Quinta-feira, 6 de Março de 2008

fungo

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Há uns anos fui assistir a uma conferência organizada pela associação Nostrum que tinha por oradora a maior especialista portuguesa em cogumelos. Achei aquilo tão insólito e distante dos meus interesses que não resisti a ir. O meu amigo Pedro veio comigo e comprovaria tudo o que vos digo. Doutorada naquilo, com diapositivos coloridos e apresentações informáticas, com décadas de investigação e pele de laboratório, a partir de certa altura, a oradora referiu-se aos seus cogumelos como “os meus fungos”. E, como a plateia sorriu, ela passou a dizer aquilo repetidamente, “os meus fungos” isto, “os meus fungos” aquilo. Caldo entornado. Havia um palerma na plateia, com o mesmo nome que eu tenho, que chorava a rir sempre que ouvia coisas como “os meus fungos proliferam em todo o lado”, “Eu já não vivo sem os meus fungos” ou “Ás vezes nem sei onde deixo os meus fungos” e por aí fora. Eu não estava sozinho. A vontade de rir que aquilo suscitou na plateia ainda hoje me embaraça. A partir de certa altura só dois ou três espectadores pensavam realmente em ciência. Eu não era um deles. Porque, ainda que eu não aconselhasse a expressão “os meus fungos” para demonstrar dedicação científica aos cogumelos, tornara-se-me impossível não rir. Muito. Mas a verdade é que ríamos por não saber. Nunca estive com um fungo a não ser para o comer ou deitar no lixo. E ria, ríamos todos, de alguém, evidentemente apaixonada pelo que fazia, que procurava corajosamente vulgarizar um assunto invulgarizável e sujeitar-se a uma irreprimível hilaridade geral.

Há dias li um editorial do JN onde o seu inefável director adjunto se referiu à formação contínua dos professores, que até aqui se fazia, como uma “idiotia”. Todos os jornais há uns tempos encheram páginas com o desvio de dinheiros europeus para formação. Regra geral, tratava-se de entidades ligadas à formação profissional, que nada tinham a ver com a área da formação de professores. Um escândalo que se repetiu, aliás, em todos os países da União.

Com a actual reforma da avaliação de docentes, percebe-se que o ministério terá de providenciar-lhes formação. Ora, aquilo que temos, ou seja, os centros de formação de professores, vêem-se confrontados com o facto de apenas terem cabimento orçamental para 60% das acções que candidatam, na sua perspectiva mais optimista. Começa a perceber-se que seria oportuno, agora, consolidar a rede de centros de formação e expandir a rede de formadores; para isso não seria sequer necessário formar um único novo formador, bastaria operacionalizar e flexibilizar aquilo que muitos centros de formação e universidades e politécnicos têm feito ao longo destes anos: partilhar meios, equipamentos, práticas e pessoas.

Mas isso atira-nos para o problema habitual. O pavor pela descentralização. Desta vez, no que respeita à formação. Pontualíssimo, surge o medo de sempre, o estratagema de sempre: “não se deve confiar nos professores”.
E assim nos lançamos no ardil costumeiro, na ladainha usual. Desdenhar experiências anteriores para tornar evidente a necessidade de se criar um novo aparelho formativo. Os centros de formação de professores são liderados por professores, há, por isso, que assegurar que o opróbrio se derrama sobre as suas práticas, avultando o que correu mal e evaporando o que correu bem: “A formação não serviu para nada a não ser para encher uns bolsos aqui e ali”. “E até há montes de processos em tribunal por causa disso. E toda a gente sabe disto.”, “E realmente aquilo não era nada”. “Há um amigo meu que comprou um carro às custas da formação”, e “Os directores dos centros ganha um balúrdio para não dar aulas e ainda sai valorizado nos concursos para titular”, e boçalidades afins. Quem diz estas coisas não sabe o que é um AN2 bem pensado. E isso diz coisas. A mim, pelo menos, diz.

