Quinta-feira, 4 de Janeiro de 2007

calado

A ocasião não era nada oportuna a preciosismos daqueles. Escutava-se a leitura solene de uma acta. Depois de ler coisas muito importantes, excelentes e bem pensadas, o magistrado interrogou se alguém tinha alguma coisa a rectificar, a acrescentar. Ninguém tinha. Eu ainda tentei não ter. Mas a verdade é que tinha. Eu tinha estado a olhar para a ‘acta do acto’ que tinha acabado de ser lida com a dicção típica de quem diz coisas muito importantes, excelentes e bem pensadas. E, a páginas tantas, lá estava ele: “vêem” em vez de “vêm”. “Os outorgantes vêem por este meio…” Onde todos “viam”, eu, armado em outorgante, “vinha”. O sossego austero da circunstância prescrevia contenção. Mas fui incapaz. Com fingida relutância, lá lhe disse: “Ó sôtôr, existe apenas uma coisinha aí que talvez queira ver corrigida. Onde aí está “vêem”, leva apenas um E com acento circunflexo. “Vêm” e não “vêem”, de ver” - Pronto, estava dito. Todos se calaram. “É um preciosismo” – desculpei-me, arrependido. A secretária notarial, uma espécie de sombra siamesa do magistrado que, até então, tinha permanecido imóvel, debruçou duas sobrancelhas burocráticas na direcção da acta. Sem vacilar, disparou: “Desculpe, mas ‘vêm’ escreve-se assim, com dois és.” E exemplificou “vêm, do verbo ‘vir’ com dois és”. Da sua cadeira, o magistrado olhava concentrado para o papel mas não se pronunciava. Eu calei-me, mas, felizmente, o outro outorgante intercedeu: “Não, não é com dois és. É apenas com um E”. “Vá corrigir a acta, se faz favor” sentenciou, enfim, o magistrado à secretária, que saiu contrariada da sala de audiências.

O magistrado teceu, então, considerações sobre a importância de todos garantirmos que a Língua Portuguesa seja prezada e bem cuidada; e não se esqueceu de mencionar também o Acordo Ortográfico (que é um ilustre desconhecido sempre chamado à baila quando alguém não sabe escrever alguma coisa), dando a sugestão de que “agora já ninguém sabe como é que se escreve nada, enfim, modernices”.

Passados dois minutos, reapareceu a secretária com um ar visivelmente estorvado. Sem dizer uma palavra, colocou a acta corrigida em cima da mesa. O magistrado terminou, então, a audiência, para meu absoluto alívio e indemnização.

Certo, certo é que dali em diante a secretária oficial nunca mais me olhou bem nos olhos. Desconfio que criei ali uma inimizadezinha. Que nisto de nos corrigirmos uns aos outros, de nada adianta ter ou não ter razão. Não é, nem de longe nem de perto, a primeira vez que situações destas me acontecem. Não é novo para mim que alguém fique secretamente arreliado apenas porque sugeri uma ou duas emendas indispensáveis num texto seu. Até já um dia me chamaram ‘doutor’ por causa disto.

Sou, admito-o sinceramente envergonhado, incapaz de passar por um erro ortográfico e não o tentar corrigir. Não é deformação profissional; é, de certezinha, uma obsessão compulsiva; uma espécie de dentadita que me morde a placidez. Corrigir um erro é sacudir uma migalha. É-me tão involuntário como enxotar uma mosca. Mas a vida está, bem o sei, cheia de migalhas e de moscas.

Millôr Fernandes, um dos grandes oficiais da língua portuguesa, dizia assim: ”Com muita sabedoria, estudando muito, pensando muito, procurando compreender tudo e todos, um homem consegue, depois de mais ou menos quarenta anos de vida, aprender a ficar calado”. Pelas minhas contas, como nasci em sessenta e cinco, já vai sendo tempo.
publicado por Rui Correia às 05:51
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6 comentários:
De Lus Filipe Redes a 10 de Fevereiro de 2007 às 00:00
Estou a brincar! Todos podemos fazer erros destes, sem querer, mesmo sabendo muito de ortografia.
Agora dou comigo a confundir "à", "há" e "á" na escrita, apesar de impor aos meus alunos exercícios para corrigirem esses mesmos erros. Normalmente, corrijo-os na primeira leitura, mas, se não estiver suficientemente atento, corro o risco de ficarem para a posteridade.
Se estamos a escrever concentrados já não nas ideias, mas na sonoridade das nossas palavras, tais erros tornam-se muito prováveis por causa da homofonia (há/à/á) e da parofonia (vêm/vêem).
De Lus Filipe Redes a 9 de Fevereiro de 2007 às 23:49
"vêm" e "vêem"! Meu Deus, quem ainda faz erros destes?
De Nuno a 20 de Janeiro de 2007 às 15:50
Sem dúvida nenhuma que nisto dos erros ortográficos á que corrigir a tempo para que não se cai-a no mesmo erro
Eu como aluno dou alguns erros ortográficos que curiosamente e sem querer criticar ninguém são-me mais corrigidos pelo meu professor de História do que pelo meu Professor de Português,
Agradeço imenso ao Senhor Rui Correia que o continue a fazer pois falo da melhor maneira possível e ajuda-me a melhorar a minha relação com a minha língua e a minha pátria.
Modéstia a parte acho que o meu vocabulário e ainda algo extenso para a pouca idade que tenho.
Mas fica aqui esta pergunta
Será que o mal destas coisas não esta também em alguns docentes de português não corrigem os erros aos alunos?
Volto a referir sem querer desvalorizar o trabalho de ninguém, vejo que na minha aula de História não só dou História como a cada aula aumento o meu vocabulário, e são-me corrigidos todos os erros ortográficos que aparecem nos testes.
Por isso fica também aqui o pedido ao Senhor professor Rui Correia para que não se cale, para que continue a melhorar o português dos portugueses que tanto precisa de ser melhorado.
Quanto a mim não me ofende nada que me façam isso, fico até agradecido.
Como dizia um pensador do qual agora não me recordo o nome
“o pior ignorante de todos é aquele que se engana e não o sabe reconhecer”
De Fernando a 7 de Janeiro de 2007 às 19:12
Num país em que as pessoas estão preocupadas em esconder a ignorância e não em acabar com ela, aquele que, com a melhor das intenções, procura ajudar é olhado de lado. Por isso, o calado não é o melhor, nem sequer para o calado.
De RC a 4 de Janeiro de 2007 às 17:03
Como se vê e lê, tu é que és o melhor jogador do Benfica. E se o Calado não foi o melhor jogador do plantel, era por medo de ferir alguém, de certezinha.
De Fernando a 4 de Janeiro de 2007 às 14:16
Já se dizia, a propósito de um antigo jogador do Benfica: o Calado é o melhor. Por acaso, nem era. Sou o teu irmão na angústia do erro, embora fique calado por medo de ferir (tu sempre foste o irmão falador). Na realidade, este é mais um sintoma de que as pessoas preferem não aprender, porque estar dispoto a aprender é aceitar a hipótese de que se está errado.

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