Quarta-feira, 27 de Fevereiro de 2008

subterfúgios

Pergunto-me se ninguém anda, como eu ando, preocupado com o que de mais sério se está a passar nas escolas: o abandono escolar. O outro: o abandono escolar dos professores.

Fico atónito com esta concordância colectiva perante os maus resultados dos alunos portugueses e da imediata relação que se estabelece entre esses desaires e a qualidade do ensino. Nomeadamente, dos professores, claro está. Interrogo-me se, por desgraça, uma epidemia desatasse a dizimar portugueses, se imediatamente diríamos que o problema está todo nos médicos.

Outra das questões que me causa espanto é quando alguém, não professor, sinceramente empenhado em compreender esta coisa da avaliação dos professores e da sua objecção às quotas de excelência, diz: “Mas em todas as empresas existem quotas. Nem todos podem ser excelentes, não é? Por que hão-de os professores ser diferentes?”

E, perante este arremesso, muitos professores hesitam, vacilam na resposta. Esquecer-se-ão que numa empresa, quando alguém entra nessas quotas de excelência, isso envolve necessariamente que esta ascensão seja acompanhada de vantagens? Melhor remuneração, novo gabinete, senhas de gasóleo, uma secretária, cartões de crédito da empresa, telefones da empresa, horário liberal, carro da empresa, ou, no mínimo poder passar a utilizar a casa de banho dos executivos?

Ora, no caso da escola, aquilo que acontece aos titulares é nada. Não têm melhores condições de trabalho, não ganham mais, a carga horária é a mesma e aumentam-lhe as suas responsabilidades e trabalho. Nada mais acontece. Imagine-se propor isto numa empresa: “Meu caro, estivemos a ver o seu desempenho nos dois últimos trimestres e você realmente destacou-se nas vendas. É o nosso melhor vendedor. Achámos que, para premiar o seu esforço e dedicação, deveríamos nomeá-lo o novo sócio da empresa. Que tal, hein? Parabéns. Sabe o que isto significa, não sabe? Pois é. Significa que o seu vencimento mensal não se altera, irá ganhar o mesmo, a fazer a mesmíssima coisa, mas mais ainda. Parabéns, Alberto.”

Além disso, isto implica aceitar-se que vender carros, ensinar alunos ou salvar vidas é tudo a mesmíssima coisa. Entendamo-nos, pois. Saber quantos carros um tipo vendeu em três meses é fácil. Saber quantas encomendas um promotor conseguiu granjear em sete anos de trabalho é simples. Saber que tipo de impacto uma aula, um professor, teve no sucesso do aluno é, apenas, imperscrutável, incomensurável.

Seria o mesmo que dizer a um médico de campanha no Iraque que ele é muito mais competente do que um médico em Castelo Branco porque o americano salvou 26 vidas em dois meses enquanto o calaceiro do albicastrense queimou fitas há vinte anos e ainda só salvou 14.

Uma escola não é, concluo, uma empresa.

Finalmente, numa altura em que se fala tanto de lideranças “fortes” - o que quer que isso signifique - custa-me perceber que quem lidera o Ministério é tão, mas tão fraquinho nas argumentações. Tem sido, por exemplo, muito revelador surpreender um expediente retórico característico da senhora Ministra; um subterfúgio que lhe encontro muitas vezes é o constante recurso à hipérbole para desfigurar o que quer que tenha sido dito pelo interlocutor.

Por exemplo, quando um professor lhe dizia, referindo-se ao pasmo com que foram recebidos os critérios para professores titulares que, e cito:

“a Senhora Ministra não está em condições de garantir aos professores, aos encarregados de educação e ao país que os avaliadores são mais competentes, têm mais competência para avaliar do que aqueles que vão ser por eles avaliados”

a ministra responde:

“No limite, o que o Sr. Professor me está a dizer é que os professores não querem ser avaliados pelos seus pares”.

E há-de continuar mais tarde dizendo:

“Peço desculpa se me enganei, com toda a sinceridade, mas se fosse professora eu não queria outro modelo de avaliação que não fosse a avaliação por pares”.

Ou seja, contesta um ponto contra o qual ninguém se erguera. (Um outro ponto insignificante: por que diz ela “se eu fosse professora” Ela não é professora no ISCTE?)

