não ser assim de tão boa boca.

Vem isto a propósito de três concertos a que assisti recentemente nesta região Oeste. O primeiro e o segundo só aconteceram porque existe um homem sério e trabalhador, chamado José Menezes, saxofonista, programador musical e divulgador artístico que conseguiu a proeza - que ainda me é inacreditável - de trazer este ano a esta região nomes como o guitarrista Nguyen Lê e o saxofonista Lee Konitz. Não vos direi quem estas pessoas são. Deixo isso ao cuidado de cada um e às pesquisas que queiram fazer acerca destes nomes. Falar-vos-ei do que vi e ouvi. Mas primeiro quero dizer uma coisa: que sorte e que privilégio tem a Câmara Municipal de Torres Vedras por ter um tipo com a estatura do José Menezes para lhe preparar um festival tão estupendo como o deste ano. Esta aposta, e eu sei bem como é difícil manter estas apostas, só abona em favor da inteligência que rege a política cultural deste município.

1. O concerto do guitarrista Nguyen Lê foi simplesmente excepcional e constitui-se no melhor concerto a que assisti este ano. Acompanhado por um monumento musical chamado Etienne Mbappe (conhecido por usar luvas de seda por sugestão da esposa, baixista do gigante Joe Zawinul, fundador dos Weather Report, provavelmente a banda eléctrica mais influente da história do jazz) Nguyen Lê trazia-nos um tributo a Jimmy Hendrix. Só por aqui se percebe já que se trataria de um concerto absolutamente singular. Este projecto, que tem já alguns anos, transformou o palco numa homenagem à universalidade da música do influente guitarrista americano. Repare-se: não esteve em destaque o talento de Hendrix. Nguyen Lê procedeu, isso sim, a uma leitura atentíssima da obra de Hendrix e descobriu-lhe as suas extensas e prolongadas raízes. Sendo a música de Hendrix um marco da música rock, Nguyen Lê encontrou-lhe tudo o que há para encontrar. Tratou-se de uma viagem pelo mundo ao som da música poderosa de Hendrix. World music, rock, jazz, étnico, improvisada, contemporânea, o que se imagine, tudo numa síntese consistente e inteligente, sensível e cosmogónica, no sentido de que tudo fez um sentido simples e perceptível, acessível. Uma escala planetária dentro de um mapa cartografado por Hendrix. Agora imagine-se um projecto assim interpretado por um baixista camaronês, um baterista do país basco, um guitarrista vietnamita e uma cantora de Guadaloupe. O resultado é um espectáculo de sublime diversidade cultural. Exactamente a tal íntima universalidade que Nguien Lê quis autenticar partindo da música de Hendrix. Não conheço uma leitura tão conhecedora e versada da obra de Hendrix como a que Lê aqui nos ofereceu. Uma absoluta consistência intelectual e uma incontestável propriedade artística.

2. Depois veio o concerto de Lee Konitz e do saxofonista Ahod Talmor que trabalhou recentemente com o grande Steve Swallow, (e que deu um memorável em Leiria com o John Scofield). Este foi um espectáculo totalmente diferente do primeiro. Um exercício deslumbrante de escrita musical e de arranjo orquestral para uma excelente Orquestra de Jazz de Matosinhos que já nos habituou a prestações muito competentes. Com um André Fernandes que se revela cada vez mais o nosso melhor guitarrista de jazz. Um gosto, uma subtileza, libertando num único solo, cheio de cabeça de tronco e membros, uma maturidade espantosa, num contexto em que a circunspecção se afirmava como a essência de todo o projecto.
Relendo o discurso de Konitz, que sempre se excitou com modulações menos convencionais do fraseado clássico e do típico som sax alto, Ohad Talmor envolveu Konitz numa campânula de modernidade e experimentalismo sintetizante, cativante e nada perdulário. Muito económico nos seus avanços mais dissonantes e difíceis, Talmor conseguiu o seu propósito de trazer Konitz para um envolvimento mais audaz e libertador. Konitz coloca-se aqui num papel de solista e não de líder, o que revela uma enorme admiração pelo seu arranjador, mas também uma humildade que uma figura com o prestígio e a carreira de Lee Konitz poderia inteiramente dispensar. Enfim, um serão de puro bom gosto, elegantíssimo, imprevisível e exigente. Tudo o que o jazz tem de ser.

3. Finalmente, não quero deixar de me referir a um concerto dado na Casa da Juventude nas Caldas da Rainha pelos Audible Architecture. Um combo de cinco elementos, muito capaz, que percorre ainda o caminho de um identificação com o seu próprio repertório, mas que é portador de um oxigénio musical que se revela promissor e refrescante. Ainda talvez excessivamente interessados numa associação entre imagem vídeo e a música – um lugar-comum cada vez mais repetido e cada vez mais indigesto – são de referir algumas excelentes composições que procuraram decididamente fugir àquele experimentalismo barato e impenetrável, que tanto seduz quem não sabe tocar tanto quanto devia, caso passasse mais horas no quarto a estudar. Muito boa prestação do pianista Aurelien Vieira Lino e do baixista Edgar Cabral, um slapper por vezes excessivamente ostensivo nos seus finger tappings, mas claramente habilitado para exercícios mais capazes e menos acrobáticos, e dono de um som bem escolhido para outras ambiências sonoras.

Abreviando. Estou de barriguinha cheia. Aplauso infindável para a excelente programação musical do TVedras Jazz. (Não, não sou um amigo do José Menezes. Falei com ele três ou quatro vezes.) Um aplauso ainda maior para a Câmara Municipal de Torres Vedras que assim se afirma determinada a colocar-se ao maior nível, no mapa da melhor música que se mostra e faz em Portugal. É sempre um alívio perceber que existem ainda câmaras municipais, como a de Torres Vedras, que sabem escolher quem faz o melhor, de forma competente.
Algo a aprender com esta edição: mais, mais publicidade. Sempre mais. Muita gente falhou estes concertos por causa de pouco pregão. Sobretudo um pregão tão imprescindível e forçoso quanto este. Estamo-vos todos muito obrigados.


“Está aqui à minha frente, estou-te a dizer, Fernando. Sério. Está aqui à minha frente. Tem, tem o puxinho, sim”

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Lee Konitz no allaboutjazz
Ohad Talmor
Nguyen-Lê
Etienne Mbappe
Orquestra de Jazz de Matosinhos
José Menezes
Audible Architecture
publicado por Rui Correia às 03:20
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