Domingo, 15 de Julho de 2007

divo

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Dos seus dedos saem livros grandes e humanistas. De uma longa comunicação que lhe assisti há vinte anos no teatro Paulo Quintela em Coimbra, concluí tratar-se de um homem de pedra; por ter a cabeça cheia de convicções esculpidas. Depois desse baptismo "pré-nobelitante" vi-o muitas vezes a ser exactamente isto. Um tipo aridamente convicto da perfídia humana.

Agora parece achar que 1640 foi um contratempo. Defende a mesma estafada poliarquia defendida pelos nobres das Cortes de Tomar. E nada o importuna recordar o que significou para Portugal sessenta anos de união ibérica e a decadência espúria que se lhe seguiu. Nem falo da Língua Portuguesa, porque o tolo parece mesmo acreditar que no país basco só se fala Euskara.

Espanha apaparica-o. Sevilha deu-lhe um Honoris Causa. Toledo e Castilla-La Mancha também. Madrid também. Granada nomeou-o filho adoptivo. Espanha adulou-o tanto que ele próprio acredita que é mesmo aquilo que Espanha pensa dele: celeste. Ao perguntarem-lhe se ele acha que em Espanha o acham um Deus, ele responde: "Não será tanto assim." Olímpica lhaneza esta, por parte de um homem que os portugueses confiavam não ser vendível.

Na deriva venal da sua desancorada jangada, peça o divo Saramago a cidadania espanhola que, pela minha parte, não lho levarei a mal.
publicado por Rui Correia às 17:52
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3 comentários:
De Rui a 16 de Julho de 2007 às 14:43
Outra coisa. Pasqual Maragall, alcalde de Barcelona de 1982 a 1997 e Presidente de la Generalidad de Cataluña até 2006 e que esteve em Portugal com Sócrates para dar uma forcinha às eleições de Lisboa - ninguém falou disto, enfim - defende o mesmo que Saramago, (saiu no El Mundo na edição de 1 de Outubro de 2006). Além disso em Setembro do ano passado, o jornal Sol mostrara uma sondagem pela qual 27,7% dos portugueses são partidários da unificação com Espanha nascendo um único Estado: a Ibéria. Isto está a "desanacronizar-se" tudo.

Uma vantagem grande ao menos da União Ibérica: já não tínhamos de aturar aquele pessoal de Olivença.
De Rui a 16 de Julho de 2007 às 14:30
Duas coisas. Não é tão unânime que o ouro do Brasil tenha sido assim tão delapidado. Uma certa visão marxista da História nunca perdoou e não perdoará, evidentemente, alguns dos gastos mais exorbitantes, mas se pensarmos a despesa com o abastecimento público, nacional, de água potável e a reformulação do ideário urbanístico, somados ao apoio público prestado a muitos dos estrangeirados, com as consequências que nos deixaram, chegaremos porventura a conclusões menos absolutas. Ainda assim, de uma coisa estou em absoluto desacordo. A decadência de que fala Antero é outra; (Antero vocifera contra os jesuítas, o absolutismo tridentino e a improdutividade geral da nação).
A decadência que chega da União Ibérica é total, pela corrupção clamorosa, o ostracismo internacional, diplomático, que uma Inglaterra toda poderosa desejou impor sobre Portugal e que Pombal haveria muito bem de conhecer, fazendo com que o reino regredisse em matéria de desenvolvimento capitalista, industrial e burguês atirando o país para onde nem nunca o Conde de Ericeira suporia ser possível. E depois toda a depravação ética resultante da boçal cupidez dos desiludidos com a união - decorrente do desprezo absoluto pelo acordado por Felipe II de Espanha em Tomar - que, envolta de patriotismo genuíno, alimentou uma turba para a Restauração.
De Lus Filipe Redes a 16 de Julho de 2007 às 13:03
É pura e simplesmente anacrónico considerar a hipótese de Portugal vir a fazer parte de Espanha. É estranhíssimo que Saramago se entretenha com exercícios deste tipo, curiosamente à revelia do nacionalismo dos seus camaradas do PCP (não me consta que tenha sido excomungado ou que tenha rasgado o cartão de militante).
Por outro lado, não acho que a União Ibérica tenha sido um desastre. A "decadência dos povos peninsulares", para utilizar um título do Antero, vem de muito antes. Os custos do império espanhol, a pesada herança de Carlos V, com as guerras da Flandres e com os rivais ingleses e holandeses à perna nos mares, não acrescentam muito aos custos do império português. O ouro do Brasil viria a ser gasto tão inutilmente pelos Braganças como o fora antes a prata do Peru e do México pelos Habsburgos.

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