Quarta-feira, 11 de Abril de 2007

falange

phalanxFrankMiller.jpg



Prolegómeno 1.

Nunca tive a felicidade de ter a Dra. Clara Crabbé Rocha como minha professora. Por isso, de vez em quando, ia clandestinamente às suas aulas. Cheguei a faltar às minhas aulas para ir às dela. Numa delas, fizemos um exercício que me foi muito importante. Limpar um texto. Só isso. Limpar um texto. Tirar dali tudo o que não servia para nada. Adjectivos, advérbios e outras poluições. Ensinou-me duas coisas. Uma já todos sabem qual é; a outra é que é importantíssimo para ler um texto que saibamos praticar uma espécie de epoché literária – suspender os juízos. Os nossos juízos. Observar o texto como ele pretende ser exposto. E é isto muito difícil de fazer. Mas muito salutar.

Prolegómeno 2.

“Morrer é inútil. Temos é de saber como desaparecer.” Jean Baudrillard

Prolegómeno 3.

Se eu quiser saber o que é a teoria quântica não devo começar por ler a colecção do Mosquito, do Cavaleiro Andante, do Jornal da BD, ou do A suivre.

Prolegómeno 4.

A história conta-se assim: consciente de que a batalha de Termópilas contra o aqueménida Khshyarsha (Xerxes, para os gregos), em 480 a.C. não poderia ser ganha, (1 milhão de persas - avança Plutarco no seu “Vidas”, Heródoto exagera em 2 milhões - contra sete mil hoplitas - espartanos, tebanos e tespianos - dos quais apenas trezentos de Esparta), o rei Leónidas enviou dois dos seus soldados – não um – para esgaravatar reforços: Aristodemus regressaria a Esparta para convencer a cidade da importância daquele conflito; Pantites foi enviado para recrutar apoios entre os tessálios. Pantites regressaria tarde demais a Termópilas, já depois do final da batalha, encontrando os pares mortos e os seus corpos aviltados. Considerando-se em desonra, Pantites acabaria por se enforcar. (Leónidas fora decapitado e requintadamente crucificado. Não obstante, 40 anos depois, o corpo do monarca espartano foi devolvido a Esparta).

Prolegómeno 5.

Sabemos pouquíssimo de Esparta, mas o pouco que sabemos dá a entender que isto era Esparta: violenta, austera, obcecada por um código de conduta guerreira que impunha o culto da unidade e por tudo quanto fosse imutável, antigo, estável e consuetudinário. Uma comunidade intensamente fechada sobre si mesma. Autárcica, em que o Estado está acima de todo o interesse individual, profundamente xenófoba (repugnava-lhes a admissão de ideias estrangeiras), empiricamente eugénica, (eliminava à nascença as crianças fracas), em que a importância da mulher não era de forma nenhuma semelhante à do homem, (ainda que saibamos que as mulheres participavam também em jogos desportivos quase nuas, coisa que chocava mesmo os mais liberais atenienses – os espartanos desconfiavam, aliás, de mulheres que não tivessem tornozelos grossos); uma sociedade onde o sentimento desempenha um papel ostensivamente insignificante (Leónidas terá dito a Gorgo, sua mulher, quando partia para a batalha de Termópilas, “Casa um bom homem, dá-lhe bons filhos e vive uma vida boa”). Uma sociedade estratificada em Espartiatas (cidadãos de pleno direito), Periecos (vizinhos e capatazes) e Ilotas (servos). Uma sociedade cuja organização política sempre intrigou os filósofos atenienses. E não é para menos: cidade-Estado governada por dois reis, ambos dominados por um eforato composto por cinco éforos que são regularmente eleitos, e que têm poder de retirar os reis do poder, bem como o de vetar tudo o que o Senado aprovar; abaixo dos reis fica este masculino e geriátrico Senado e onde vencia o debate aquele que literalmente gritasse mais alto do que os outros. Até agora a melhor definição para este confuso sistema político é democracia timocrática, monárquica e oligárquica. Uma sociedade que utilizava ainda moeda de ferro, sem nenhum valor fiduciário. Uma comunidade que viveu exclusivamente do esforço dos servos ilotas, mas na qual os espartiatas viviam de forma bastante mais frugal e severa do que os seus servos; onde o desprezo pelo prazer era assumidamente cultivado, e em que os nobres vestem andrajos (Diógenes chamou-lhe “afectação”). Um ninho, pois, de renúncia jingoísta.

