Quinta-feira, 7 de Fevereiro de 2008

Toto

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A mim já me aconteceu. Por uma razão qualquer tive uma jornalista na frente a fazer-me perguntas. E eu, ali, totó, a dar um ar de entendido, seguro de que estava no Kansas. Totó. Bem, vai daí a jornalista pergunta ao intelectual "Então este seu trabalho revela uma faceta nova da literatura étnica luso-americana." Ao que o intelectual responde “Bem, se mostra uma face nova ou não, não sei, sei que é uma perspectiva “ignorável” sobre o assunto". E pronto. Assim mesmo: “ignorável”. Como se eu secretamente achasse que a língua portuguesa não pudesse dispensar as minhas contribuições. Imediatamente, corrigi com um apressado "ignorada, ignorada" duas vezes. Mas é aqui que a coisa se adensa, eu percebi do olhar da jornalista que ela chegou a considerar a possibilidade de a palavra “ignorável” existir. Lá pensou “Que burra eu fui a minha vida toda que nem nunca tinha ouvido a palavra “ignorável” e aqui está à minha frente o insigne estudioso que me abriu as portas ao conhecimento de mais uma pérola desse colar infinito que é a nossa língua, a nossa pátria pessoana”. Estava ela nisto quando eu, como vos disse, envergonhado, corrigi e disse "ignorada, ignorada" duas vezes. Ela sorriu. Ainda hoje me lembro daquele esgar subtilmente desdenhoso.

Pois hoje a mocinha jornalista fui eu. Calhou-me a mim. Estava a chegar a casa de carro a ouvir um dos poucos tipos que ainda usa palavras velhas, o Ângelo Correia. (Bem sei, bem sei, mas que quereis? Estava a dar e pronto). Vai daí o homem sai-se com esta “ Isso é uma coisa que não diz muito ao homem anodino”. Assim mesmo: “anodino”. Escrito é mau mas dito ainda é pior. Então na rádio... Quando escrevi anodino até o corrector automático do Word mudou logo para anódino sem perguntar nada a ninguém. Por ser tão elementar, presumo. Tive de voltar atrás para apagar o acento. Pois o comentador disse assim mesmo “anodino”.

Como por princípio sempre me dei bem com a ideia de que tudo o que não conheço é falta minha (e já muito aprendi com isso), lá fui eu, burro, ver ao dicionário se aquilo existia. Não existe. Existe o acento. Isso existe. É mesmo para isso que existe. Para tirar as peneiras aos totós que pensam que o Kansas fica na America. Sem acento, evidentemente.
publicado por Rui Correia às 19:43
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