Noutro momento, quando um professor lhe diz que 90% dos titulares, entre os quais ele se inclui, não possuem habilitação para supervisão e avaliação de pares, a ministra deturpa a coisa e pergunta-lhe, e cito:

“o senhor professor acha que os professores que estão na escola, que deram aulas, que avaliaram alunos, que desempenharam cargos são, em regra, maus professores e incompetentes para avaliar?”.

Ou seja, não responde e procura encurralar o contendor neste ardil de dar a entender que ele defendera algo que, na verdade, nunca afirmou.

Isto continua por aí além, por isso paro aqui. Mas uma coisa não posso deixar de sublinhar. É espantoso que a Sra Ministra aceite naturalmente que se lhe diga o seguinte:

“A senhora Ministra não tem nenhum dado objectivo que lhe permita afirmar que [os titulares] são mais ou menos incompetentes. A senhora ministra não avaliou a qualidade dos desempenhos. Não avaliou o mérito destes professores no concurso para professor titular.”

E que, sobre isto, a senhora ministra responda:

“Permite-me que faça só uma observação? Tem toda a razão. Tem toda a razão. Não foi uma avaliação. Tem toda a razão. Foi um concurso.”

Esta pusilanimidade sobre um ponto tão crítico como é o da constituição da figura dos professores titulares é um assombro; se assumirmos que nada os destaca dos outros, por não ter existido uma avaliação que premiasse os melhores, estaremos a diminuir a propriedade da avaliação que estes serão incumbidos de realizar. No mínimo, reconhece-se que, em matéria de competência pedagógica, nada distingue o avaliador do avaliado.

Liderança, precisa-se.
publicado por Rui Correia às 17:15
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5 comentários:
De rui a 29 de Fevereiro de 2008 às 16:49
Muito obrigado pelo comentário. A presença de quotas não é incontroversa, como sabe. Mas verificará que o texto não pretende ser uma qualquer apologia das quotas. A minha posição sobre isto é tão, mas tão longínqua, não apenas do que temos, mas daquilo que parece ser o caminho escolhido pelo ministério para a educação em Portugal - uma obsolescência centralizadora - que nem lhe digo nada. Ou melhor: fazia-me um favor grande se desse uma vista de olhos no texto 30 que há dias aqui publiquei. De novo. Fico-lhe muito obrigado pelo comentário.
De quase professor a 29 de Fevereiro de 2008 às 13:48
Excelente post. Apesar de ter uma opinião contrária quanto às quotas na avaliação e a sua imperiosa necessidade, julgo ter ficado a compreender melhor alguns dos argumentos contrários. Se daqui sai alguma "discussão", deixe-me dizer-lhe que numa escola, como numa empresa, a "subida" a titular tem regalias, nomeadamente no acesso a escalões que os restantes não poderão atingir. E daí o facto de tanta gente ter concorrido.
De man a 28 de Fevereiro de 2008 às 11:35
Sou mesmo eu e estou profundamente feliz. Relato a breve história do reencontro. Estou a frequentar uma especialização em gestão escolar.. com o Chico...outro prato da balança. Irei fazer um trabalheco sobre liderança. Ao navegar encontrei um post teu, muito interessante, sobre a tua experiência no projecto com a Suécia...foi assim. Tens acesso ao registo do meu mail? Aos poucos tenho lido alguns dos teus textos. Como me revejo. Como te reconheço. É uma emoção tão boa e forte. Bj gde e até já, porque agora não te vou perder.
De rui a 27 de Fevereiro de 2008 às 23:28
Olá, querida Mané. Mas és mesmo tu, Mané? Que saudades. É tão divertido ver-te por aqui. E inesperado, se é que alguma coisa é inesperada nisto. Iluminaste-me o dia, que já estava luminoso. É uma lotaria, sim. "Há dias felizes".
bjos e até já
De man a 27 de Fevereiro de 2008 às 18:24
Será o autor deste excelente verbário o Rui Correia que comigo fez estágio na secundária Infanta D. Maria? Será que a imensa blogosfera me permitiu o feliz acaso de te reencontrar, assim, de surpresa? Será que vinte anos passados,até os rastos perdidos,continuamos a partilhar, de forma tão plena, ideias e sentimentos sobre o mundo que nos rodeia? Estou feliz Rui, que descoberta boa.
Mané
Coimbra

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