Sexta-feira, 14 de Setembro de 2007

Zawinul

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Durante quinze anos nunca soube quem foi o Luis Buñuel. Tinha eu precisamente quinze anos quando ouvi pela primeira vez falar do Luis Buñuel. O meu amigo Pedro Veloso ficou estarrecido e socou-me com esta: “Tu não sabes quem é o Buñuel? Mas tu és doido ou quê?“. Quando imediatamente tentei saber tudo o que houvesse para saber sobre esse tal Buñuel, fiquei com a noção concreta do tamanho da minha ignorância.

Ontem morreu o Joe Zawinul. De novo, não se faça literatatatatura com isto. A importância que os Weather Report, ou os Syndicate, ou os álbuns a solo de Zawinul têm na construção da minha identidade musical – assim como na de muitos dos melhores que eu conheço - é poderosíssima e indisfarçável. Em vez de procurar por Mozart, Viena foi para mim procurar o Freud e o Birdland de Zawinul. Lamento pungidamente o seu desaparecimento. Fica-me até que eu me morra todo aquela música e aquele Músico. Para além pai e marido, Zawinul nunca arranjou cabimento para ser mais alguma coisa do que Músico.

Este sereno génio visionário recusou o convite do Miles para tocar com ele ("quando chegar a altura certa havemos de fazer história juntos"). 1959. Depois disso tocou em cinco albuns do trompetista e foi o que se viu. Com algum garbo sei ter sido responsável por apresentar a música de Zawinul a quatro ou cinco amigos. Disse dele em todas essas ocasiões que o Zawinul era um tipo que podia passar por nós na rua que nunca lhe atribuiríamos qualquer realce. Zawinul era um austríaco de 75 anos com um saco de plástico na mão. Depois ouvíamos as coisas dele e percebíamos logo que não. Por causa da epifania que se operava. "A remark you made" é a primeira faixa da banda sonora da minha vida. Zawinul foi buscar sons e músicos e músicas e vozes e timbres e testemunhas da riqueza musical do mundo todo e chamou-lhes "Mi gente". Fez world music muito antes do conceito.

O mundo, aliás, vinha ter com ele. Quando o Nguyen Lê veio a Torres Vedras, trouxe consigo o baixista Etienne MBappe. No final de um espectáculo que já aqui comentei, fui falar com o baixista e a conversa foi toda parar ao seu trabalho com o Syndicate de Zawinul. A admiração de MBappe, um instrumentista espantosamente virtuoso dos Camarões, por Zawinul era a de um aprendiz pelo seu mentor. (Não obstante um recente episódio singular entre eles. MBappe tinha deixado Zawinul sem baixista porque disse ter-se esquecido da tournée. Zawinul ficou furioso e demitiu-o)

Pois ontem, os meus amigos e eu fizemos o habitual velório telefónico. Telefonámo-nos todos uns aos outros. Um deles tinha a voz entorpecida. O Mezzo passou tudo o que tinha sobre ele num in memoriam apressado por tão absolutamente imprescindível. As outras televisões, jornais e rádios nem deram por nada. A linda mulher de Zawinul (a primeira coelhinha da playboy afro-americana) morrera de cancro há uns meses e ele fez o mesmo logo a seguir - cancro da pele. Que ano para os filhos do grande Músico.

Quanto aos outros milhões de filhos da música deste homem extraordinariamente bom, simples, cuja única ambição como pessoa era “to be a decent human being”, resta-nos de novo reparar a perda recordando mais uma vez que havia toda a possibilidade de passarmos pela vida sem nunca ter percebido ou sequer ouvido falar ou sequer ter ouvido Joe Zawinul. Nem que fossem só quinze anos.





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Um panóptico cronoparvovideográfico de Zawinul:

Com o Cannonball Adderley, o maior de todos

Outra pérola com o Cannonball Adderley ("this new thing called bossa nova")

Com os Weather

Com o Miles em 1991

Com o grande Trilok Gurtu

Zawinul Syndicate
publicado por Rui Correia às 11:10
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2 comentários:
De rui a 2 de Outubro de 2007 às 12:24
Caro José Menezes. Fico-lhe muito obrigado por aqui deixar o seu educado comentário. Também eu me viro do avesso quando ouço o que penso ser o mais próximo que há do que mais gosto. I get weak in the presence of beauty, dizia algures uma inócua e significante musiquinha. Aplica-se aqui, também. Obrigado.
De Jos Menezes a 2 de Outubro de 2007 às 01:33
Obrigado pelos clips video. Especialmente o Jive Samba por um dos meus grupos preferidos EVER.
Elegância em estado puro.
Abraço
JMenezes

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