Sexta-feira, 25 de Abril de 2008

trinca

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A única vez que Portugal foi capa da revista Time foi quando Salazar apareceu ao lado de uma maçã. A maçã era luzidia por fora e comida pela bicheza por dentro. Intragável era o Portugal de então, dizia a revista. O correspondente da Time em Portugal foi imediatamente obrigado a sair do país juntamente com a sua mulher e, dizia o edital, devia levar consigo o cão. Tudo por causa de uma maçã que fomos obrigados a trincar durante quarenta e oito anos. Depois chegou o 25 de Abril com um regaço cheio daquelas maçãs que fazem barulho ao trincar. E depois vieram os aniversários do 25 de Abril. Ano após ano, certo e sabido é que a comemoração deste dia provocaria extraordinárias paixões entre a classe política. Esta irritação pelo 25 de Abril é, ainda hoje, impressionante. Atingiu o seu ponto mais alto no ano de 1993 quando não conheceu quaisquer celebrações oficiais. Importa, pois, perguntar o que existe de tão demoníaco no 25 de Abril que, vinte anos passados, continua a incomodar e a apaixonar tanta gente. Vale a pena também perguntar por que razão o 25 de Abril não significa rigorosamente nada para outra tanta gente? Comecemos pelo princípio: como se comemora o 25 de Abril? As celebrações obedecem anualmente ao mesmo cerimonial: se são oficiais, temos parada militar com toda a certeza e uma sessão na Assembleia da República que se enche de cravos que os deputados da esquerda usam ao peito e os outros não. Entretanto, nas ruas, os sindicatos - de esquerda - organizam marchas de cidadãos nas principais cidades, onde só também só vão os de esquerda, e organizam também provas de atletismo para dar juventude às festividades. Primeira conclusão: o 25 de Abril é um aborrecimento mortal e precisa de novo mestre de cerimónias.
O que é que o 25 de Abril trouxe de bom? Para quem nunca sentiu a necessidade de mudar nada, nada. Para quem acha que há um tudo em mudar, tudo. Para quem acha que é sempre preciso mudar tudo, nada. Do 25 de Abril há quem diga, porém, que é bom poder dizer-se o que se pensa, sem ter receio que alguém na nossa família venha a sofrer por causa disso. No entanto, a revolução dos cravos é acusada de tudo e de mais alguma coisa. Por exemplo, as poucas-vergonhas que hoje se vêem por aí na rua devem-se ao 25 de Abril. Assim como a falta de respeito e a ausência de civismo se devem ao 25 de Abril. Também a prostituição e a criminalidade se devem ao 25 de Abril; decididamente também a droga com toda a certeza é produto do 25 de Abril. Fica-se com a ideia pela qual tudo o que é mau se deve ao 25 de Abril. Com alguma generosidade, é de crer que a SIDA e o buraco do Ozono também se devem ao 25 de Abril. Como se antes do 25 de Abril a vida fosse melhor. Para alguns seria, com certeza. Não para a maioria, seguramente. Dá vontade de perguntar: e os presos políticos que havia nesse tempo? e a emigração? e as centenas de milhares de mortos da guerra colonial? e a fome? e a vulgarização do trabalho infantil? e a inexistência de partidos e sindicatos? e os números a vermelho nos bilhetes de identidade? e o analfabetismo? e a corrupção? e o desprezo diplomático que todo o mundo civilizado nutria por Portugal? e o atraso económico que ainda não sabemos como recuperar? e a censura? e a tortura? Ninguém duvida que muita coisa de mau vem com a liberdade. Mas não é, certamente, por culpa da liberdade, nem do 25 de Abril. É por culpa dos tais, que são quem não sabe viver em liberdade. Os que, se calhar, nem deviam. Quem é que, sinceramente, estava à espera que depois do 25 de Abril todos soubessem viver em liberdade? Se o 25 de Abril não foi, ou não é ainda, o que todos estavam à espera, ou estão ainda, é porque não soubemos, nem sabemos ainda, propor os caminhos certos nos momentos certos para que ele viesse ou venha a ser aquilo que esperámos e esperamos dele. Nada é mais fútil e fácil do que condenar; distinto e difícil é ser melhor em casa. Agora imagine-se lá fora.
Enquanto se fechar o 25 de Abril em prisões ideológicas, nunca ele significará o que realmente significa: uma libertação obtida pela unidade de todos os quadrantes sociais de uma anacrónica sociedade portuguesa. Rigorosamente, por todos e para todos. Por isso não é admissível, nem ao cidadão mais apolítico, ter sobre este dia uma posição neutral. O 25 de Abril não comemora apenas uma efeméride, soleniza um valor universal: ser livre. É claro que sempre se impõe a homenagem aos que o conceberam e puseram em prática, os capitães de Abril, como tão romântica e erradamente se lhes chamou. Mas não se tenha o atrevimento de pensar que este dia lhes pertence. Não pertence nem à direita nem à esquerda. Pertence-me a mim. Vai uma trinca?

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(Este texto tem 14 anos de idade e mudou com o tempo. Foi escrito quando a liberdade fazia 20 anos e Cavaco Silva era primeiro ministro e se congratulava por uma democracia "tão perfeita, que o povo me deu maioria para governar com estabilidade". Lamentável ignorância. Foi publicado no extinto Correio do Litoral, o último jornal de São Martinho do Porto. Esta versão faz hoje precisamente 9 anos de idade, a idade que eu tinha quando o meu pai cortou o bigode por causa de uma coisa qualquer que ele escutara na rádio nessa manhã).
publicado por Rui Correia às 10:01
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2 comentários:
De Rui a 25 de Abril de 2008 às 21:15
Manuel Dias Sempre.
De Fernando a 25 de Abril de 2008 às 12:30
Como sempre, ler-te faz-me bem. O Manuel Dias hoje compraria um cravo. Como não pôde, comprei-o eu.

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