Sexta-feira, 29 de Junho de 2007

desafinado

Burning_tires.jpg

Que no peito dos desafinados
No fundo do peito bate calado
No peito dos desafinados também bate um coração

Tom Jobim


Quando aqui há dias descrevi neste blog a tomada de posição que um Presidente de Conselho Executivo teve de assumir perante o poder central para poder abrir a sua escola com o asseio, a segurança e a dignidade que a educação sempre merecerá, ao concluir o texto, hesitei imenso tempo em o publicar. Sentia que, embora fosse tudo factual, estaria para aqui a promover os tão desejados murros na mesa que, neste como noutros países, fazem tanto sucesso entre os incautos. O texto quase me parecia estar a aplaudir essa moda torpe de vigilantismo cívico que, demasiadas vezes, apenas se deixa flutuar no desejo prazenteiro e demagógico dos arruaceiros. Outras vezes, mais sórdido ainda, funda-se – e afunda-se – no indisfarçável desejo de afirmação e vaidade pessoal.
Lido o texto, não havia como escapar da sentença. Por isso quero apenas dizer que nem admiro nem defendo aqueles murros de mesa. É só uma história. Creio, porém, que há algo a dizer sobre isto. E o que acho importante dizer-se não demora nada a dizer. O poder ensurdeceu. Os cidadãos não são escutados. Não se sentem representados e por isso não se sentem ouvidos. Em democracia nada é mais fatal. A distância que vai dos parlamentos à rua, do poder central a nossa casa, é gigante.

A prova de que os cidadãos querem fazer-se escutar pode, como sempre, ver-se em eloquentes perifenómenos sociais. As pessoas querem falar. Mas querem fazê-lo de maneira que alguém as ouça. Fazem-no, pois, nos jornais, nas rádios, nas televisões. Mas sentem que nada disto do quarto poder resulta. Não são escutados. Existe uma coisa embusteira que se chama agenda mediática e tudo o que fuja a isso fica para depois, ou nunca. Um autarca, um ministro, um gestor público aguardam que as coisas expludam para só depois remediar e tentar, em gestos patéticos de maior ou menor majestade, correr a salvar a face. E tornou-se isto usual.

Raramente alguém é ouvido. E não ser ouvido é o mesmo que não falar. É pregar no deserto. A isto se segue a inevitável demissão cívica, porque não há assim tantos parvos. Ontem, recebi um email e tive uma conversa. Ambos diziam o mesmo. Dois professores cuidadosos e cultos interrogavam-se sobre o que fazer para fazer passar a mensagem pela qual o ensino público precisa de um púlpito feito de gente alheada dos partidos, do poder, dos sindicatos. Verdadeiros movimentos de cidadania.
As pessoas, algumas das melhores pessoas que temos, querem falar e ser escutadas. Não vêem como. Veja-se o sucesso que teve a iniciativa cívica "Um dia por Lisboa" que teve lugar no jardim de Inverno do teatro São Luís. Três computadores gravaram centenas de horas de depoimentos de cidadãos e irão ser agora compilados e analisados pelo ISCTE. Pergunto-me. O que se fez ali que uma assembleia municipal não possa fazer? Isto é algo que me ultrapassa. Uma trapaça é pensar que a função de uma assembleia municipal se restringe aos paços do concelho. Como é possível que ninguém pense em fazer assembleias municipal abertas, que vá aos lugares e ouça as pessoas? Nada.

Ninguém escuta. E porque ninguém escuta a cidadania vai-se derrubando. Em democracia nada é mais fatal do que o silêncio. A não ser talvez o ruído. A proliferação de blogs mostra bem como as pessoas têm coisas para serem lidas e escutadas. Todo o jornalista hoje sabe que consultar blogs é uma fonte incontornável de informação – e de cópia descarada. O problema é que os cidadãos reivindicam e nada acontece. Por todo o lado, as posições de força vão resultando, dando-se alento aos que menos querem conversar e debater serenamente. Dá-se ânimo à histeria que barrica estradas, sequestra bancos, queima pneus e bloqueia carris. Incentiva-se a reactividade em vez de proactividade. “Quem o avisa, seu amigo é”. Mas ninguém ouve. É preciso escutar para que, mais tarde, se não suspire e se não corra o risco de alguém nos dizer a pior frase de todas: “Eu não te disse? Não me quiseste ouvir…”

Nos mais diversos domínios da nossa vida, do nosso emprego, da nossa cidade, da nossa família é indispensável estar atento e não esperar que as coisas aconteçam para reagir ao seu previsível advento. Antecipar não é fácil, mas é muito mais complicado fazê-lo se não escutarmos as vozes, tantas vezes discordantes, que, por consciência cívica ou até, simplesmente por amizade, alertam e previnem para o que por aí importa ir corrigindo. Se calhar isso é o que por aí chamam “ter visão”. “É preciso ter”, diz o anúncio. Isso e audição.
publicado por Rui Correia às 14:53
link deste artigo | comentar | favorito

pesquisa

 

arquivo

nós

Dezembro 2012

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
31

t&d
t&d