Domingo, 24 de Junho de 2007

reserva

Estive ontem a falar com um amigo que é presidente de Conselho Executivo de uma escola pública há três anos. Para abreviar a coisa, devo dizer que este é provavelmente um dos mais sensatos e dinâmicos Presidentes de Conselho Executivo que já conheci. O que era a sua escola há apenas três anos atrás e o que é a sua escola hoje são quadros de uma tal disparidade que ilustram bem a sua capacidade de liderança, inovação e - muito importante - simpatia. Contou-me aquela série de histórias que todos os gestores escolares têm para contar acerca do poder central.

Mas houve uma ou duas que são para aqui chamadas.

Disse-me que, quando assumiu o cargo, fez um portfolio fotográfico da sua escola e o apresentou ao Poder Central. Entregou às autoridades ditas "competentes" um relatório onde discriminava uma necessidade urgente de 160 vidros com as dimensões indicadas, duas dezenas de portas, umas dezenas de fechaduras, um sistema central de alarme, umas centenas de litros de tinta, louças sanitárias e uns vinte trabalhos de alumínio. Do poder central ouviu esta e aquela tentativa evasiva, este e aquele número de telefone "da pessoa que está com isso", este e aquele nome de três ou quatro engenheiros da Direcção Regional que toda a gente já conhece. Este meu amigo coligiu uma soma impressionante de endereços de email, telefones e mesmo uma ou duas moradas pessoais. Utilizou-os todos. Nada aconteceu, a não ser engrossar ainda mais a sua lista de contactos para outras das pessoas "que estão com isso". Um dia, cansou-se de tanto contacto possível e inconclusivo e sentou-se na sua mesa de trabalho. Escreveu um ofício. "A Escola Básica Integrada de tal não abrirá o ano lectivo sem que estejam criadas condições mínimas de acolhimento de professores e alunos". Pais e restante comunidade educativa aplaudiram e subscreveram esta serena e firme tomada de decisão. Era Setembro. As semanas que se seguiram foram intensas. Telefonemas e mais telefonemas a combinar a ida destes "Autarcas de Ministério" à sua escola. Diz hoje o meu amigo que a sua deve ser das poucas escolas do país que viram o seu orçamento duplicar nos últimos anos. Actualmente, a sua escola tem o merecimento de toda a comunidade escolar. A associação de pais e encarregados de educação funciona de forma exemplar e constituiu-se num parceiro qualificadíssimo para melhorar as condições de trabalho e de vida na escola. As empresas da região acreditam seriamente neste Conselho Executivo e apostam nele. Apostam na escola dos seus filhos. Uma empresa oferece de três em três meses uma bicicleta ao melhor aluno do período. Outra oferece um portátil, no fim do ano ao aluno/ardina que tenha vendido mais jornais da escola. E por aí adiante. Existe uma liderança diligente e trabalhadora, motivada por uma comunidade educativa que se assume como interventora e se concretiza em numerosas iniciativas colectivas. Esta escola é um exemplo de gestão de recursos públicos, sem preconceitos de nenhuma espécie e com um futuro promissor, promotor de inovação e livre de atavismos administrativos.

Perguntei-lhe se concorrera para um lugar de professor titular. Não. Não tem tempo de serviço para isso. Perguntou-me quantos professores titulares haverá na minha escola. Disse-lhe. Ele respondeu-me que na sua escola haverá poucos professores titulares. Disse-me também que, entre os que serão titulares, encontram-se os menos empenhados e os que menos têm colaborado com o seu projecto de gestão, não obstante os resultados. Admitiu-me que, no caso desta sua escola, os futuros professores titulares são precisamente aqueles que demonstram um brio profissional próximo da indigência. São os que, a propósito de qualquer pretexto, por esta ou aquela manha, procuram furiosamente esquivar-se a tudo o que recorde ou soe a trabalho, elaboração de plano educativo, redacção de um texto, acta, reunião, cargo. São os que, em Agosto, não largam nervosamente a comissão de horários e que muito se zangam se não lhes dão um dia livre (Segundas ou Sextas, necessariamente), os que recusam turmas "difíceis", os que tentam intervir na constituição de turmas para que este ou aquele aluno não vá lá parar, os que fogem das direcções de turma como o diabo foge da cruz. São os que deixam os seus alunos sair meia hora mais cedo ou os mandam para a biblioteca porque (haverá alguém que possa acreditar nisto?) "já deram a matéria toda". Devem ser cinéfilos vigorosos porque passam mais filmes nas suas aulas do que nas salas da lusomundo. São os que anseiam por ter horas de Estudo Acompanhado - esse disputadíssimo destroço curricular que nada mais permite senão uma belíssima oportunidade para nada fazer, enquanto os alunos também nada fazem. São os que odeiam a disciplina de Área de Projecto porque é algo que sempre os obriga a apresentar qualquer coisa que tenham feito de concreto no fim do ano. Um escol exemplar de ineptos. Disse-me o meu amigo que, na sua escola, serão estes os professores titulares, salvas as sempre devidas e honrosas excepções.

Perguntámo-nos. Serão estes os professores que formarão a novíssima estirpe de futuros dirigentes escolares?

Há uns meses comprei um vinho superior, da Companhia Agrícola do Sanguinhal. Aragonez. Aveludadíssimo. Requintado, com um aroma e uma cor maravilhosas. Uma obra de arte líquida, de 2001. Uma delícia. Compra-se ali, na Quinta das Cerejeiras. Reserva, evidentemente.
publicado por Rui Correia às 13:55
link deste artigo | comentar | favorito
4 comentários:
De R a 28 de Junho de 2007 às 02:19
Obrigado Isabel. Por vezes ainda acredito que alguém lê estas coisas. Porque a verdade é que de nada serve escrever se não for para ser Lido. Ou Moulin Rouge, enfim...
De Isabel Silva a 27 de Junho de 2007 às 21:57
LINDO!!!
Que pena tenho que não esteja para sair um "Radical" já, agorinha, no final do ano.
Seria um belo "Toque de saída".
BJO
Isabel
De R a 25 de Junho de 2007 às 02:22
Tenho também a mesma convicção do que dizes. Mas acredito que cada escola será um planeta bem distinto. E quem diz tinto diz branco.
De Lus Filipe Redes a 24 de Junho de 2007 às 22:38
Os que agora vão ser titulares são os que o sistema vigente colocou no topo da carreira com o único critério efectivo: o tempo de serviço. Uns serão bons, outros, assim assim e outros francamente maus.
No meu comentário a uma outra entrada, disse isso mesmo.
É tempo de pensarmos nas apreciações que as secções de formação dos conselhos pedagógicos fizeram aos relatórios desses mesmos professores na sua progressão carreira acima. Como foi o seu desempenho nas difíceis e exigentes acções de formação, necessárias para essa ascensão? Suponho que devem ter absorvido todas as ciências e tecnologias educativas possíveis e imaginárias!

Comentar post

pesquisa

 

arquivo

nós

Dezembro 2012

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
31

t&d
t&d