Segunda-feira, 14 de Abril de 2008

momentos

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"Dioniso - Já alguma vez te apeteceu de repente puré de legumes?
Hércules - Puré de legumes? Pois não! Milhares de vezes na vida.
Dioniso - Ora, pois, o que me consome é um desejo assim por Eurípides.
Hércules - Por esse que já morreu?
Dioniso - E não há homem que me convença a não ir buscá-lo.
Hércules - Lá abaixo, ao Hades?
Dioniso - E mais abaixo ainda, se o houver, por Zeus.
Hércules - Que pretendes tu?
Dioniso – Preciso de um poeta hábil. É que uns já não existem, e os que existem são maus.
Hércules - Como assim? Não está vivo Iofonte?
Dioniso – Coisa boa que resta, se é que o é. Pois não sei ao certo como ele é.
Hércules - Então, por que não trazer antes cá para cima Sófocles do que Eurípides, se tens de trazer de lá alguém?"

Na comédia “As rãs”, Aristófanes inventa uma descida ao Hades, em que Hércules, a pedido de Dioniso, deveria resgatar um poeta dos grandes, para devolver à Grécia o ouro da sua dramaturgia, entretanto decadente, com a morte de Sófocles, Ésquilo e Eurípides. Ao chegar ao Hades, Hércules e Dioniso hesitam sobre qual dos poetas libertar. Aristófanes inventa então um concurso violentíssimo entre Ésquilo e Eurípides em que ambos discutem o valor dos seus textos para o enobrecimento da cultura grega. Cada um dos célebres poetas esgrime as suas qualidades literárias para demonstrar quem realmente é merecedor de retornar à vida, ao lado de Dioniso.

Acontece que Aristófanes não morria de amores por Eurípides e não perde tempo a colocar na boca do seu amado Ésquilo, os insultos mais descarados contra Eurípides: “desgraçado”, “ignorante”, “escória dos homens” e por aí fora.
Entre os muitos momentos brilhantes desta peça extraordinária, sobraram-nos alguns versos para a eternidade:

"Ésquilo - Por que motivo se deve admirar um poeta?
Eurípides - Pela sua habilidade e advertência, porque tornamos os homens melhores na cidade."

Existe, porém, um verso em particular que me ficou desde que os meus anos de Cultura Romana me permitiam espiar as aulas da professora Maria Helena da Rocha Pereira. Um verso que sempre conservei na minha memória e que, não sendo especialmente literário, é um eterno desígnio de vida. É quando Aristófanes, não obstante a habilidade oratória de Eurípides, coloca numa antístrofe do coro os auspícios da vitória de Ésquilo, dizendo:

"Coro - Tu que foste dos Helenos o primeiro a fazer palavras como torres e que adornaste o estilo trágico, deixa correr a água, confiante."

Este “deixa correr a água, confiante” foi-me sempre inesquecível e não há semana nenhuma que me não visite. Uma fórmula aparentemente mínima mas que encerra ensinamento e amparo invulneráveis. Sobretudo, quando, uma vez ou outra, me apetece um qualquer, caprichoso, puré de legumes.
publicado por Rui Correia às 08:41
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