Quarta-feira, 16 de Abril de 2008

Vera

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Por razões que deveria a mim competir saber, mas não sei, tenho uma pessoa que se anuncia como minha “gestora pessoal de telecomunicações”. Chama-se Vera e telefona-me de vez em quando só para saber se as coisas estão bem comigo em matéria de telefones móveis. (Penso sempre que isto deveria fazer parte do trabalho regular dos médicos de família, mas enfim). A Vera aconselha-me sobre novos procedimentos e serviços entretanto lançados na praça das comunicações e diz-me como posso enquadrar os meus hábitos com as alterações de mercado que se sucedem velozmente. É sempre muito gentil e diligente e eu respondo-lhe na mesma moeda, sentindo-me sempre muito favorecido com o cuidado personalizado que ela me dedica. Passados uns dias alguém da operadora para a qual trabalha, telefona-me a saber se a Vera está a cumprir bem o seu papel de gestora. Eu respondo sempre que sim. Por ser verdade. Mas percebo que sou parte do sistema da avaliação profissional da Vera. Essa importância, que não escolhi, nem desejo, confere-me uma autoridade de que, quase impunemente, posso abusar. Imagino que, nem conhecendo a Vera de lado nenhum, possa armar-me ao pingarelho e desatar a achar que não gosto do seu tom de voz, ou do tarifário que escolhi por sua instrução ou que não percebi bem uma coisa qualquer que ela me dissera, um mês antes. Presumindo que a minha avaliação tenha quaisquer efeitos, não será surpreendente que a Vera me telefone daí a dois ou três dias, já com outros modos.

Li, há dias uma frase tão abusadora quanto visionária: “No futuro, todos utilizaremos a mesma língua. Mas ninguém a utilizará bem.” Tudo se pode, evidentemente, extrapolar daqui mas a mim deu-me para a associar ao presente estado de coisas na Educação. Houve uma negociação de muitas horas que resultou num entendimento – a avaliar pelo tempo que uns e outros despendem nas televisões e rádios e jornais a distinguir a palavra “acordo” da palavra “entendimento”, imagino que isto ocupou uma boa parte, e estéril, daquelas horas todas.
O que dali resultou foi uma sopa. Instantânea. Em primeiro lugar, a avaliação tal como foi gizada pelo Ministério não saiu derrotada. Adiou-se. O intitulado “Memorando de Entendimento entre a Plataforma Sindical dos Professores e o Ministério da Educação” não accionou nenhum sistema de avaliação para os professores. Nada se encaminhou para o futuro. Nem chega a perceber-se se aquilo que havia morreu de exaustão (de uns pelos outros). Em conclusão, não temos nada que se assemelhe a um qualquer processo de avaliação profissional.
Aquilo que inicialmente era uma oportunidade e, muito antes de chegar à rua, se metamorfoseara em aberração legal é hoje um nado-morto. Felizmente. Mas não foi em vão. Infelizmente. A irresponsabilidade traz sempre consigo estas coisinhas a que chamamos consequências. Dos escombros retiraram-se, já sem sopro de vida, a disponibilidade tradicional dos professores, uma fatia enorme da sua alegria, a habitual melancolia por estar-se próximo da reforma e a fundação democrática das organizações educativas, nomeadamente interrompe-se, à bruta, um certo caminho de autonomia que as escolas iam experimentando, com razoável sucesso e acolhimento do poder central.

Sobre estas cinzas edificou-se um incompetente sistema de hierarquias, um funcionalismo sem renúncia, um prazer mundano por finalmente deixar de dar aulas, o tal verdadeiro abandono escolar que já aqui referi muitas vezes. Todo o professor pensa, hoje: “por que andei eu décadas a entregar-me de corpo e alma a isto?”. A desmotivação é assumida e quase necessária. As inocências voluntaristas dos professores até aqui eram ingénuas, nobres talvez, mas, em todo o caso, algo patuscas; hoje são emboscadas laborais. Na súmula, temos uma escola com um clima humano bem pior do que a que tínhamos antes deste processo. Este processo descarregou-se sobre uma escola, enfim, onde o que mais importava estimular, expira, agora, por justificada eutanásia.

Ser sujeito a uma avaliação gera melhores modos. Pela manifesta exposição que implica, predispõe ao profissionalismo e desembaraça mediocridades. Pode mesmo gerar impulsos de renovação, de comunicação, correcção, aditamento, advertência, partilha, colaboração, actualização e orientação. Deste processo negocial não resulta nada de ulterior. E não ter nada de substancial sobre avaliação profissional não importa benefícios a ninguém.

Entretanto, todos se declaram fluentes numa língua universal que ninguém utiliza muito bem. Fica por decifrar a tal língua única do futuro em que aprender seja um acto de filantropia e a imaginação o fulgor de todo o estudo.
publicado por Rui Correia às 17:34
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5 comentários:
De Rui a 17 de Abril de 2008 às 15:40
Tens razão, Fernando. Já me referira a esse despropósito num post anterior acerca de uma colega que este mês soube que se iria reformar e da explosão que foi na sala de professores. É como a Mané e o JM dizem: esta Entente não despertou nenhuma valorização da classe, trouxe isso sim um reforço da representatividade da Frente sindical, o que é um aspecto nada despiciendo.
De Fernando a 17 de Abril de 2008 às 12:47
Como de costume, estás a abarrotar de razão. Por isso, os professores têm de falar cada vez mais e melhor, uma vez que já ouviram o suficiente. Só não concordo contigo numa coisa: a habitual melancolia de se estar perto da reforma foi substituída por uma infinita alegria, e - isso sim - é mais um sintoma preocupante.
De JM a 17 de Abril de 2008 às 00:02
Eu por mim fiquei tão irritado com o entendacordo que nem me apetece elaborar nada de coerente. Felicito-te por conseguires fazê-lo com a lucidez e a qualidade do costume. A mim só me apetece dizer asneiras :-D.
De Rui a 16 de Abril de 2008 às 22:50
A pergunta é: o que existe de vantajoso em admitir um "entendimento" sobre um desacordo acerca de algo tão complexo como indispensável? E que diabo é isso de reuniões de sete horas?
De Man a 16 de Abril de 2008 às 22:39
Como concordo. Além de ficarmos com o nado morto nas mãos, desgostou-me profundamente a camuflagem do "entendimento" ou "acordo" ou...numa moção que não dizia os termos do dito. Tens razão a "Entente" resulta da exaustão e nós exaustos ficámos. Mas sem glória, no "ground zero".

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