Domingo, 24 de Fevereiro de 2008

gárgula

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As câmaras de vídeovigilância são, sim senhor, as gárgulas do nosso tempo. E são gárgulas pelo que têm, tanto de ameaçador, como de medieval. O inimigo CCTV é o do século passado. O medo orwelliano; o da presença obsidiante de agentes de controlo social. A visão ultrapassada desse controlo físico atrai adolescentes; tanto novos como velhos. É uma distracção, um entretenimento, politicamente tão relevante como obsoleto. Numa conferência na Gulbenkian Seymour Papert mostrava uma placa de circuitos integrados que ele mesmo surripiou de uma das torres de vigia que controlavam o muro de Berlim, entretanto abandonadas: "Este é o novo muro".

Hoje, a tecnologia abriu as portas a um novo horizonte para o futuro. O presente reserva-nos um adversário muito mais imperceptível e recatado: a manipulação. É esse, todos o entendemos, o mais poderoso e evasivo fenómeno político do nosso tempo. Os políticos despedem ministros competentes porque "não terão sabido passar a mensagem”. Controlar a imprensa de modo a que “a mensagem passe” é tão decisivo que os porta-vozes de um qualquer governo assumem um papel político absolutamente exuberante. Não se pensa nisto as vezes necessárias: “assessor de imprensa” é uma profissão. Custa a entender. Por definição, um "assessor" deve estar ao serviço de alguém. E está, de facto, mas não da imprensa. Um assessor de imprensa é uma inconsequência absoluta. Um assessor auxilia. Este não. Este dificulta. Este apenas filtra. Os jornalistas procuram hoje desvendar o que está por detrás do que diz um assessor de imprensa. Averiguar as omissões, traduzir a selecção de palavras. No concreto, um assessor de imprensa é alguém que objectivamente procura impedir a imprensa de saber o que devia e garantir que a imprensa repete o que o poder pretende que seja repetido.

Eu diria que temos hoje três tipos de censura, a humana, costumada deste e dos séculos passados, e as do nosso tempo: a algorítmica e a presciente. É sobre estas duas, sobretudo a última, que mais me tem interessado estudar, (enfim, coisas que a Hannah Arendt, Thomas More, Campanella, Eric Hazan, Vladimir Volkoff, Philippe Vuitton, Popper e Quentin Skinner sempre nos obrigarão a fazer). A censura presciente é a aparentemente involuntária. Mediante padrões estudados de comportamento social, uma pessoa é conduzida a tomar decisões que, ilusoriamente ditadas pelo seu livre-arbítrio, refreiam, ao invés, a sua liberdade. Por decisão aparentemente autónoma. Uma censura invisível, imperceptível, mas antecipadamente determinada por outrem. Presciente, portanto.

Não é apenas nos círculos e laboratórios intelectuais que o germe da manipulação se desenvolve. Quando politicamente motivado, mesmo o mais rude acto sanguinolento se faz hoje acompanhar de uma orientação objectivamente indutora de um terror que ultrapasse muito os efeitos imediatos do atentado em si. Trata-se, afinal, de regenerar a psicopatia do medo pelo Outro, pelo desconhecido, esse mais ancestral dos medos. Importa que esse terror se instale para, depois, retirar daí todas as consequências políticas, que, invariavelmente, satisfazem o apetite político dos poderosos. O fenómeno novo é que, resguardados no fenómeno do “medo”, os legisladores avançam no controlo de uma população, desta vez aberta e conivente com a supressão das suas mais elementares liberdades.

Sobre este propósito convido-vos a estudar um website, cuja visita regular muito recomendo; é o “Design with intent: arquitectures of control”, dinamizado por Dan Lockton. A concepção de soluções de design que visam especificamente diminuir a liberdade de movimentos dos utentes constitui, ao contrário do que se possa pensar, um exercício de consciência livre e de dilatação da liberdade.