Matéria

O recente filme “300”, de Zack Snyder, não quer saber de nada disto. A única coisa que interessa a este publicitário é criar um festim para os olhos. E consegue-o, em respeito direito pela obra de Frank Miller e das aguarelas de Lynn Varley. (Lembram-se do Ronin?). Não se procure aqui profundidades nenhumas. Mesmo que se possa fazê-lo. Não se perca tempo com o conservadorismo tonitruante do filme; esqueçamos a indispensabilidade de filmes bélicos que dignificam o heroísmo sempre que os EUA estão em guerra; despreze-se o rigor histórico (um exemplo: o primeiro homem a cunhar moeda com a efígie de um humano foi Alexandre, o Grande (séc. IV a.C) ainda que só com Júlio César (séc. I a.C.), este costume fizesse escola, um gesto que é, aliás, considerado como um dos momentos mais importantes tanto da história da arte, como da propaganda política); (outro exemplo: só podem integrar o Senado espartano homens com mais de sessenta anos de idade; o jovem Theron nunca poderia sequer entrar no Senado, quanto mais dominá-lo). O respeito que Zack Snyder deve a alguém é à obra e à pesquisa de Frank Miller e não aos escritos de Heródoto, Esquilo – que lutou em Salamina - ou Plutarco. Ignore-se a metáfora pela qual os persas são o Irão e os espartanos são os americanos (este antigo fascínio dos americanos pela antiga Esparta – ou o que julgam saber sobre Esparta – é fácil de descobrir: uma rápida pesquisa no weather channel diz-nos que há “Espartas” no Missouri, Mississipi, Indiana, Michigan, Lousiana, Kentucky, Illinois, Georgia, Wiscounsin, New Jersey) e só depois desta quase nudez intelectual é que podemos começar a ver o filme. Por que havemos de procurar num filme destes, num livro fílmico de banda desenhada, qualquer outra coisa que não seja o que o autor deseja? Ainda que seja muito inteligente, o que quer que concluamos da “leitura” do filme. É um festim para os olhos, repito. Nada mais do que isso. É banda desenhada para cinema. Purinha. Quem gosta de banda desenhada não pode deixar de ver isto. Cada plano é uma tira. Cada segundo, uma vinheta. Lindas. Uma delícia visual e um regalo sonoro. Nem a violência excita. É sempre um desafio poder olhar uma obra, sem lhe atribuir mais nada do que isso, o Olhar. À Caeiro. Não se procure no filme mais do que isso porque não está lá nada de jeito. Mesmo que sim. Para nada mais serve este filme. Não pode. Não deve servir para mais nada. Mas só isso é muito mais do que é costume. Juntai-vos a esta falange. No cinemax do cinemacity, em Leiria. Ide. Vá.


Nota final: só mais uma coisa. Bem sei que o filme está repleto de frases idiotas do género "I fight for freedom! I'd rather die in honor then live in shame!" e sucessivos quadros de batalha, mas confesso-vos, um bocadinho embaraçado, que todas aquelas cenas de acção, minuciosa, artificial, pincelada e cirurgicamente construídas, deixaram-me completamente agarradinho ao banco do cinema. Como quando era cachopo e lia o meu novo Superman - a preto e branco - em dois ou três minutos, na frustração antecipada de terminar a leitura e ter de esperar uma semana inteira pelo próximo número.
publicado por Rui Correia às 14:06
link deste artigo | comentar | favorito
2 comentários:
De Rui a 12 de Abril de 2007 às 01:13
Obrigado, Luís pelo comentário.

(Não tentei distinguir um segundo de um plano. Tira e vinheta, pois.)

Estou todo de acordo com o que escreves acerca da arte e da autenticidade histórica. Vale a pena, sobre isto, ver como Jean Louis David pintou a batalha de Termópilas - demorou-lhe quinze anos a pintar!

Acredito mesmo que se tem exagerado muito quanto à importância de Termópilas. Sem Salamina ou sem Maratona nunca a confiança aqueménida seria realmente perturbada. A conquista de Atenas e o seu incêndio subsequente, em nada perturbaria, acredito-o, o curso da civilização europeia, que podia aliás, muito bem ter seguido uma vertente mais orientalizante. O que significa isso? Ninguém o saberia prever. E sobretudo, seria duradoura essa influência? Quando até Esparta se uniu a Atenas tudo fica dito. De rivais a compatriotas, bastou apenas uma urgência conjuntural. Creio que o que mais apela ao culto americano por Esparta é precisamente o mesmo que daria origem ao Super-homem. O apelo à unidade contra a tirania.(O super-homem nasce em 1938, um ano pouco divertido). Mais não seja contra a tirania de não poder ser lido senão na casa de banho , às escondidas de um qualquer pai tirano, (brinco, evidentemente.)
De Luis Filipe Redes a 12 de Abril de 2007 às 00:24
"Cada plano é uma tira. Cada segundo, uma vinheta".
Não será o contrário?
Bem sei que o comics americano não ganhou a respeitabilidade artística e a relevância cultural da BD belga e francesa. É mais "indústria", coisa que sai todas as semanas e não cadernos que se publicam à medida de um por ano.
O meu pai deixava-me ler o Hergé e o Goscynni, mas o Super-homem, o Batman (reparem que não consigo dizer os autores), o Búfalo Bill, o Fantasma e etc. só na casa de banho às escondidas.
O hiperbólico acompanha sempre o épico. Ao fim e ao cabo, os Lusíadas também não são um ensaio de história da viagem de Vasco da Gama. Porque se exigiria à BD e ao cinema essa exactidão historiográfica?
Frank Miller quis celebrar o heroísmo desses guerreiros espartanos. O que estava em causa era a liberdade das cidades gregas contra o despotismo persa. E de facto, o sacrifício de Leónidas contribui para que algumas décadas depois tivéssemos o milagre que é a cultura ateniense do século V.

Comentar post

pesquisa

 

arquivo

nós

Dezembro 2012

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
31

t&d
t&d