Quarta-feira, 9 de Abril de 2008

luvas

GSG705.jpg

Todos os dias. Agora é assim todos os dias. Em Benavente, um aluno empurrou a professora por causa de um telemóvel. Em Sesimbra, uma aluna insultou um funcionário por ter sido impedida de entrar num espaço reservado da escola. Em Famalicão, um aluno foi sovado pelos colegas por ter dito ao seu director de turma que um dos seus companheiros de carteira andava metido na droga. Em Oeiras, uma aluna apresentou queixa na polícia contra um professor por este a ter impedido à força de continuar a bater na sua irmã, dentro da escola. Em Sangalhos, um aluno foi expulso por ter repetidamente assaltado o bar da escola. Em Almada, os pais de uma turma juntaram-se para fazer uma espera a um professor. Acontece que o professor era perito em artes marciais e um dos pais depois do confronto apresentou queixa na polícia contra o professor por maus tratos. Tudo isto que aqui expus é falso. Acabei agora de inventar. E, no entanto, aconteceu. Tudo. Os casos sucedem-se. A violência na escola está em todos os jornais. E, por todo o lado, se vêem pessoas a dar opinião sobre isto. Agora, sim. Agora já existe. Até hoje, não existia.

Quando se deu a primeira invasão do Iraque dizia-se que nenhuma guerra realmente começa enquanto não passar na CNN. Aprendemos, então como agora, que as realidades podem existir tranquilamente enquanto não aparecerem no único lugar onde a realidade realmente é real: a televisão. A verdade de todos os dias não conta. Não serve para nada. A realidade só começa se aparecer na televisão. A espantosa portabilidade das câmaras de vídeo que hoje qualquer telemóvel barato já inclui, trouxe consigo novos apetites para transportar a realidade ao palco hertziano de todas as ilusões. Novas chatices, também. Com tanta câmara, ninguém está livre de se ver exposto, amanhã ou depois de amanhã, aos olhares de milhares de pessoas. A invasão da vida privada é um facto que ninguém pode já controlar. A indistinção entre vida privada e vida pública consuma-se, arrepiantemente.

“Ver sem ser visto é um dos mais antigos desejos do homem”, li isto muito novo quando lia um livro para adolescentes chamado “Como funciona?” ao referir-se a um “óculo” de porta. Pois bem, ver sem ser visto é uma fantasia concretizada. O importante é assegurar o anonimato e a inconsequência dos actos. De todas as frases novas que conhecem, aquela que os adolescentes mais apreciam repetir é, afinal, velha: ” temos de viver o dia de hoje como se fosse o último”. Ora, se assim é, tudo vale, desde que valha hoje. Já. Mas será que eles pensam mesmo que o amanhã não existe? Nada disso. É, aliás, muito revelador quando se percebe que eles gostam mais de dizer que o "hoje é que é tudo" do que ouvi-los dizer que "o amanhã não existe". Afinal de contas, a verdade é que toda a gente sabe que o amanhã existe e de que maneira. Vão perguntar àquele pessoal que saiu directamente da escola a pensar que o amanhã não existia e que hoje passam a vida a virar hambúrgueres, só para poderem ter dinheiro para comprar ténis, alugar dvds e comprar um mp3 de 8 giga; vivem frustradíssimos por não terem daqueles empregos que dão mais dinheiro. Com uma inveja enorme dos ex-colegas que os têm. Passam vidas inteiras assim.

É incrível como se demora tanto a entender que os totós de hoje, os marrões e os que tiram boas notas acabam tantas vezes por ficar com os melhores carros, as melhores mulheres, as melhores casas, os melhores empregos (que são aqueles em que um palerma qualquer nos paga muito para fazermos exactamente aquilo que gostamos de fazer). Mas isso é tudo amanhã. O que existe é hoje. Não é amanhã.

Fenómenos como o “happy slapping” (bofetada alegre) em que um grupo de jovens filma agressões estúpidas de vários agressores contra um só, apenas indicam aquela imbecilidade assombrosa e característica de quem não sabe mesmo o que fazer com a sua vida. Antigamente, no tempo em que eu era ainda mais palerma do que sou e andava no liceu, quando vários tipos se juntavam para bater num só, isso significava simplesmente que eles eram todos cobardes. Era uma evidência para todos. Hoje continua a ser uma cobardia asquerosa. Mas ser-se cobarde não é especialmente constrangedor se pudermos ser filmados. É verdade que é preciso ser uma besta para não perceber que uma agressão filmada e publicada na net, facilita imenso a identificação e prisão do agressor. Mas é assim. É uma burrice redonda, pois é. E depois? Qual depois? Não há depois. Há agora.

Como ser burro dá muito menos trabalho do que puxar pela cabeça, o fenómeno do "happy slapping" popularizou-se e está aí em todo o lado. Filmar um acto de violência, mesmo que seja, como estes são, um acto de cobardia, é desprezível porque não comporta nenhum código de honra. Nem sequer o código de honra da rua. A lei da selva. Aquele código que diz que um contra um é que é. Filmar um agressor, com o seu consentimento ou por premeditação só revela estupidez e uma doentia insegurança pessoal. É coisa abichanada.

Conclusão: "hoje o melhor é desconfiar dessa maltosa, que são os adolescentes". Hoje - o que importa é o hoje - tudo se conjuga para os tratar como se fossem todos paradelinquentes. Uma horda de vândalos a abater. Há que endurecer as regras sobre os alunos, é a tónica. Cair forte sobre eles. Isso é que vai ser. É uma tentação que a televisão e o youtube provam todos os dias. Delinquência. Autoridade. Assenta que nem uma luva.

A mim, de repente, a única coisa que me preocupa é o estatuto do aluno. E não me refiro ao documento legal. Refiro-me à dignificação do estatuto do aluno. Penso nos vinte anos de carreira que já levo e nos milhares de alunos excelentes, respeitadores, humorados, inteligentes que tive, tenho e terei e de como eles todos os dias me explicam que são pessoas incrivelmente generosas e empenhadas. O seu exemplo quotidiano esbofeteia-nos, aos cínicos, como verdadeiros happy slappings; de luva branca.
publicado por Rui Correia às 13:12
link deste artigo | comentar | favorito
2 comentários:
De Rui a 9 de Abril de 2008 às 17:42
Muito obrigado, José Eduardo. Passear é uma coisa bonita, sim.
De jos eduardo a 9 de Abril de 2008 às 17:34
È isso tudo e ainda muito mais. Importante mesmo é que hoje me lembrei de te dizer que gosto muito de frequentar o teu blog.

Abraço amigo.

Comentar post

pesquisa

 

arquivo

nós

Dezembro 2012

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
31

t&d
t&d