Sexta-feira, 29 de Junho de 2007

postal

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Perguntaram-me ontem por que razão o meu blog se chamava “postal”. Respondi que me lembrei desse título quando li numa frase a palavra “bananal”. Estive para lhe chamar bananalidades mas pareceu-me ostensivamente auto-depreciativo e, portanto, era parvo e afectado. Pensei, então, que se uma banana pertence a um bananal um post devia pertencer a um postal. Daí o verbário, que fazia a remissão às coisas vegetais. Enfim, bananalidades. (Ainda me veio à ideia chamar-lhe postall, com dois lls, mas pareceu-me anglófilo, que é, aliás, uma coisa que sou).
Mas o que isto me fez pensar é que, de novo, essa antipática e impertinente teoria da recepção comanda mesmo a vida, como diria o outro. O sonho de sermos compreendidos é tão incalculável que mais vale resignarmo-nos à sujeição indevida de outros julgarem por nós aquilo que nós julgamos que outros julgarão que julgamos. (Como é que é? "a sujeição indevida de outros julgarem por nós aquilo que nós julgamos que outros julgarão que julgamos"? Sim, está bem, continua lá...). E isso é evidentemente tão errado como legítimo.

Há uns dias, uma conhecida de há muitos anos, disse-me, um pouco absorvida no facto de eu a tratar sempre muito bem, que receava sempre o que eu lhe ia dizer porque dizia que eu tenho uma técnica retórica que funciona assim: começo por elogiar as pessoas para depois refutar o que quer que digam. E dizia isto com uma segurança nervosa que me impressionou. Esclareçamo-nos. Ninguém, porventura, me conhece mais superficialmente do que essa minha amiga, mas nem isso a demoveu de assim me sentenciar, com a maior displicência, como eu realmente, realmente, realmente sou. Já a vi fazer isto a outra pessoa, é certo, mas, mesmo assim, aquilo não deixou de me importar. Fez-me recordar aquelas situações em que vamos, assim, a uma cidade linda, como Paris, e tiramos uma fotografia que saiu mesmo, mesmo bem e dizemos: “Esta fotografia parece um postal”. E quando olhamos bem para a fotografia quase dá para acreditar que aquilo é mesmo Paris. Mas, vai-se a ver, é um cantinho, um ângulo, de um mundo inteiro impresso num pedaço de papel. Um postal, vá.
publicado por Rui Correia às 12:06
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4 comentários:
De R a 29 de Junho de 2007 às 16:04
Post all, evidentemente
De R a 29 de Junho de 2007 às 16:04
Nada melhor que uma boa genealogia filológica para assacar uma indispensável majestática dignidade etimológica, a não ser uma cerveja e uma francesinha.
De Lus Filipe Redes a 29 de Junho de 2007 às 15:14
Estranhei o "postall", pois os anglos, aglófilos ou não, escrevem "postal" como adjectivo.
"Postall" teria que ter um espaço para significar qualquer coisa como "Please, post all", isto é mesmo "posts" como este que a gente hesita entre "post this" or "dont't post this!".
De Lus Filipe Redes a 29 de Junho de 2007 às 15:06
Serem "post" é o fado de todos os postais, não obstante, "postal" ter sido importado do homógrafo francês "postal", palavra derivada de "poste" - que tem uma honrosa origem latina em "ponnere", similar ao nosso "pôr", - e significou "correio do rei". A via inglesa, remonta ao latim, "postis", qualquer coisa como posto, ombreira da porta, etc. Postal será "postcard", nada mais nada menos do que um "postal card".
Assim, "postal" está muito bem como ponto de encontro entre latinos e anglos, com todas as acepções possíveis, que vão do pôr, ao enviar e ao mostrar.

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