Segunda-feira, 28 de Janeiro de 2008

infância - excerto do jornal Publico de hoje - texto de António Marujo

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O rabino Eliahu Birnbaum recordou a avó, o avô, os tios. Todos morreram em Auschwitz. Duas crianças, Tatiana Prist e Abraham Ruah Guerra, leram excertos de testemunhos de crianças escondidas em França, retirados do livro Estrelas da Memória.
Uma das histórias era a de Jacques: "Como criança escondida, tenho duas coisas a dizer: se hoje estou vivo [...] devo-o também a todas aquelas famílias francesas, algumas das quais católicas, outras protestantes, que, sob perigo de vida, aceitaram salvar crianças. Não sei se hoje toda a gente estaria disposta a fazer a mesma coisa... É também uma maneira de prestar homenagem a essas pessoas que eram cristãs, que eram generosas, que arriscaram a vida, que me salvaram, a mim, às minhas irmãs e a tantos outros. Esses, nunca os esquecerei. E, sempre que posso, planto regularmente árvores em Jerusalém em sua memória."

Ontem, ao fim da tarde, a Sinagoga Shaaré Tikvá (Portas da Esperança), em Lisboa, recebeu o Presidente da República, Cavaco Silva, e várias entidades políticas e religiosas, para uma cerimónia evocativa do Dia Internacional de Memória das Vítimas do Holocausto. "Estamos aqui a cumprir um dever de memória", disse o Presidente. "Compreendemos o que se passou? Não compreendemos. Não se pode compreender um processo racional, burocrático e sistemático, cuidadosamente planificado e arquitectado, para realizar o irracional."

Da memória falou o rabino Eliahu Birnbaum, em representação do grão-rabino de Israel, Yonah Metzger: "O que é a memória? É algo que faz parte da identidade." O Holocausto (Shoah), para os judeus, disse, "não é só história nem recordação, são memórias selectivas que queremos lembrar porque a memória constitui a base de um povo, e um povo sem memória não tem presente nem futuro". Birnbaum acrescentou: "Perder a memória é como perder a vida. O povo judeu vive por meio da sua memória."

Recordando a resolução da assembleia geral das Nações Unidas, de 2005, de assinalar a cada 27 de Janeiro a memória das Vítimas do Holocausto, Cavaco acrescentou: "O trabalho de memória começa por ser um esforço de reconstituição de um passado que não pode ser negado. É mais que um imperativo de justiça. Contra a indiferença, contra o esquecimento, é de uma pedagogia que precisamos: que todos saibam o que aconteceu para que todos sejam levados a agir de modo a que não volte a acontecer."

O dia de memória foi marcado na data em que se assinala a libertação do campo de concentração de Auschwitz-Birkenau. Num dos outros testemunhos lidos, Colette contava que a sua infância acabou no dia em que a mãe foi levada (morreu mais de milhão e meio de crianças na Shoah). "Nesse dia, tornei-me adulta, tinha seis anos. Guardo na memória o rosto de uma mãe, igual a todas as mães, sem dúvida, amorosa, meiga, particularmente generosa."
publicado por Rui Correia às 18:33
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