Recordo-me do tempo, não muito longínquo, em que pouquíssima gente na carreira docente, e arrisco, nem 5%, fazia formação regularmente. Nem sequer o termo “formação” fazia parte da vida da sala de professores. Naturalmente, cada um de nós ia a conferências, workshops, cursos de Verão, pós-graduações, mestrados, doutoramentos, mas dispensar aos professores uma rede oficial de formação contínua estável era impensável. Quando chegaram os fundos europeus e os “créditos”, a formação impôs-se por todo o país. Se quisessem progredir na carreira, os professores tinham de ter formação, num regime conveniente (podiam faltar a 1/3 das horas de formação, o que é muitíssimo) e o número de créditos a obter era adequado. Por se ter tornado inevitável, embora não obrigatória, os professores resmungaram contra a formação, mas fizeram-na. Dezenas de milhares deles regressaram à condição de aprendizes de alguma coisa. Houve até quem, como eu, tenha aprendido sempre qualquer coisa importante em cada uma das acções que fiz. Fiz, como exemplo, uma acção de formação sobre fotografia onde aprendi com o meu sábio amigo Francisco muitas, muitas coisas. Todas elas importantíssimas para muitos trabalhos que mais tarde haveria de dirigir.

Sabia-se que novas entidades se iam formando apenas para sorver fundos europeus, proporcionando formação de qualidade e propósito irrisórios. Uma parte desses casos foi apanhada num flagrante delito que as autoridades se incumbiram de sentenciar. Do que conheço, nenhum centro de formação de professores, nem sequer um professor, foi alguma vez apanhado nestes casos, sempre protagonizados por uns melífluos engravatados que sempre aparecem onde lhes cheira a dinheiro.

Ora, por causa destes casos, suja-se hoje a prática da esmagadora maioria dos centros de formação de professores, liderados por gente que criou, em dado momento sem apoios nenhuns, uma rede estabilizada de formação que tem tudo para se impor como uma rede oficial, experiente e qualificada.

Ao invés, assistimos hoje ao aprofundar daquilo que este trabalho menos merece: a orfandade legal. Os centros de formação vivem desde há anos num limbo jurídico que nem os assume como informais nem como fazendo parte da estrutura formativa do país. Têm a espada sempre próxima do pescoço. Se amanhã se extinguissem todos os centros de formação de professores, ninguém estranharia. Nem uma só pessoa. Já ouvi professores defendendo mesmo que estes centros têm servido apenas para uns tantos professores ganharem uns cobres como directores de centros “só para não dar aulas” e outros tantos para “se encherem” a dar formação.

Estamos num país livre e plural, todos podem dizer o que queiram, felizmente. Mas este vilipêndio serve um desígnio que amesquinha os professores e a descentralização. A lógica é: “Se um sistema descentralizado produziu tamanha aberração formativa, certamente não iremos por aí. Alguém discorda?”.

Neste momento importaria que cada escola começasse a estabelecer um plano de formação para os seus professores, e que cada centro de formação de professores dispusesse de fundação jurídica e alicerce orçamental para estabelecer redes humanas de probidade científica e assim promover nos professores aquilo que as suas escolas consideram indispensável.

Ao invés, avulta a ideia pela qual seja qual for o método que possa ser seguido – e orientado – deve seguir-se algo diferente. Algo que evite males maiores. Aqueles. Os do passado. De equívoco em equívoco até ao equívoco seguinte, nada se avalia, nada se aperfeiçoa, tudo se julga. Calem-se os gregos e a sua epoché.

Esta determinação que Portugal tem em derrotar o que não correu na perfeição para o substituir por outra experiência avulsa, enxovalhando a anterior, é um fado mal cantado. Um desporto nacional que escarnece tudo o que se não conhece.
Não há nada a fazer, isto parece fazer parte dos nossos “fungos estruturais”.
publicado por Rui Correia às 12:42
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