Terça-feira, 10 de Julho de 2007

tradução

A vida toda tenho procurado explicar que uma aula não consegue competir com um bom documentário. E que é mesmo preciso trabalhar a fundo para que esta renhida competição não nos deixe para trás. E que temos trunfos na manga. Bons. No outro dia, dizia-me o meu amigo FN que anda muitíssimo apreensivo com este ressurgimento do ensino técnico que parece voltado para essa concepção inclinada pela qual o ensino académico não é para todos. O meu amigo LR admitia com toda a sua razão habitual que o pior que se pode fazer pela Matemática é o de achar que aquilo tem que ter tudo a ver com a experiência empírica. O meu amigo PP encontra na defesa do Ensino Público a principal pulsão da sua luta íntima profissional.

O texto que se segue, retirado de um livro da Diane Ravitch, aqui traduzido para se poder ler melhor, faz uma belíssima reunião destas nossas reflexões. E se lermos isto com atenção percebe-se que o esforço de fugir dos lugares comuns sobre educação conduz-nos à Educação como o verdadeiro lugar comum. Não estamos sós, não senhor.

"Grandes organizações sociais só alcançam sucesso quando se voltam para aquilo que fazem melhor. Esta verdade vale para as escolas. O que as escolas podem e devem fazer? Elas não podem alcançar sucesso a não ser que todos os seus alunos se tornem competentes em leitura, escrita e matemática, assim como sejam capazes de obter um bom entendimento de história , ciências, literatura e um idioma estrangeiro. Elas não podem alcançar sucesso a não ser que ensinem às crianças a importância da honestidade, da responsabilidade pessoal, da curiosidade intelectual, do engenho, da bondade, da empatia e da coragem.

As escolas devem preparar os mais jovens para que estes desenvolvam uma “inteligência versátil” nos termos descritos por William T. Harris: uma inteligência que proporciona aos indivíduos condições de aprender novas tarefas e de se tornarem senhores de suas próprias vidas. Elas devem ensinar o uso da linguagem simbólica e das ideias abstratas. Elas devem ensinar os mais jovens a respeito da cultura e do mundo no qual vivem, e a respeito de culturas que existiram tempos atrás e em lugares muito distantes.

Se souberem e realizarem o que fazem bem, as escolas podem escapar de modas e panaceias que muitas vezes lhes foram impostas por pressão de grupos, legisladores, e por entusiastas bem intencionados. As escolas não podem competir com a riqueza visual da televisão, com a Internet ou com o cinema. Mas os media, erráticos e impessoais, não podem competir com professores que conhecem, inspiram e guiam os mais jovens para uma maturidade responsável.

Três grandes erros dominam um certo pensamento sobre as escolas:

o primeiro grande erro é a expectativa de ver as escolas como instituições capazes de resolver todos os problemas da sociedade;

o segundo é a crença de que apenas uma parcela das crianças precisa de educação académica de alta qualidade;

o terceiro é a crença de que as escolas precisam enfatizar as experiências imediatas dos estudantes e minimizar (ou até mesmo ignorar) a transmissão do conhecimento.

O primeiro destes pressupostos leva à perda de foco, afastando as escolas da sua missão mais básica; o segundo contribui para baixos desempenhos e favorece políticas antidemocráticas; o terceiro priva os mais jovens de aprender com a experiência de outros, e impede que eles possam subir sobre os ombros de gigantes em qualquer campo do pensamento e da acção.

Talvez no passado fosse possível deixar sem educação uma parcela importante da população sem causar sério prejuízo à nação. Hoje não. A educação, nos nossos dias, mais do que em qualquer outra época, é a chave para uma participação integral na sociedade. Um rapaz ou rapariga que não possa ler, escrever, ou usar matemática está privado de qualquer oportunidade educacional. Um homem ou mulher sem uma boa escola básica e secundária está virtualmente afastado da educação superior, de muitas carreiras desejáveis, da participação em nosso sistema político, e da apreciação dos grandes tesouros estéticos da civilização.

As disciplinas ensinadas na escola são de uma validade singular, tanto para os indivíduos como para a sociedade. Uma sociedade que não ensina ciências para todos favorece a proliferação de movimentos irracionais e de sistemas de crenças anti-científicos. Uma sociedade que volta suas costas ao ensino de história encoraja a amnésia das massas, fazendo com que as pessoas ignorem eventos e ideias importantes do passado da humanidade, e provocando a erosão da inteligência cívica necessária para o futuro. Uma sociedade democrática que deixa de ensinar às gerações mais jovens seus princípios de auto-governança coloca tais princípios em risco. Uma sociedade que deixa de ensinar aos jovens a apreciação das grandes obras de literatura e arte favorece ao embrutecimento e degradação de sua cultura popular. Uma sociedade étnica e racialmente diversa requer, mais que outras sociedades, um esforço consciente para construir valores compartilhados entre seus cidadãos. Uma sociedade que tolera o anti-intelectualismo em suas escolas favorece ao surgimento de uma cultura idiotizada que presta culto às celebridades e aos sentimentalismos em vez de conhecimento e sabedoria.

As escolas não vão tornar-se obsoletas por causa das novas tecnologias uma vez que o seu papel como instituições de aprendizagem tornou-se mais importante hoje do que o foi no passado. A tecnologia pode suplementar as escolas, não substituí-las. Mesmo as tecnologias electrónicas mais avançadas são incapazes de converter os seus mundos de informação em conhecimento maduro, uma forma de magia intelectual que requer professores competentes e bem preparados.

Para serem bem sucedidas, as escolas precisam estar voltadas para sua missão fundamental de ensinar e aprender. E elas precisam fazer isso para todas as crianças. Essa deve ser a meta mais abrangente das escolas no século XXI."

Diane Ravitch, "Left Back: a century of failed school reforms", New York: Simon & Schuster, 2000, (p. 465-467).
publicado por Rui Correia às 15:28
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