Sexta-feira, 13 de Abril de 2007

bolsar

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Uma das imagens mais impressivas que guardo dos primórdios dos meus anos setenta, é a de uma fotografia que, muito miúdo ainda, tirei aos meus pais depois de uma visita ao Corte Inglês em Madrid. Nessa altura, não havia em Portugal nada de jeito, ou quase nada, para comprar. Por essa razão, íamos muitas vezes a Espanha. A minha mãe tinha feito, nesse dia, uma quantidade invulgarmente grande de compras. Por causa disso, o meu pai pôs-se a brincar com ela, pegando em todos aqueles sacos verdes e brancos e fingindo-se carregadíssimo, (a fotografia mostra-o a carregar um deles com os dentes), exagerou um esgar de esforço que eu não resisti em fotografar. Ficou a fotografia, preto no branco. Ficou também a memória dos constantes passeios de automóvel que a minha família fazia, um pouco por todo o lado. Nada de longas distâncias, entenda-se, mas muitas. Passeávamos muito. Fazíamos piqueniques e brincava-se muito. Temos, na família muitas histórias de viagens que ainda visitamos, sempre que estamos juntos.

Mas nestas viagens existia sempre um problema. Eu e o meu enjoo. Não havia volta a dar. Era certinho. Sempre que saíamos, mais tarde ou mais cedo, eu tinha de pedir ao meu pai que parássemos para que eu pudesse, diga-se antes assim, bolsar. Não sei se era das curvas ou do constante balanço do nosso Ford 12 M, mas a verdade é que, mais hora menos hora, era certo e sabido que o meu pai haveria de parar o carro numa beira da estrada qualquer para me segurar a testa e, com uma reprimida repugnância paternal, me ajudar ali na minha gástrica agonia.

Tentou-se quase tudo. Comprimidos para o enjoo. Nada. Olhar bem lá para o horizonte e distrair-me com a paisagem. Nada. Aliás, esta tese do “olhar bem lá para longe” quase me pôs os olhos em bico, de tanto me esforçar em não regurgitar. Cantar ainda adiava a coisa um pouco e chegávamos – eu e o meu irmão - a fazer longos concursos de músicas dos Beatles. Ele cantava uma até eu começar a cantar outra e depois era a vez dele. Mas o repertório dos Beatles, de que éramos (e somos ainda) peritos por causa destas rodoviárias competições, também tinha os seus limites e não aguentava uma viagem de três horas. E nesse tempo, qualquer viagem a qualquer lado atravessava várias horas, centenas de buracos na estrada e meneava muitas, muitas curvas.

Pois, num desses viajantes fins-de-semana, o meu pai entrou em casa com uma solução para o problema. No dia em que íamos começar uma jornada em família, chamou-me à parte e disse-me que trazia consigo um remédio infalível contra os meus enjoos. Levantou-me a camisola e colou-me um penso band-aid a cobrir o meu umbigo. “Assim, não há meio de enjoar.”, garantiu-me. Com os meus seis anitos e um pai farmacêutico, não me ocorreria duvidar. Lá fui eu, então, com um penso no umbigo, viagem fora. A primeira sem enjoos. Confirmava-se tudo. O umbigo tinha sido a escondida razão de todos os meus enjoos. Nunca mais na vida enjoei. Um simples penso band-aid salvara-me das minhas gastroenterológicas humilhações.

Eu bem lamento o tempo que vos tomei com esta historieta, mas é que acabei de ler a nova legislação sobre os concursos para professor titular e estes pensos todos que tenho no umbigo não estão a dar resultado nenhum.
publicado por Rui Correia às 12:16
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