Segunda-feira, 26 de Fevereiro de 2007

artefacto

IwoJima.jpg

A minha única professora de alemão, a excelente Regina Furtado, sempre me disse que aquela língua é muitíssimo ingrata. Ou se pratica regularmente, ou esquece-se. Por isso, de vez em quando, dá-me para andar às voltas com o meu alemão e dominar essa ingratidão teutónica. Pus-me, recentemente, à procura de um texto de Winfried Becker, sobre o pos-modernismo que vinha referido num livro que ando a ler. Encontrei-o em alemão, (aqui: http://www.vda.archiv.net/archivtage/at_trier_becker.htm). Lá pelo meio encontra-se uma frase que, não sendo especialmente importante, é um encontro exacto de palavras. Acho que pode ser traduzida assim: “Aquilo que acreditamos ser a Realidade é, sobretudo, um Artefacto” (“Was wir als Realität zu erfahren glauben, ist vielmehr ein Artefakt”).

Não creio que haja, entre nós, alguém que não tenha já, mais ou menos profundamente, conversado sobre esta coisa do intervalo entre percepção e realidade, mesmo sem acenar com Nietzsches ou Lyotards. Mas regressei a esta discussão com o tal livro que ando a ler. É do historiador Marc Ferro, velho conhecido dos estudantes da história, e chama-se “Cinéma, une vision de l´histoire” (também ando a tentar engordurar o meu magro francês). A leitura é agradabilíssima e muito, muito culta. O prazer é completo porque o homem escreve lindamente e pensa ainda melhor. Não é a primeira vez que Marc Ferro me apanha na sua rede. É a segunda. Que eu me lembre, só li dois livros dele na vida. O primeiro foi uma bomba. Foi traduzido para português assim: “As falsificações da História”, mas o seu título original era “Comment on raconte l’histoire aux enfants à travers le monde entier”.

Em síntese, a sua tese era intimidante: a primeira impressão que é transmitida às crianças sobre um qualquer acontecimento ou explicação histórica será aquela que se manterá no seu espírito toda a sua vida, independentemente das alterações que entretanto venha a anexar-lhe. Ufa.

Lê-lo numa altura em que concluía o meu estágio para ser um profissional decente incumbiu-me de uma responsabilidade que não aguardava. Ser eu a pessoa que iria entregar nas mãos dos meus muitos meninos o evolucionismo, a Suméria, a China, a América, o Egipto, a Grécia, Roma, a Idade Média, o Renascimento, o absolutismo, o liberalismo, o marxismo, o modernismo, e por aí fora, pareceu-me encargo maior do que aquele que me havia reservado.

Ou seja, para abreviar, de acordo com Marc Ferro eu e os meus colegas professores de História somos os carteiros do tal “artefacto” de que fala Becker. Apresentamos as nossas percepções de uma realidade digerida e assim modificada. Percepcionada, portanto. E serão essas que ficam. É areia demais. Por causa disso, ainda hoje suo às estopinhas quando me preparo para iniciar o estudo de uma qualquer civilização, movimento ou doutrina. De vez em quando, espreito pelo meu retrovisor ético-científico (que não me sai da frente dos olhos), e engato a marcha-atrás para acrescentar isto ou aquilo, aqui ou ali.

A propósito do que vos conto, lembrei-me dos dois filmes do velho Clint Eastwood, “Flags of Our Fathers” e “Letters from Iwo Jima”. Mal saiu o segundo disse-se logo que eram duas visões do mesmo evento. Mas não são nada disso. São duas representações de uma história, que não se complementam. Clint Eastwood não apresenta, ao contrário do que correram todos a dizer, duas visões da mesma pavorosa batalha do Pacífico de Fevereiro de 1945. Trata-se de uma única perspectiva, ideológica, da guerra como fautora de desperdício humano.

