Sábado, 29 de Setembro de 2007

mediasickos

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Primeiro, Michael Moore foi informado que a sua entrevista com Larry King tinha sido cancelada porque o apresentador da CNN tinha conseguido a entrevista exclusiva com a imbecilebridade Paris Hilton. Afinal, Moore ia apenas falar sobre o sistema de nacional de saúde americano, num documentário parcial mas factual, certamente controverso. Depois, num momento nervoso de televisão, a co-apresentadora do programa Morning Joe, Mika Brzezinski, recusou-se por três vezes, em directo, a ler a notícia da soltura de Paris Hilton, chegando mesmo a tentar queimar o papel em que a notícia lhe fora entregue com um isqueiro. Satisfez-se em rasgá-lo e, ao recolocarem-lhe três vezes aquela notícia à frente, destruiu-a num triturador de papel. Tudo ao vivo. Em Portugal, Santana Lopes recusou-se a continuar uma entrevista depois de o terem interrompido para um directo sobre a chegada do José Mourinho a Portugal. Também Luís Filipe Menezes inquirido sobre os ataques pessoais em que a campanha para a liderança do PSD se tinha tornado, empinou qualquer coisa como: os senhores não têm mais nada para nos perguntar? Saúde, Educação, Ambiente, Política externa?
Assim de repente, até parece que existe ligação entre estes eventos e é muito tentador unir os pontinhos e perceber que, como a célebre onda do Algarve, parece que vem aí uma vaga de contestação aos editorialistas estafados dos media. Logo, logo, um sorriso impaciente instala-se no rosto de todas as pessoas razoáveis. Mas, no meu entender, não se trata nada disto. Não são epifenómenos de uma consciência empanturrada de frivolidades que finalmente esbraceja contra a minimidade e insignificância dos destaques editoriais. Estudemos tudo isto só um bocadinho.

1 - Michael Moore foi já diversas vezes à CNN e nunca deixou de ser um completo pavão de si mesmo, insultuoso, com uma constante teoria da conspiração em que ele próprio é vítima e voz solitária, o que , reconheçamos nunca fica bem a ninguém.
Nas entrevistas que a CNN lhe cedeu aquando do lançamento do “Sicko” ele foi insuportável e falou mais de frivolidades como “A mim não me querem deixar falar e a CNN é uma peça da engrenagem contra bla bla bla” do que propriamente falar sobre o sistema de saúde. Wolf Blitzer teve de aturar aquilo com um estoicismo que não lhe conhecia.
No Larry King, quando o velhote tentou dar-lhe voz e preparou um debate mano a mano com Sanjay Gupta, o seu adversário nas questões de saúde pública, Moore transformou aquilo de novo num número de circo que pode muito bem ser entendido como artificiais ondas de choque para atrair atenção sobre o filme. Moore celebridade.

2 - O mesmo se passa com os episódios de Santana Lopes e Luis Filipe Menezes. Depois de transformarem consistentemente as suas aparições nos media em prodigiosos números de circo, viram-se agora contra os mesmos media que os ergueram, como que a assumir posições de seriedade e dignidade pessoal. Porquê? Pela habitual e única razão: receio bem realista pelo seu futuro político pessoal. O descrédito de Santana Lopes é tal que ninguém se inibe de o interromper para privilegiar a chegada do Mourinho. Até que ponto pode ter ido a gestão de carreira de Santana Lopes para que seja plausível interromper o depoimento de um ex-primeiro ministro com uma coisa tão míserável como “a chegada de um treinador de futebol”. Quer fazer passar por causa aquilo que já é um efeito.

O descrédito de Luis Filipe Menezes é precisamente igual. Ambicioso e ufano como ninguém, depois de uma campanha espalha-brasas e espirra-canivetes, pretende-se, agora que o PSD não sabe como evitar a sua embaraçosíssima vitória, um homem de gravidade estadista e que deseja pôr os pontos nos iis.
Não estamos livres, por isso, de um dia destes termos semelhantes tomadas de posição por Valentim Loureiro, Alberto João Jardim, Mendes Bota, Fátima Felgueiras, Avelino Ferreira Torres, Isaltino Morais, Paulo Portas, Carlos Candal ou Macário Correia. Epifenómenos, sim, mas de outra coisa muito mais desanimadora e importante do que o descrédito do jornalismo.

Nota: uma recomendação para o director da SIC Notícias, Ricardo Costa, que considerou a reacção de Santana Lopes “inusitada e desproporcionada”: mesmo sabendo que tudo isto foi “um bocadinho espectacular”, a desculpa é a estrada com melhor piso.

3 - Tomemos, pois, de todos estes episódios, o único que realmente diz algo: o de Mika Brzezinski. A jornalista assume uma posição importante, por ser uma posição vinda de dentro do sistema. Uma jornalista que se revolta com a própria linha editorial da sua estação televisiva privada. Tem tudo a perder. Pessoal e profissionalmente. Morde a mão que a alimenta. O seu programa nem sequer se chama “Morning Mika”, mas sim “Morning Joe” (o anfitrião é Joe Scarborough). A sua revolta é uma rebelião conhecedora e ética. Há que emprestar-lhe, pois, outra atenção. Nenhum dos casos anteriores se lhe compara. Avulta, neste caso, um excessivo componente pessoal, dir-se-ia. É verdade, tal como é também verdade que sempre se percebeu que é com tomadas de ruptura e de risco pessoal que muitas das melhores coisas acabam por se tornar coisas melhores ainda. Uma profissional reputada que está farta até ao esgotamento ("I'm about to snap") de uma notícia que simplesmente não tem qualquer valor e que já se transmitira vezes sem conta é algo a que importa atender. Quando Mika pede desculpa aos espectadores por aquela ser a notícia que a estação coloca em destaque, Joe Scarborough atira-lhe com um “Oh my God… she’s not a journalist anymore, is she?”, ela responde, “No, I hate this story and I don’t think it should be our lead”. Aquilo que parece uma clamorosa violação da isenção jornalística, (e talvez o seja), é, a meu ver, uma rara aparição ao vivo do código de conduta de um jornalismo sério. E isso torna-a uma celebridade. Minha, pelo menos.


“-You’ve changed the world, Mika Brzezinski”
-Yes I have. At least my world”
publicado por Rui Correia às 13:09
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