Domingo, 10 de Fevereiro de 2008

Retropolis

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Estive lá a semana passada. Foi a última coisa que fiz antes de sair de Londres. Camden town é um lugar imprescindível. Não me faz sentido ir a Londres sem passar por Camden town. Primeiro, pelo que tem de cosmopolita, no melhor sentido da palavra, ou seja pela tolerantíssima diversidade humana que o lugar oferece. Lembro-me de um fim de tarde que ali passei ao som de músicos locais que pegaram em instrumentos e espontaneamente fizeram a maior jam session que alguma vez vi na vida, dando ao bairro uma festa que o mês seguinte recordaria. É ali que foram parar os punks dos anos oitenta. Quer dizer, ao menos os punks que não se ficaram pelo caminho. Transformaram aquele espaço num quartier de criadores. O artesanato urbano de Camden town é brilhante. Todos os dias aparece uma nova ideia à venda por meia dúzia de cobres. Quando digo uma nova ideia é mesmo uma ideia nova. Daquelas que nos fazem sorrir. Comprei lá muita coisa que não seria possível comprar em mais lado nenhum. Camden town fez-me entender por que razão não é pedante dizer que se vai a Londres para ir às compras. As coisas que ali se encontram são extraordinárias. Há excelência e criatividade em cada esquina. Há também muita, muita memória. O mobiliário que ainda vem das Índias ex-coloniais, os aromas intensos, invasores, das comidas de todo o mundo que ali se vendem, as roupas vintage para cada uma de todas as décadas desde o século XVII ao século XXII (a cyberdog é uma paragem obrigatória), a China, a União Soviética, a Jamaica, o Moulin Rouge, a Índia, a moda nórdica, os índios americanos, o punk, o gótico, a scot fashion, o sovietchic, tudo o que se possa imaginar pode ser ali recordado e comprado. A última coisa que lá comprei foram duas camisas caríssimas mas impossíveis de encontrar noutro lado. Mais do que uma metrópole, Camden town é uma Retrópole. Ali se visita a memória num convite de reformulação e desconstrução constantes que sempre importava revivificar. Para mais, o setting disto tudo são os antigos armazéns de mercadorias e antigas cavalariças, ligadas pelos bucólicos canais de inúmeros braços de rios artificiais que serviram durante a industrialização do século XVIII e XIX para transformar Londres no centro do mundo. O império vitoriano está ali todo, fantasmagórico e vivaz, obscuro e vibrante.

Desta vez, apercebi-me das obras que Camden town estava a ser sujeito. O labirinto de galerias dos antigos armazéns desapareceu, para grande tristeza minha. Iam transformar aquilo numa área bem comportada, arquitecturalmente sólida, com muitos benefícios em matéria de saúde pública e mobilidade urbana. Mas, a avaliar pelos projectos 3D que as autoridades municipais ali expuseram, o espírito de Camden town desvanece-se completamente. Camden town não se deixava adivinhar. A surpresa encontrava-se a cada recanto. Todos os dias as coisas são ou eram diferentes em Camden town. Todos os dias alguém sai de casa para ir para Camden town tentar vender algo de novo que criou na noite anterior. Talvez isso se mantenha. Uma parte de Camden town morreu, pensei eu.

Não adivinhava eu que o pior estava ainda por vir. Que Camden fosse consumida pelo fogo esta madrugada. Estou mesmo desanimado com a notícia. Um dos meus lugares predilectos daquela que é há muitos anos a minha cidade favorita desapareceu em fumo. Não me surpreenderia que este fosse um fogo posto. Por quem vê nos muitos milhares de pessoas que ali iam especialmente aos Domingos de manhã, uma oportunidade para ali instalar Zaras, Springfields, Berschkas, Mangos, HMs, Pull and Bears, Massimo Duttis e quejandos. Que pena, que grande pena tenho.
publicado por Rui Correia às 16:15
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