Quinta-feira, 6 de Dezembro de 2007

epitáfio

O Herman Hesse tem um poeminha onde diz "Ele deu sugestões. Nós aceitámo-las. Um epitáfio assim não me envergonharia".

Ontem voltei a discordar publicamente de uma proposta apresentada por um indivíduo que, lamentavelmente, não faz a mais remota ideia do que fala. E como todas as pessoas assim, que lêem muito menos do que opinam, ficou o animal amuado. Cada vez percebo mais por que razão quase toda a gente sensata que conheço se esquiva a não abrir a boca. Não é porque não saiba o que dizer. Só não se quer maçar com a eventualidade de represálias. Respeito esta postura, mas acho-a insultuosa para quem se dá ao trabalho de lançar ideias, por mais absurdas que sejam. Vou, claro, recordando-me que ninguém ou muito pouca gente conhece a distinção entre discórdia e discordância. Felizmente, vai havendo alguns que sabem o que isso é. Com esses aprende-se sempre. Com esses me interessa privar. Mas voltemos ao mentecapto. Nem o facto de quase unanimemente ninguém ter aceite a sugestão que lançara dissuadiu aquele mamífero de pensar que a sua não era uma boa ideia e que os outros são todos umas bestas. Eu, que nem conheço este neandertal de lado nenhum, terei sido talvez o único que se tenha dado ao trabalho de estudar a sua proposta. Pois mal lhe dei ocasião, o mamífero, adulto e pai de filhos, demonstrou-me o seu mal estar, com aquela arrogância mal dissimulada, nervosa e atabalhoada, característica de quem não está habituado a ser contrariado.

Isto nunca há-de deixar de me espantar. Não lhes ocorre que o maior desprezo é nem pensar no que dizem? Que argumentar sobre uma ideia é respeitá-la? Que não dizer nada sobre uma proposta é mil vezes pior do que condená-la? Nunca aprenderam isto? Em lado nenhum? Quantas vezes, uma ou mil, pensámos nós mal? Pensar mal, sim. É simples. Pensar mal em coisas que gente mais inteligente ou, simplesmente, o mais inteligente de todos, o tempo, nos foram demonstrando estarem mal pensadas. Como tentar demonstrar que a terra é plana quando a evidência "si muove"? Quantas vezes não ficámos nós entusiasmados com ideias de outrem que se opunham diametralmente às nossas? O que ficou dessa experiência senão a convicção de que demos um passo em frente? Como será que estes mamíferos chegaram à idade adulta sem que, ao menos uma vez, lhes tenha sucedido isto?

Aos 42 anos sou absolutamente intransigente numa coisa: o de poder concordar ou discordar de uma ideia sem concordar ou discordar com o seu proponente. Será que, em circunstâncias oficiais, as propostas devem apresentar-se anónimas às instâncias de decisão, para assim, depurar o ruído que resulta de elucubrações silenciosas que poluem exactidões de raciocínio?

Resultado. Nunca mais lhe digo nada. Tornou-se-me intelectual e socialmente falecido. Fica o epitáfio. Aos 42 anos, desisti já de ser terapeuta e só me interessa ter por perto quem esteja mais concentrado em ser melhor do que em ser o melhor.


(Escrevo isto a ouvir o prelúdio em Ré Menor para violoncelo de Bach - adequadíssimo)
publicado por Rui Correia às 16:16
link deste artigo | comentar | favorito

pesquisa

 

arquivo

nós

Dezembro 2012

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
31

t&d
t&d