Domingo, 13 de Abril de 2008

sal

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O festival de jazz do Valado de Frades regressou à casa antiga, agora toda modernaça. E ainda bem. O ambiente é evidentemente mais acolhedor, ainda que esta arrojada decisão implique menor capacidade para um público ávido. O bar para fumadores com televisão CCTV é a medida da sensatez. O ambiente e a fauna humana são os mesmos, o que é excelente para o festival. Muito carinhoso com os músicos – porventura até demais – é impossível que os artistas não pensem em regressar. O investimento da programação no jazz nacional é de aplaudir ainda que importe não a tornar excessivamente orbicular. Nessa região demarcada que é o jazz de Portugal, baralhar para voltar a dar retira frescura e torna as formações mais mal empregadas do que artísticas.

O concerto do Carlos Bica não foi o concerto do Carlos Bica. Evidentemente tratava-se de uma equipa sem governação individual. Bem equilibrado nas prestações, o conjunto de músicos prevaleceu, muito para além de qualquer nome ali percebido como cabeça de cartaz.
Gostei muito de escutar o Mário Delgado que apareceu com um fraseado muito mais maduro e seguro do que o vira anteriormente, com um som minuciosamente igual ao do Adam Levy. Porém, o guitarrista anda interessado na construção de ambiências electrónicas, com os seus onze (!) pedais, que muito expandem o universo musical daquele combo. Acontece é que é um artifício tão excessivo como replicado de outras referências já com demasiados e notáveis cultores (Frisell, Abercrombie, Lê); trata-se de um expediente que está visto e mesmo ultrapassado; como se diz entre músicos, havia por ali “demasiado japonês”.
A presença discreta do piano não chegou a contrastar com a discrição dos restantes músicos. Carlos Bica esteve muito bem, sobretudo no arco e o José Salgueiro esteve longe do que sabe. Sem alma. Pareceu cansado, sem unha, por vezes mesmo desinteressante.
Quanto ao alinhamento, absoluta e pensadamente retro - como é moda agora - passeou-se por quase tudo o que lhes veio à cabeça, desde o tango, às atonalidades. Um concerto, finalmente, com alma a mais e trabalho a menos; com muito menos trabalho do que se esperaria daqueles quatro excelentes músicos. Perdoe-se o desabafo, mas não pode chamar-se “composição” a temas com um uníssono de 8 compassos, seguidos de dez minutos de arritmias e atonalidades (“é moderno, é moderno”) e terminar no mesmo uníssono com um acorde final “extremamente inesperado”. Isso é receita. Falta de sal. Sobretudo com um público que merecia e pedia sempre mais. Os encores foram oportunidades perdidas.
publicado por Rui Correia às 14:17
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