Sexta-feira, 15 de Fevereiro de 2008

real

Quando uma notícia de duas colunas sobre um homem que foi esfaqueado no coração repete seis vezes a expressão “esfaqueado no coração” não estamos na presença de jornalismo. Não é sequer jornalismo. Chama-se-lhe sensacionalismo como se as boas notícias não agitassem sensações também. Não é sensacionalismo. É apenas replay e ganância. O inevitável é atingirmos uma desvitalização da sensibilidade.

Como se sentirá um pai, uma mãe ao ler nos jornais que o seu filho foi morto à “martelada”, à “navalhada”, à “machadada”, à “facada”, à “chumbada”, à “sacholada”. Esta insensibilização vai, como qualquer vício, exigindo uma dose maior de crueza, de crueldade. E maior, maior, maior até chegarmos lá, a esse lugar menor onde ninguém quer chegar. Ao lugar onde as más notícias chegam a dar a impressão que nada de bom acontece. À mentira, portanto.

"Tempo real" é uma instalação concebida e preparada por alunos do 8º ano de escolaridade da Escola Básica Integrada de Sto. Onofre, Caldas da Rainha, Portugal, no âmbito da disciplina de Área de Projecto e foi realizada durante os meses de Setembro de 2007 e Fevereiro de 2008 e é concorrente do certame “Promovendo a Inovação e a criatividade: as respostas das escolas aos desafios das sociedades do futuro”, promovido pela Presidência Eslovena do Conselho da União Europeia.

Esta exposição integra uma forte componente artística e oficinal, mas persegue um propósito essencial: sublinhar como se torna indispensável, hoje em dia, dispor de um ponto de vista crítico, para calmamente discernir as numerosas tragédias humanas que vamos conhecendo através dos media. O gosto irreprimível pelo macabro nos media, apresenta-nos um tempo que simplesmente não é real. Um tempo feito de medo, indignação e alarme. Se toda a realidade fosse assim tão negra, tão sanguinária, que valor teria a vida? Qual seria o lugar da esperança? Que utilidade teria a solidariedade?

Este trabalho procura denunciar essa mentira. Pegámos no estratagema do mau jornalismo: a repetição da mentira até à exaustão até que pareça mesmo verdade que o mundo e a vida são dois lugares malignos.

Todos os alunos estiveram envolvidos em todos os aspectos desta instalação. Os seis mil recortes de jornais que aqui se apresentam, os aspectos de design e a versão digital da mostra, constituem consequências imediatas do seu trabalho. Alguns professores, encarregados de educação e pessoal auxiliar deram-nos uma mãozinha. A exposição conta com o favor do Paulo Sousa, Isabel Silva, Dulce Nunes e do João Magalhães. Agradecemos entusiasticamente a sua generosidade. Companheirismo e amizade como estes não se vêem nem lêem habitualmente nos jornais. É isto que significa viver-se no tempo real.

publicado por Rui Correia às 13:05
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