Esta é, ainda por cima, a minha visão e concordo com ela. Mas há mais a dizer sobre Iwo Jima. Ignorar o contexto histórico da participação neste conflito e não perceber como a utilização da força para defender a liberdade se tornara incontornável é romance, não narrativa. De que adianta dizer que o grande efeito da guerra é o sacrifício de uma geração inteira de jovens se foi, evidentemente, do sacrifício de uma geração inteira de jovens (dos nossos e dos deles) que se tem a liberdade de o poder, sequer, dizer?
Já muitas vezes pensei no que faríamos nós se, por desventura, fôssemos todos subitamente recrutados para uma guerra. Recorde-se o que aconteceu com o exército russo em 1917, que tinha cerca de um milhão e quatrocentos mil homens, dos quais um milhão desertou, obrigando Lenin ao que chamou “uma paz vergonhosa mas inevitável” com a Alemanha de Bismarck (Brest-Litovsk).

A leitura da História pelo cinema impõe leituras sempre parcelares, mas cada vez melhor contadas e mais bem oferecidas ao mundo inteiro. Estas leituras são ideológicas, sim, e não se entregam ao que mais importa entregarmo-nos: a isenção.

Aquilo que utopicamente os historiadores perseguem, não é tarefa ociosa ou um caminho impossível. Da sua inerente inviabilidade todos estamos cientes. Mas calcular os riscos de uma potencial inclinação ideológica é dever de todo o criador. Pode assumi-la abertamente, num gesto, umas vezes de coragem, outras vezes de cobardia. Pode demitir-se de a procurar. Ou pode fingir. E isto é que me custa mais aceitar. E é perigosíssimo encarar estas unanimidades fílmicas que pretendem apresentar “os dois lados do conflito”. Afinal, nada mais fazem do que exercitar a eloquência. O que fazem é lançar ao ar uma moeda de duas caras. É dar a entender que existe uma unanimidade que não existe.
E sobre isto nada mais trazem estas leituras do que Erich M. Remarque já nos trouxera com o seu “A Oeste nada de novo” (Im Westen nichts Neues).

Desta forma, talvez faça mesmo mais sentido o maniqueísmo primevo que, desde cedo, se condenou nas leituras fílmicas dos eventos históricos: os índios que passaram em meia dúzia de décadas de vilãos a vítimas, ou aquele descarado discernimento de Stanley Kubrick no seu filme “Spartacus”, em que o realizador atribuiu aos patrícios romanos uma elegante pronúncia de Oxford, reservando para os escravos o impolido sotaque americano.
publicado por Rui Correia às 17:44
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1 comentário:
De Lus Filipe Redes a 27 de Fevereiro de 2007 às 00:28
"Was wir als Realität zu erfahren glauben, ist vielmehr ein Artefakt”
Reconheço aqui duas leituras ou duas confusões possíveis para esta proposição. Uma é a realidade que procuramos conhecer. Outra é o conhecimento que acreditamos ter. Uma realidade posta, outra pressuposta.
A fotografia da bandeira sobre a ilhota na batalha de Iwo Jima, por exemplo, apareceu como um produto da informação de guerra. Tal como as armas de destruição massiva do Iraque - um artefacto da política externa americana.
O trabalho jornalístico e crítico vai buscar testemunhos, documentos para descobrir a realidade que suspeita estar lá, mas que ainda não conhece. A suspeita, a hipótese, o trabalho de pesquisa resultam no tal artefacto - a versão que nos mostra a encenação da colocação da segunda bandeira, já não com todos os protagonistas do primitivo acontecimento, mas com outros figurantes a substiuí-los. E, finalmente, os interesses que erigiram este facto cénico como sinédoque do heroísmo daqueles soldados, os que chegaram lá valeram por todos os outros.
A realidade que descobrimos é sempre uma construção do conhecimento humano. E, claro, o próprio objecto - a guerra - é um artefacto humano. Mas escusam de vir para aqui com teorias da conspiração - quando digo artefacto, digo fenómeno, que ninguém - nenhuma pessoa individualmente considerada, ou grupo, do tipo dos "sábios do Sião" controla. A verdade procura-se precisamente na adequação entre os indícios, os documentos e o discurso produzido. Tal como os planetas de outros sistemas solares, cuja existência apenas se pressupunha, visto não terem luz própria, mas que, por via indirecta, por novas formas de interrogar os efeitos nos movimentos de outros astros, vão sendo identificados.
É por isso que não vejo na afirmação acima qualquer indício de relativismo.

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