Quarta-feira, 14 de Fevereiro de 2007

esgostos

Um amigo meu fez uma reportagem numa revista nacional sobre lojas dos chineses e chegou à conclusão que o manifesto fascínio que elas exercem sobre os portugueses reside, entre outras coisas, na paupérrima qualidade do modo de apresentação das mercadorias que estas lojas vendem. O esquema do “tudo ao monte” está directamente compatível com a noção de preço baixo e de pechincha, que é uma coisa a que nenhum português sabe resistir. A “chicoespertice” de descobrir um achado que mais ninguém soube topar é invencível para um português. É ilusão suficiente para manter o portuga em estado hipnótico sempre que entra numa loja dos chineses. Todo o cliente reconhece que a qualidade daqueles produtos não é boa. “Isso deve ser da loja dos chineses” transformou-se já numa expressão idiomática, mais ou menos racista, que significa “isso, meu amigo, não presta para nada”.

Eu bem sei que é muito popular não gostar das lojas dos chineses. Quem disser mal das lojas dos chineses faz passar a ideia pela qual tem dinheiro suficiente para comprar noutras lojas. Ainda há bem pouco tempo uma boa amiga minha me dizia que detesta lojas dos chineses. E tem razão. Os artigos que ali se vendem são lamentáveis em matéria de qualidade. Mas o certo é que não falta ali clientela lusa. Aliás, eu nem percebo que se lhes chame lojas dos chineses. Eu só por lá vejo portugueses e três ou quatro ucranianos a falar baixo. Mas a qualidade das coisas que estas lojas vendem é tão mazita que chega a dar vontade de rir. Se comprarem um electrodoméstico numa loja do chinês é certo e sabido que alguma coisa há-de estoirar ou volatilizar-se numa colorida combustão espontânea um dia destes.

Mas o português é abnegado. Não lhe apetece saber disto para nada. Compra tudo o que for barato. Faz-me lembrar aquelas reportagens de televisão onde a água de uma fonte é considerada imprópria para consumo, mas isso não impede as pessoas de continuar a ir ali encher garrafões, nem que seja só para aparecer na televisão a fazer figura de teimoso. Praias subitamente atingidas por relatórios oficiais que alertam para níveis de poluição letais mas que não conseguem dali espantar famílias e ranchos de criancinhas, mesmo que as autoridades jurem a pés juntos que, desta vez, é mesmo verdade.

Eu confesso que gosto imenso de lojas dos chineses. E sei bem por que razão. É uma razão antiga. Sempre gostei de lojas que mostram tudo o que têm para vender. Adoro retrosarias com os escaparates de botões, fechos, linhas e agulhas. Adoro as lojas de ferragens, prenhes de corredores com milhares de ferramentas e utensílios para ver e mexer. Aprende-se imenso sem ter de perguntar nada a ninguém. Adoro livrarias e papelarias, com os livros e as revistas todas a olhar para mim, como órfãos à espera de adopção. Adoro drogarias com ráfia e ceras para o chão. Gosto imenso destas coisas.

Toda a gente sabe que as lojas dos chineses apenas servem para satisfazer democraticamente a voracidade consumista do pessoal que não tem dinheiro para o fazer nas lojas com preços e artigos normais. Também é verdade que os preços “normais” das lojas “normais” são roubos puros e já não existe em todos os comerciantes das lojas “normais” a preocupação em garantir uma correlação forte e fidedigna entre preço e qualidade.

Mas, talvez por isso mesmo, eu me divirta tanto sempre que entro numa loja dos chineses. Ali ninguém quer saber da qualidade para nada. Nem da realidade. É uma espécie de cenografia da realidade. Quero um alicate. Isto parece-se com um alicate. É mais barato do que um alicate. Eu compro este alicate. Este alicate tem mesmo a aparência de um alicate. Esse desprezo pela ponderação da qualidade é-me magnético.

De vez em quando há por lá uma ou outra coisa chinesa para vender. Já lá comprei uma aguardente de lagarto, com um lagarto morto dentro da garrafa. Lindo. Aposto que aquilo contraria tudo o que há em matéria de saúde pública legislada.

E depois, as traduções apressadas do chinês para português são maravilhosas. São incompreensíveis e desafiam qualquer lei que exija que o comprador saiba o que está a comprar. Tenho para mim que não há textos mais surrealistas do que um manual de instruções tirado de um produto de uma loja dos chineses. Cala-te O’Neill, chiu Cesariny, quem sois vós? Calai-vos, os dois. Dir-vos-ei um dia destes. Para já, deixo-vos com dois exemplos. Em que outro sítio se poderá comprar um “tipo de quatro-pedaço parafuso de expansile - 4PCS fixe parafuso com parafuso e lavadora"?

expansile.jpg expansile02.jpg

E este maravilhoso “desentupidor de esgostos”.

desentupidor05.jpg desentupidor04.jpg

Vejam bem, por muito pouco não comprava um “desentupidor de desgostos”. Uma letrinha apenas e estaríamos irremediavelmente equipados contra toda a infelicidade.
publicado por Rui Correia às 11:21
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1 comentário:
De Alicate a 17 de Novembro de 2009 às 19:54
excepcional.

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