Quinta-feira, 8 de Fevereiro de 2007

ecografia

Quanto aos fetos, digo-te, Pedro, que estou cansado de tanta ecografia, mas pronto, aí vai mais uma: acho que um feto de violada há-de também ser a tal vida de que outro não violado de dez semanas se vai deixando inspirar. O tal do coração que já bate (boa malha...). Um e outro. E não consigo aceitar que uma mulher violada seja obrigada a dar à luz. Tudo o resto é fingir que a vida é valor intocável – até não ser – e fingir que o Estado, esse de que tanto desconfias, Pedro, alguma vez soubesse ou viesse a saber o que fazer com os bebés que nascessem, caso as abortadeiras fizessem um dia, um dia só, greve no sector. (39% dos abortos são feitos em casas particulares, arengava a Visão da semana passada). Tenho amigos psicólogos que contariam cá cada coisa aos teus amigos psicólogos que contariam cá cada coisa aos meus amigos psicólogos, ufa, nem tu sabes.

Não consigo ouvir mais. Não preciso. Já me bastou a overdose de 98 e as anteriores, que nisto pensa-se quando chega a altura e depois é mais do mesmo. Acredito que o importante é que se fuja ao que mais há hoje em dia: defender algo de suficientemente tortuoso, evasivo e sofista apenas para não ter de dizer sim ou não, que é o que há para fazer dia 11, segundo nos dizem. “Gradações”. Ou então criticar a pergunta por ser “mentirosa” ou dizer coisas quejandas que todos sabem como se não soubessem – que isto, que um sim ou um não “nada resolvem” - como se alguém alguma vez disso tivesse suspeitado; que estamos todos – os do sim e os do não - a fazer o jogo político obscuro de não sei quem, enfim, tudo coisas que animam algumas conversas de café já um pouco bebidas e que podem mesmo – e aqui eu encontro-lhes alguma utilidade, sim - seduzir jovenzinhas intelectual e libidinosamente ardentes de mamilos e neurónios eriçados, daquelas em vias de queimar as fitas do seu curso de desempregadas. Mas mais nada.

Eu não faço a menor ideia sobre como se faz um aborto. Nunca fiz nenhum. Mas sei o que um aborto faz a uma mulher. Pensando bem: a quatro, Pedro. Só para te falar das que conheço mesmo bem. E acho que sim. Elas também. A de 15 anos, então, acha mesmo que sim. E não queria fazer. Tinha medo das agulhas de tricot e das infecções e assim. É muito inteligente a Sandra T***. Teve sempre boas notas. Depois, à última da hora, fez. Até hoje ainda não parou de o ter feito.

Um abraço do
Rui
publicado por Rui Correia às 21:07
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2 comentários:
De rui a 11 de Fevereiro de 2007 às 15:39
Sabes, Luís, eu até acho que todos podemos exigir-lhe isso, por acharmos que ela não pode colocar em causa esses mesmos valores fundamentalistas, um dos quais pode até ser que a vida é valor absoluto. Podemos enrodilhar-nos na questão do confronto entre os direitos de mãe e direitos de filho(a). Quem adquira o direito de defender os direitos do filho(a) está a desprezar activamente os direitos da mãe e do pai, facto que torna toda a conclusão indefensável, qualquer que seja a conclusão conseguida. Para mim, por exemplo é ocioso discutir se um feto é vida humana ou não. É. É-me frustrante discutir se uma vida vale mais do que a outra. Ou se os direitos de um valem mais do que os de outro. Tentar distinguir entre vida humana e humanidade viva é, pois, uma desumanidade e um sofisma contínuo (loop argument). Fico-me, pois, pelo que mais me permite assegurar que as vidas das pessoas são melhores do que possam tornar-se. Uma visão horrivelmente materialista. Que a vida de uma pessoa - um de nós, com dez ou doze semanas, um como nós, evidentemente - não seja condicionada pelo facto intransigente de nunca se ter pretendido que existisse.
De Lus Filipe Redes a 9 de Fevereiro de 2007 às 23:46
Concordo inteiramente com os termos desta argumentação que me parece inteiramente válida. Mas como tenho tendência para ser fundamentalista, isto é, para ir procurar princípios que me norteiem na decisão. Então cheguei às seguintes conclusões:
- o feto, pelo menos no seu início, é um ser humano em gestação, não é ainda uma pessoa.
- o feto pertence ao corpo da mulher: tem o seu material genético e vive do seu corpo.
- a subsistência do feto depende do amor da mãe a que pertence e do pai que contribuiu para a sua gestação.
- a sociedade tem de ser justa nas exigências que faz à mulher.
- se ela não o ama, não o deseja, quem a pode obrigar a abrigar esse projecto de ser humano?

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