Segunda-feira, 24 de Março de 2008

calo

Há um silêncio que é mais calado do que os outros muitos silêncios que há. Não sei bem, em primeiro lugar, a que silêncio me refiro, até porque o é de muitas maneiras, o silêncio. Verão. Aquele que aqui trago é o silêncio que se impõe. O silêncio que não me atrevo a profanar, como quem sopesa uma espada antes de a restituir à baínha. Aquele mesmo silêncio que cala o muito quando há um mundo por interromper. Há bem pouco tempo esse silêncio impôs-se-me como quem tem uma pedra para jantar. Ouvir e calar. Ouvi e calei. Por decência. E encontrei sempre medicina nesse calar. Depois, veio mais outra coisa sobre a qual se me impôs o mesmo tal remédio silente. E outra logo a seguir. E eu nada. Calado, afinal, por necessidade; não por opção. Sobre tudo o resto sempre loquaz. Sempre apaixonadamente loquaz. Mas sobre o mais, sempre mudo. Não por mácula, por pudor. Um silêncio calejado. Ouvir e calar. Ouvir e calar.

De repente, aconteceu-me ver como o silêncio, este mesmo silêncio que aqui afloro, é tão fulcral para outros que não eu. Outros, que eu percebo conhecerem por dentro este silêncio de que vos falo, tão bem ou melhor do que eu. E calam-se. Calam-se tão deliciosamente, tão respeitosamente, com tanta deferência, que se renova, se regenera este meu zelo, esta preferência pela palavra por proferir. Calo.
publicado por Rui Correia às 00:54
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2 comentários:
De Rui a 25 de Março de 2008 às 00:42
Mas quem te diz a ti, ó grande (pe)canino, que esta prosa fala de mim? :)
De Canis a 24 de Março de 2008 às 09:31
havia de ser comigo

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