Segunda-feira, 14 de Abril de 2008

Roi

É iniludível. Os sinais estão aí e são mais que muitos. Acabou. O mundo educativo, tal como o conhecemos, terminou. A miudagem anda desinteressadíssima. E nada fará com que volte a interessar-se. E isto não é pessimismo. É optimismo. Os professores cumprem aborrecida, funcionariamente o que lhes dizem para aborrecer e fazer funcionar. Todos arengam acerca da sociedade disto e daquilo e nada acontece. Há ainda quem pense que “novos desafios” significa aquilo que significava há vinte anos atrás. Ou que isso dos “novos desafios” é uma conveniência retórica para qualquer coisa que mete computadores pelo meio. E mais nada.

E não, não é a tecnologia. Nem é só a semiologia, (o “eles hoje só se interessam por computadores”). Não é verdade. É mesmo a semântica. O que se aprende. É impossível não ser atraído para a cultura. Não é possível, nem humano não ser atraído para a cultura. Exposições, concertos, teatros, televisões, jogos, a cultura, tudo isto anda cheio de gente por aí a ver, a espreitar, a pagar, curiosa. O sector movimenta milhões, o que significa que o interesse, a avidez estão por aí.

O que é indispensável compreender é que aquilo que atrai uns e outros para a cultura não é a uniformidade. Já não é. É a curiosidade. O que há de particular. O local. O grupal. O individual. É o “como posso eu realmente sentir-me vivo e activo? O que tenho eu de relevante?”. São estes valores globais, morais, éticos, helenísticos, aqueles que mais interessam, não ao futuro, mas ao presente.

Todas as aulas devem orientar-se no sentido de responder a uma única questão que tanto alunos como professores têm calada, dentro de si: “Como posso eu realmente sentir-me vivo e activo? O que tenho eu de relevante?”. Estas interrogações são uma só e necessitam de resposta para que a cultura prevaleça. Isso é o que mais seduz. Não seguir este caminho é arrastar um cadáver. Cada educador deve começar desde já a preparar o seu caminho, não para o que aí vem, mas para o que aí está. Estamos todos com muito trabalho de casa por fazer. E listas de espera, longuíssimas, de muitos anos.

Todo o ensino hoje deve procurar estratégias objectivas para estimular e compensar a curiosidade. De alunos e de professores. Que ninguém se equivoque. Somos melhores professores do que alguma vez se foi em Portugal. Uma aula do ensino primário não se compara com uma aula do primeiro ciclo. Uma aula de ginástica não se compara com uma aula de educação física. Uma aula de aritmética não se compara com uma aula de matemática. E, no entanto, os miúdos não melhoram resultados e sentem-se crescentemente desmotivados, sem entusiasmo. Os professores estão na mesma. Amam a cultura como poucas outras profissões mas não crêem que a sua realmente seja culta. O problema não está nos professores e muito menos nos miúdos. Nem está nas famílias. É o que se aprende que está completamente distorcido. A semântica. O que aprender.

A criatividade toma hoje o lugar da literacia. "Le Roi est mort", mas ninguém grita "vive le Roi". Leia-se com atenção: "A criatividade toma hoje o lugar da literacia". Não se trata de nenhum golpe de Estado. É uma selecção natural. Naturalíssima. Daí o optimismo. Esta é uma frase demolidora. Por isso é que o debate sobre acordos ortográficos e habilitações literárias é tão interminável como ocioso e morto por avançada idade, após doença prolongada, por obsolescência. O futuro não vai andar à procura de habilitações, nem sequer de literacia. Vai premiar a inovação, a diligência e a criatividade. A pluralidade das respostas é o que o futuro mais aproveitará. Numa formulação mais materialista, a curiosidade vai pagar-se caro. E se não orientarmos as nossas aulas, os nossos estudos para o fomento da curiosidade e da criatividade – conceitos siameses – estaremos objectivamente a diminuir os nossos alunos e a condenar as nossas aulas, o nosso esforço, que é imenso, a um rigor mortis epistemológico. Que é imenso.
publicado por Rui Correia às 17:42
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2 comentários:
De Rui a 15 de Abril de 2008 às 20:50
Obrigado, amigo. Já fui dar uma vista de olhos no teu blog e tenho uma crítica ferocíssima a fazer-te. Aquilo é demasiado, tu és demasiado importante para escrever tão poucas vezes. Porque é mesmo preciso ler o que tu pensas. Mesmo. (pausa) Mesmo. Eu volto a dizer: é mesmo preciso ler o que tu pensas.
De Jos Mota a 14 de Abril de 2008 às 23:26
Grande produção :-). Não podia estar mais de acordo com esta visão da escola e do presente que é preciso começar a construir: andamos a viver há muitos anos atrás e a fazer de conta que não damos conta. De forma mais prosaica, também tenho andado um pouco à volta disso aqui: http://josemota.wordpress.com/.

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