Domingo, 10 de Junho de 2007

morcelas

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Conclusão: levaram-me a um restaurante “português” da região de Boston. Ao entrar, parecia que estava num Portugal virtual. Desde o galo de Barcelos ao “penizinho” das Caldas, da-santíssima-trindade-Amália-Eusébio-Fátima aos autógrafos emoldurados de cada um dos xutos e pontapés, do Viriato ao Padre Américo, estava lá tudo; uma espécie de refúgio portuga da Costa Leste dos Estados Unidos. Um ou dois chouriços depois, desfilou-me pela mesa um caldo verde, um ensopado de borrego e vinho tinto em demasia. Tudo confeccionado com pura excelência. O fim da noite compunha-se de académicos da Brown e de Dartmouth fingindo-se acostumados a tanta indulgência etílica e procurando não perder a compostura. Foi então que anunciaram os fados. Eu, que me sei pouco dado a estas coisas do faduncho, torci o nariz e calei-me. Alguém protestou ritualmente “Silêncio, que se vai cantar o fado”. Cantou-se. Mal, mas cantou-se. A senhora não nascera para cantar, mas tinha nascido para o fado. O xaile preto daquela emoção, mesmo saída de uma voz indecisa, sem especial merecimento, cobriu-nos a todos. A milhares de quilómetros de Portugal, tudo aquilo fez sentido. Ficámos, de repente, mais portugueses do que nos julgávamos. Um pouco por todas as mesas, silenciosamente, bebia-se vinho tinto baptizado por “una furtiva lagrima”. Aquilo era Portugal. Estava-se em Portugal. Os norte-americanos respeitavam, mas não compreendiam todo aquele silêncio. Aquela emotividade. Explicámos tudo depois. E creio que, nesse longínquo dia de 1996, percebi com nitidez que de nada adianta falar sobre a condição portuguesa, sem conhecer a inquietação de a poder perder. Estar lá fora ajuda.

Dez anos depois, numa solarenga tarde de Abril, passeava-me eu em Bruxelas, o “coração” da União Europeia. Ao passar pelo Manneken Pis – a famigerada estatueta de bronze, ex-libris da cidade, de um menino que terá apagado um fogo com a sua belga urina – percebi que a rua se agitava. Surgiram, então, dois homens de uniforme, subiram a um escadote e começaram a vestir a estatueta com um qualquer traje tradicional. Perguntei. A cerimónia ia começar daí a “cinq minutes”. Fiquei. Foi então que tudo estalou. Começo a ouvir, em crescendo, o “zumba na caneca”, da Tonicha; logo atrás aparece um rancho folclórico completo, vindo de Braga, de preto e vermelho, minhotíssimos; olho para o rapazito da pilinha de bronze e percebo que o seu novo traje é, afinal, de minhoto. Portugal saltava-me, com alarido, ao caminho. Assisti a tudo: a respeitada Ordem do Manneken Pis recebeu da boca do embaixador de Portugal na Bélgica o sentido elogio pela iniciativa; houve discursos, agradecimentos, galhardetes; tudo vestido a rigor, inaugurara-se o fato minhoto do menino belga. A solenidade da ocasião expirou no momento em que, para minha absoluta estupefacção, da pilinha do boneco de bronze, jorraram litros e litros de cerveja portuguesa super-bock, logo distribuída pelos muitos turistas que ali acorreram. A cena parecia tirada de um guião rejeitado pelos Monty Python. Ri até às lágrimas.

E, no entanto, depois do absurdo de tudo aquilo, lembro-me de pensar que a melhor Europa é esta. Belgas a celebrar Portugal. Portugueses a celebrar a Bélgica. É esta a Europa que, afinal, desejamos. Comemorando-nos uns aos outros e celebrando as diferenças com aquela mesma intransigência e aquele mesmo optimismo de quem sabe que é assim que se vive. Mais. Melhor. E que, nesse caminho de regresso que vai do imenso mundo à nossa casa, saibamos o que procuramos e o que podemos encontrar. Nem que seja apenas uma vontade de sopa, de conversa, de morcelas e de mar.
publicado por Rui Correia às 17:17
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