Domingo, 27 de Janeiro de 2008

memória

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Num discurso proferido no dia 14 de Dezembro de 2005, o presidente do Irão Mahmud Ahmadinejad designou o holocausto nazi como “um mito”. Em Outubro do mesmo ano, havia dito que Israel é “uma mancha desprezível” que devia ser “apagada do mapa”. Esta mensagem chocou a opinião pública mundial e foi repudiada por líderes políticos de todo o mundo. A negação do holocausto é uma estratégia antiga para contestar o fundamento da criação em 1946 do Estado de Israel, junto dos Estados árabes, que nunca toleraram a sua presença.

Por seu turno, a actuação de Israel no Médio Oriente tem sido muito controversa, com erros políticos e militares por parte de todas as partes envolvidas. Contudo, a negação do holocausto por parte de um dirigente nacional, para além de traduzir uma ignorância indigna, constitui, afinal, um gesto calculista e demagógico que pretende promover o ódio racial, anti-semita, para daí retirar óbvias vantagens de dominação económica e geo-estratégica naquela região do mundo.

A importância do “Dia Internacional de Comemoração em Memória das Vítimas do Holocausto”, dia 27 de Janeiro, proclamado pelas Nações Unidas em Novembro de 2005 é absoluta. Conhecer o significado humano desta tragédia é o que mais me aproveita, na minha ínfima condição de professor de história e de cidadão. A efeméride, que tenho ajudado a comemorar todos os anos na minha escola, deu já lugar a dois projectos escolares que muito me sensibilizam. Ambos procuram contribuir para uma consciencialização da dimensão, estatística e humana, desta tragédia. Contei sempre com o apoio e a cumplicidade dos meus colegas de departamento, que muito enalteço.

Há uns meses atrás, num congresso em Cracóvia e em Auschwitz, acompanhado por mais vinte professores e responsáveis políticos, ajudei a fundar a Auschwitz Teachers Network, um grupo de estudiosos deste tema. Na altura, Kathrin Meyer, uma colega que ali representava a OSCE (Office for Democratic Institutions and Human Rights), perguntava-me como se comemorava o 27 de Janeiro em Portugal. Explicou-me, então, que a maioria dos países europeus celebram esse dia com manifestações de representatividade institucional ao mais alto nível. Portugal foi o único país a confessar que, para além de manifestações escolares pontuais, pouco ou nada se fazia. A presença de Cavaco Silva, presidente da República de Portugal, junto da comunidade judaica no dia de hoje marca uma estrepitosa bofetada institucional neste silêncio. Aplaudo com entusiasmo a decisão presidencial de emprestar, pela primeira vez, a este dia o merecido destaque estatal.

O Holocausto aconteceu porque o regime de Hitler e dos Nazis era racista. Eles acreditavam que o povo alemão era a "raça suprema", acima de todas as outras raças e povos. Judeus, ciganos, testemunhas de Jeová, homossexuais e deficientes mentais eram considerados inferiores e vistos como "ameaças" à pureza e força da nação alemã. Quando os nazis chegaram ao poder, perseguiram brutalmente todas estas pessoas, retiraram-lhes todos os direitos e, finalmente, tomaram a decisão de que deveriam ser todas exterminadas.

Acredito que o nosso papel como professores não é apenas o de inteirar os novos jovens acerca dos acontecimentos e conceitos mais significantes. Precisamos de fomentar no universo humano em que nos movemos uma atenção crítica sobre os fenómenos plurais da discriminação étnica, sexual, económica, nos nossos dias. O activismo nesta matéria dos direitos humanos é imprescindível num período da história como aquele que atravessamos, onde tantas vezes a verticalidade ética nem sempre é compreendida como uma indispensabilidade quotidiana. E, todavia, como professores, é isso que se nos exige em primeiro lugar. Como pessoas, mais ainda. Porque a verdade é que podemos sempre ser um pouco melhores hoje do que aquilo que fomos ontem. A memória destas efemérides pode conceder-nos essa oportunidade.
publicado por Rui Correia às 21:52
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