Sexta-feira, 29 de Fevereiro de 2008

escolhos

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Tenho vindo a assistir com enfado à consolidação de uma ideia, que parece estar a tornar-se indesmentível, pela qual toda a gente deve poder decidir para que escola irá o seu filho estudar. Em primeiro lugar, a tese nasce de um equívoco que é o de que uma escola que dá melhores condições aos seus alunos deve estar ao alcance de todos; soa a democrático. Ora, isto não passa de mais uma daquelas teses auto-flagelantes. Se uma escola se tornou tão melhor que as outras da região, todos a desejam ter por sua. É humano e natural. Como, evidentemente, nenhuma escola pode admitir toda a gente, muito rapidamente cai por terra a tal democraticidade da escolha, entretanto impossível. Depois, é bom de ver que esta possibilidade de escolher escolas dará lugar a uma mais do que previsível discriminação de umas escolas sobre outras. As dos "maus alunos" e as dos "bons alunos". Vivo numa cidade onde ainda hoje se sente a diferença que existe entre "O liceu" e "A escola industrial". E já vivi em mais duas onde esta distinção se fazia também. Não conheço ninguém que deseje regressar a este cenário antigo.

Tudo estaria, aliás, bem, se ignorássemos que são justamente as escolas que têm mais dificuldades, aquelas que deveriam ver integrados nas suas turmas os melhores alunos, nas suas salas os melhores professores, nos seus orçamentos os melhores apoios. Ao invés, prepara-se as coisas para que os melhores, (professores, alunos, pais) saiam de uma escola para escolher outra escola onde, acto contínuo, não fazem falta nenhuma.

Além disso, pedagogicamente falando, constitui uma grosseira violação da meritória propensão integradora das escolas. Num momento em que se condenam escolas de ensino especial com provas dadas e os miúdos com deficiência entram no ensino regular, baseados na premissa da integração e no conceito irrepreensível da "escola inclusiva", considera-se defensável que se ponha de lado a natural heterogeneidade social, económica, parental, cultural, religiosa, política de uma escola, que resulta de um neutral critério de circunscrição residencial. Cívica e politicamente, é uma bomba-relógio. Uma escola que rejeita a natural selecção geográfica gera, fielmente, um sistema de exclusões.

Aliás, sobre este ponto, as relações entre as comunidades e as escolas sairão claramente diminuídas com esta escolha. Que empresário desejará apoiar iniciativas de uma escola que tem problemas de indisciplina graves e alunos com dificuldades de integração? Só uma que fosse bem gerida por um benemérito inteligente (uma estirpe irrisória); sobretudo se, logo ali ao lado, tem uma escola, a cuja reputação bem mais positiva, pode associar a imagem da sua empresa. É que, face à preferência demonstrada pela escola "boa" e à inevitável constrição de matrículas, começa o processo de selecção. Desta vez pouco natural. Nada é deixado ao acaso. "A não ser talvez, este e aquele rapaz e aquele ali. Mas mais nada. Ah e mais esta, claro".

Numa época em que tudo se coloca em causa e se adora usar a expressão "Isso é um modelo que está falido", sem que se saiba por que sim ou não, é natural que o critério geográfico venha, também ele, a apresentar falência. Não é por lhe faltarem virtudes. é por outra razão maior: porque sim.
publicado por Rui Correia às 21:52
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