Sábado, 8 de Dezembro de 2007

O primeiro - e último disco - que comprei do Karlheinz Stockhausen foi em vinil e fazia as delícias de todos os amigos que subiam diariamente ao meu sótão. Tinha para aí uns 15 anos. Ouvimo-lo inúmeras vezes por achar que era tão incrivelmente subversivo que nos dava uma interminável vontade de rir. A coisa não era para menos. Numa das mais longas faixas do álbum, que durava uns oito ou nove minutos ouvia-se alguém dizer "Good evening", ouvia-se um ruído de uma porta a fechar e depois era o silêncio. Um silêncio tal que o próprio negro do disco mudava de cor. O silêncio interrompido, claro está, pelos sons mecânicos do gira-discos, o roçar da agulha e o eu a rir. Bem sei que a coisa era séria, mas eu é que não conseguia dar-lhe outra importância que não a de me fazer rir.

A coisa passou. Anos depois, andara eu a vida toda a achar que não tinha respeito pela obra de Stockhausen, quando, nos idos dos anos oitenta, o ouvi dizer que um dos principais efeitos que a sua música produz no próprio Stockhausen era o de o fazer rir. A obra de Stockhausen tem esse extraordinário mérito. O de devolver a música ao que a promove. O prazer pelo som. Sons mudam as pessoas. Não existe forma de arte mais tirânica do que a música. O som é inescapável, irreprimível. Por seu turno, música é, afinal, o som organizado. Deturpado. Daí o nome composição. Lembro-me da sua peça em que colocou um quarteto de cordas a tocar num helicóptero. Reafirmava a dignidade dos sons e não da sua organização. Condenou a tentativa dos recentes instrumentos electrónicos dos anos setenta apenas tentarem imitar sons que já existem, tocados por instrumentos que já existem. Stockhausen deixa essa marca. Criar novos sons, "sintetizar", passou a ser uma obsessão laboratorial de compositores e empresas. A "cor do som", passou a ser uma expressão que nasce tão rapidamente quanto se torna obsoleta, tal a virtude deste conceito de Stockhausen. White noise é um dos seus derivados.
Pegar numa sinfonia e comprimi-la num único segundo; pegar num som que dura um segundo - uma pedra que bate noutra - e estendê-lo durante vinte minutos. Tudo sons com a mesmíssima dignidade.
Talvez seja esta a razão que me transformou o jazz no estilo de música que mais me importa. Por ser a casa onde se reúne a organização dos sons e a desconstrução dos sons. Este desequilíbrio essencial que a música improvisada convida a observar é o que mais seduz. E nem sequer falo de dissonâncias, que essas nem chegam a ser desconstruções; são deduções matemáticas puras, e por isso mesmo, de novo, consonâncias. Refiro-me mais ao indizível que apelidamos como quisermos: groove, feeling, timing, swing, blues, enfim, o que fica por ali, a iluminar toda a operação. Provavelmente os silêncios e os sons alheios à tal dedução. Há quem lhe chame também a alma (soul).

Não vem esta nota a propósito da morte de Stockhausen, ontem. Vem a propósito de um amigo me ter enviado o célebre 4' 33'' de John Cage, em três movimentos, onde se celebra, não o silêncio, mas para que o público absorva os sons em seu redor durante um concerto. É por isso indispensável que todos compareçam da mesma forma como se compareceria num tradicional concerto de música, incluindo trajes, partituras e instrumentos. Trata-se de uma peça que causa ainda controvérsia em quem tenha estado activamente empenhado em não saber nada sobre música nos últimos 50 anos.

A peça é aqui tocada no Barbican Center, um dos lugares com melhor acústica do mundo, pela BBC Symphony Orchestra, orquestra completa. Mas o interessante deste documento que me enviaram é o facto de ser televisionada pela BBC. Escutar a peça em casa não é o mesmo que escutá-la no Barbican Center. Ou seja: é. E é justamente isso que interessa.

Todavia, sobre isto sempre achei que em todo o som musical coexistem três layers de som e o John Cage apenas se debruçou sobre dois: a música e o ruído de fundo. Existe um outro layer que é o som da execução. Ou seja: dedos nas teclas, martelos nas cordas, crinas, sopros. Conseguindo uma forma de abafar todo o som produzido pelos instrumentos e pudéssemos ouvir este outro layer sonoro, aí sim, teríamos acesso a uma audição completa e desconstruída. Desta maneira, fica a coisa amputada.

De qualquer modo, da obra de Cage e Stockhausen resulta o ficar todo o século XX e seguintes devidamente elucidados: o som não é som. Só.
publicado por Rui Correia às 16:31
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