Ultra sons para afastar adolescentes, bancos de jardim que repelem os sem-abrigo, bancos de jardim que os acolhem, bancos de café que convidam a não se estar sentado muito tempo, técnicas para condicionar a memória, bancos de jardim anti-sociais, anti-convívio, espelhos colocados longe dos lavatórios para contrariar demoras na sua utilização, copos cónicos para evitar que sejam colocados em cima de mesas, elevadores com mostradores electrónicos acima da altura das cabeças para que as pessoas não se sintam tão constrangidas num espaço tão claustrofóbico (e para que possam não ter de conversar umas com as outras?), barreiras mentais que condicionam os percursos de transeuntes, impressoras que, antes de imprimir qualquer folha, perguntam “Você precisa mesmo de imprimir isso”, enfim, há por ali um pouco de tudo, para o melhor e para o pior, mas, isso sim, do que de mais adiantado em matéria de design político hoje se vai fazendo. Tudo, devidamente ilustrado por preciosas (e, algumas vezes, divertidamente oblíquas) partituras intelectuais.

O design político é a manipulação cientificamente suportada, leve e eficaz, que faz recurso consciente às minúcias de uma ergonomia, fisiológica ou mental, objectivamente regulada. No fundo, trata-se de saber como decorre o processo de voluntariamente (?) sucumbirmos às decisões de outrem, (atente-se: decisões sobre nós), e que nunca aceitaríamos de bom grado. E fazê-lo instintivamente. Trata-se de uma leitura muito útil que permite que cada leitor reforce a ideia pela qual, quanto mais se lê, quanto mais se conhece, mais livre e insubmissível uma pessoa se pode ir tornando. E que, sendo muito, ler não é tudo. A rua, o ar livre espera por nós. É ali que tudo se passa. De olhos nas gárgulas. Ao ar livre.

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publicado por Rui Correia às 13:09
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2 comentários:
De Rui a 25 de Fevereiro de 2008 às 09:44
Muito obrigado pelo comentário. Como certamente compreendeu, o texto refere precisamente "Eu diria que temos hoje três tipos de censura, a humana, costumada deste e dos séculos passados, e as do nosso tempo: a algorítmica e a presciente.". Todavia, aquilo que Foucault faz no seu empolgante "surveiller et punir", aliás como o faz na sua "História da Loucura", é surpreender os momentos - historicamente localizados - em que categorizadores definem tipologias de ordenação social que, em função de uma necessidade social de classificação, à Binet, dos comportamentos de desvio da norma, se imporão sobre o futuro. O big brother configura algo muito diferente. O mais interessante é verificar como a vigilância pode ser exercida pelo vigiado. E esse é que me parece que é muito mais insidioso do que as tradicionais abordagens orwellianas.
De Finisterra a 25 de Fevereiro de 2008 às 01:11
A vigilância não data de agora.
A partir dos séculos XVII e XVIII implantou-se um sistema de controlo social através da conjugação de várias técnicas de classificação, de selecção, de vigilância e controle. Estas técnicas ramificaram-se pelas sociedades a partir do poder central de uma cadeia hierárquica e multiplicaram-se numa rede de poderes interligados. Esta selecção do ser humano foi realizada para melhor controlar o poder. Este é então executado de forma celular, exercido com uma determinada intenção. Assim, este conceito de poder versus saber, acentua uma íntima relação entre poder e saber, pois como diz Foucault, toda a forma de saber produz saber. Por outras palavras, dividir e classificar, permite conhecer melhor cada célula social para (melhor) se poder governar.
As múltiplas faces do poder estão todas elas sempre presentes e actuantes, o que significa que há líderes e subordinados, senhores e escravos, capital e trabalho, controlo e resistência, poderes e saberes, técnicas disciplinares e instituições, jogos de soma-nula e jogos de soma-variável e, talvez, como característica preponderante, a construção colectiva de uma rede cada vez mais apertada com escassos pontos de fuga.
Beware, Big Brother is watching you.

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