Sábado, 3 de Novembro de 2007

impressão

oumkalthoum.jpg


A associação Educação / Tecnologia não constitui uma aproximação conceptual. A reciprocidade produtiva deste consórcio é hoje uma realidade tão indesmentível como irreversível. Em nenhuma instância pública ou privada de educação se concebe a gestão educativa, ou estritamente pedagógica, sem o recurso ao vector tecnológico, sobretudo quando compreendido numa acepção conscienciosamente profissional e desligada de conceitos exactamente tradicionalistas de educação. Naquele sentido, é costume dizer-se que o usufruto da tecnologia digital importa uma dimensão de comunidade que ultrapassa os costumados quadros mentais, emoldurados em balizas nacionais ou civilizacionais. Pode dizer-se, assim, que mercê desta relação profícua entre conhecimento e tecnologia, a educação adquiriu um novo comprimento. Estende-se a acção dos formadores e formandos a lugares (tanto conceptuais como geográficos) tradicionalmente longínquos da acção educativa. No estrito âmbito da dimensão cultural e política europeias é indissociável a expansão da rede tecnológica de comunicação com as redes de interacção entre os seus membros, tanto institucionais como individuais. Num processo zeloso em que se percebe muito demorada esta desejada integração europeia, todo o processo que simplifique e amplifique os processos de conhecimento mútuo permitirá transformar os cenários de habilitação e mobilidade profissional, expandirá o mercado disponível de emprego e sobretudo oferece acesso aos centros de decisão económica e cultural. Acrescidamente, este é um processo que não se extingue no melhor conhecimento do Outro. Nem chega, ao contrário do que muitos iludem, a esbater-se a noção local de educação, ou de cultura. É, documentadamente, na abertura ao exterior que uma renovada concepção cultural sobre nós mesmos se reforça de forma mais indelével e permanente. Ninguém percebe nada de fado ou flamenco se não for ao Norte de África. O sentimento de pertença a outra comunidade que não aquela onde quotidiana e materialmente nos movemos torna-se indomável. Esta é a verdadeira “realidade virtual”, um plausível oximoro que constitui, talvez, a excepcional mudança civilizacional do nosso tempo. Repare-se que não nos referimos ao conhecido conceito de “desaparecimento de fronteiras”. Na verdade, a chamada globalização atravessa um período ainda juvenil no seu contributo para um recíproco conhecimento das civilizações humanas. Existe um notório desequilíbrio na balança cultural entre civilizações. O desconhecimento que possuímos perante realidades tão humana e culturalmente monumentais como a Índia, a China, África, Sudeste Asiático e o mundo islâmico revela-nos que a globalização parece privilegiar dois sentidos, que são afinal um único, e antigo: do Ocidente para Oriente e do Norte para o Sul. Um exemplo: poucos europeus saberão quem é Oum Kalthoum, indisputadamente a diva artística mais célebre do mundo árabe, cuja popularidade no mundo islâmico é comparável à de Maria Callas no Ocidente. E nem há espaço para que se discuta aqui o acesso emancipado à rede digital de informação que constitui um primordial objectivo civilizacional à escala planetária, tão significante como o ambiente ou a pobreza.

A comparência da tecnologia no processo educativo importa não apenas um novo comprimento, mas – permita-se a metáfora – uma nova largura. O advento de um único suporte de informação internacional como a Internet consente obter uma rápida percepção das diferentes abordagens para um qualquer objecto de estudo. Uma riqueza que traz consigo um desafio seriíssimo de arquivística. Temos hoje a possibilidade de, em qualquer tempo e lugar, dispor de informação plural, interdisciplinar, sobre qualquer assunto. Estudar o fabrico de moldes de plástico para a indústria ou a geografia humana dos chakras energéticos atravessa hoje o mesmo procedimento e o mesmo desenlace: informação diversificada, oriunda de multíplices fontes, cuja arrumação e selecção, reitera-se, constituirá a principal aposta cultural das décadas mais próximas. Mais distante e variegado, o conhecimento atinge-nos de forma mais promissora e proficiente. O processo de tentativa e erro sai-nos mais económico. Outros andaram por caminhos que não faz sentido percorrer de novo. E hoje sabemo-lo em tempo real. Este conhecimento gera progresso. Fechadas algumas portas, outras se impõe que sejam abertas. Todo o processo criativo, científico, desenvolve-se com esta arrumação, esta disposição. Comprimento e largura acrescidas no acesso ao conhecimento impõem um duelo maior entre conhecimento e inovação. Numa palavra, ao conhecimento é imposta uma nova fronteira, para um antigo desígnio cultural: a de uma renovada e excitante desenvoltura. Neste momento, porém, esta abertura ao mundo, este pulsar das novas cidadanias globais constitui pouco mais do que um desafio aliciante com provas dadas mas com inúmeras resistências por dissipar. Começa, dir-se-ia, a ultrapassar, com uma lentidão inesperada, o estatuto do auspicioso vestígio de uma impressão digital.
publicado por Rui Correia às 13:23
link deste artigo | comentar | favorito

pesquisa

 

arquivo

nós

Dezembro 2012

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
31

t&d
t&d